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Um ano kunderiano

Do A Terra É Redonda, 27 de Dezembro 2023
Por DANIEL AFONSO DA SILVA*


Imagem: Jeffrey Czum

Levou muito tempo para que a mensagem e o sentido da obra de Milan Kundera fossem compreendidos

A brincadeira foi o primeiro livro de Milan Kundera publicado no Ocidente. Saiu em francês, pela Gallimard, em 1968, concomitante aos instantes em que os estampidos da rue de la Sorbonne, do boulevard Saint Michel, da rue des Écoles e do Quartier Latin faziam-se ouvir por todas as partes. Era um primor. Uma obra de arte. Um livro mágico. Lírico. Intensamente vibrante. Mas que passou, por claro, despercebido.

Aqueles jovens moços – alguns não tão jovens assim – estavam preocupados com destinos. O passado era um fardo para eles. O trágico na vida e na história havia virado um expediente démodé. O momento era de nova bossa, bossa nova. Queria-se proibir o proibir. Romper hierarquias. Matar o pai. Retirar os ternos. Queimar gravatas. Romper as formalidades. Estraçalhar a família. Desconjuntar instituições. Desmoralizar autoridades. Ressignificar referências. Horizontalizar relações.

Como reação, o general Charles De Gaulle – encarnação da autoridade e da verticalidade – ensaiava algo em Baden-Baden. George Pompidou imaginava contemporizações. Daniel Cohn-Bendit agitava as massas. Os antigos combatentes da Verdun, La Marne, La Somme seguiam perplexos. Os companheiros da resistência ao nazismo observavam esses moços como, geracionalmente, ingratos, imaturos, inconsequentes, indecentes e, muita vez, inclusive, oportunistas e, não raro, cretinos.

Raymond Aron chegou a grafar textualmente ser inadmissível que um país sério com a França viesse a se permitir que um ginasial da qualidade de um Daniel Cohn-Bendit desautorizasse um presidente da República, herói das guerras totais, como o general De Gaulle – e lembre-se que Raymond Aron não morria de amores pelo general.

Mas passou. Paris se acalmou. O general “capitulou”. Perdeu o referendum em 1969 e partiu. Deixou o poder. Morreu no ano seguinte. Em 9 de novembro de 1970. E os tempos, a partir daí, começaram a mudar.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Os dias do 9 ao 12 de novembro de 1970 anunciaram as mudanças. Gerações inteiras na França, na Europa e no mundo perceberam o vazio imediatamente. Desde que a notícia ia se espalhando por todas as partes, nenhum mandatário, nenhuma autoridade e nenhuma pessoa minimamente informada e sensível aos eventos mundiais ficou indiferente ao acontecimento.

Charles De Gaulle era o último gigante entre os gigantes daquele século que dava o seu adeus – Josef Stálin nem Winston Churchill causaram tamanha comoção ao partirem em 1953 e 1965 respectivamente. Lideranças do mundo inteiro, porquanto, interromperam os seus afazeres para se render em pessoa a Paris, naqueles dias de novembro de 1970, para ofertar as suas últimas condolências ao general francês que libertara a Paris em 1944, recompusera a França em 1944-1946 e presidira o país de 1958 a 1969.

Mais de oitenta chefes de Estado ou de governo compareceram ao ofício religioso executado na catedral Notre-Dame de Paris no dia 11 de novembro de 1970. O presidente norte-americano Richard Nixon. O primeiro-secretário soviético Nikolaï Podgorny. O xá o Irã Reza Pahlevi. O primeiro-ministro britânico Anthony Eden e seu antecessor Harold Wilson. O presidente do Senegal Léopold Sedar Senghor. O presidente da Finlândia Urho Kekkonen. O príncipe Charles representando Sua Majestade, a rainha Elisabeth. A rainha Juliana dos Países Baixos. O imperador da Etiópia Haile Selassié. O irmão do imperador Hussein da Jordânia.

Dezenas de personalidades como o artífice do Estado de Israel David Ben-Gurion. Dezenas a centenas de companheiros da liberação francesa de 1944. Oficiais da Legião de Honra e heróis da resistência. Todo o corpo diplomático estacionado em Paris. Todos os integrantes de corpos burocráticos intermediários. Toda a classe política francesa representada pelo presidente George Pompidou e por personalidades como André Malraux, Alain Peyreffite, Jacques Chaban-Delmas, Valéry Giscard d’Estaing, Edgar Faure e outros. Centenas a milhares a dezenas de milhares de pessoas anônimas vindas de toda Paris, toda França, toda Europa e de todos os continentes para ofertar a sua última homenagem.

