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Ucrânia | Quais as chances de solução para a guerra que há um ano impacta o mundo?

Difícil uma saída considerada vitória por ambos, mas é possível uma em que nenhum lado ache que perdeu mais que o outro


Por Giorgio Romano
Do Brasil de Fato | São Paulo (SP) | | 25 de Fevereiro de 2023



Manifestação pró-Ucrânia neste sábado em Paris: até quando os europeus vão seguir apoiando o conflito? - Emmanuel DUNAND / AFP

Para começar a guerra é preciso da determinação de uma parte; para terminar, é necessário das duas.

É razoável supor que Putin pensou que provocaria uma queda rápida do governo de Kiev, sacramentada com uma fuga de Zelensky, ao demonstrar força total invadindo a Ucrânia por três frentes ao mesmo tempo. Seja como for, a guerra nesse momento se concentra claramente nos territórios ao leste, incluindo Donbass com um controle terrestre que liga a península da Crimeia à Rússia e transforma o mar de Azov - “novamente” nas palavras do próprio Putin- em um mar interno russo.

São regiões nas quais se afirma ter uma população majoritariamente de etnia russa, embora seja difícil saber até que ponto eles preferem que suas terras sejam anexadas pela Rússia.

Os frequentes bombardeios de infraestrutura ucraniana, fora dessa área, parecem seguir uma lógica de enfraquecer a resistência