O cardeal François Marty, em obediência aos desígnios do general, proferiu uma missa simples e baseada no Evangelho de João. Um silêncio penetrante tomava conta de todos os interiores da faustosa catedral. Até seus vitrais pareciam meditar. Entidades ortodoxas, islamistas e israelitas marcaram a sua presença e um coral plural finalizou o ofício com peças de Johann Sebastian Bach. O aeroporto de Orly suspendeu o seu funcionamento no horário a partir das 11h, horário da missa. Todo o transporte público em comum francês interrompeu as suas operações por um minuto pontualmente às 12h. Floristas de todas as partes se viram abarrotados de demandas que chegavam do mundo inteiro. Estados Unidos da América, Grécia, Vietnã, Arábia Saudita. O mandatário da República Popular da China, Mao Tsé-Tung, mandou encomendar oito furgões especiais de rosas, dálias, lis, crisântemos, violetas adornadas ao estilo chinês.

Enfim, símbolos contam. Depois vieram as mutações.

No campo das ideias, após a morte do general, pouco a pouco, A brincadeira de Milan Kundera, ignorada até então, caiu no gosto do público. Seu sucesso foi tamanho que rendeu meios e inspiração para o seu autor migrar da Checoslováquia para a França. Primeiro para Rennes. Depois para Paris.

Paradoxalmente, quanto mais os franceses, os europeus e os ocidentais liam e comentavam o livro, mais Milan Kundera se decepcionava. Aqueles franceses, europeus e ocidentais, para ele, não haviam sentido nem entendido tampouco percebido a mensagem.

O lirismo de A brincadeira era para negacear as angústias das ilusões impostas pelo comunismo no Leste Europeu e não para coonestar a ingenuidade dos militantes sem causa das ruas de Paris. Essa era a impressão de Milan Kundera, mas também de muitos. Inclusive de gente à esquerda e bem à esquerda tipo um comunista convicto da qualidade de um Georges Marchais.

Mas, àquela época, já era politicamente incorreto denunciar atos indecentes. A bien pensance e o pensamento único franceses, europeus e ocidentais já haviam aprovado os feitos do Dany le rouge. Mas como Milan Kundera era um outsider e não tinha nada ou quase nada a perder, não teve problemas em anunciar os ovos de serpente em gestação.

Nesse sentido, desde 1975 ele foi integrado à Escola de Altos Estudos a convite de Pierre Nora e François Furet com a missão de ilustrar os ocidentais sobre as pluralidades da Europa.

Estava claro, claríssimo, para os segmentos mais eruditos que 1968 foi o caminho de Damasco das gerações que se converteram à desconstrução e à desrazão versus aquelas que desejavam recompor seus passados. Os relógios da Europa, ali, deixaram, assim, de bater a mesma hora. O Ocidente começou a ser carcomido desde dentro da Europa. Que perdeu a possibilidade de alguma unidade entre europeus ocidentais e orientais.

A primavera parisiense coincidiu com as primaveras de Praga e de Varsóvia. Ao passo que as autoridades francesas se desdobravam para pactuar saídas para o lirismo revolucionário vanguardista cheio de boas intenções dos parisienses, tanques de guerra com munição e autorização para matar dispersavam os protestos poloneses e checos.

Quem ficou demasiado encantado com os eventos de Paris de 1968 acabou não notando nem anotando nada disso. E, pior, não percebeu que os sinais das reivindicações eram trocados e os ponteiros dos relógios das variedades europeias não marcavam mais a mesma hora.

Os franceses queriam destruir as autoridades e as tradições. Isso se sabia desde sempre. O que se ignorou – e se ignora até hoje – foi que os europeus do Leste eram menos jovens, mais populares, inteiramente moderados, sem nenhum lirismo, defensores das tradições, da história, da cultura europeia, do cristianismo, da arte moderna e, enfim, do ethos europeu dos ocidentais como instrumentos de superação das ilusões de um comunismo confuso, autoritário, criminoso e sem futuro.

De muito escrutinar essas diferenças e convicções, Milan Kundera produziu, em 1984, Ocidente sequestrado para responder aos acadêmicos e A insustentabilidade leveza do ser para conversar com a alma dos ocidentais.

Quem retornar com calma a A brincadeira e a A insustentabilidade leveza do ser vai perceber algo muito intrigante. A brincadeira foi concebida em estilo lírico, demasiado lírico; e A insustentabilidade leveza do ser apareceu em tom integral e fortemente irônico.

Por quê? Uma resposta simples e rápida indicaria que Milan Kundera era um gênio – e era mesmo – e dominava todos os estilos. Uma reação mais sopesada reconheceria que entre 1968 e 1984 mudaram-se os tempos, os desejos, as vontades, as prioridades e as sensações. O Ocidente sucumbiu em escombros e ficou difícil transitar por ele de cara limpa. Os tempos viraram desabados e cínicos demais para lirismos.

Milan Kundera se foi em 2023 ainda cultivando essa convicção e ninguém foi capaz de contradizê-la nem de segui-la. Que 2024 altere essa situação. Que seja um ano kunderiano.

*Daniel Afonso da Silva é professor de história na Universidade Federal da Grande Dourados. Autor de Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas (APGIQ). [https://amzn.to/3ZJcVdk]

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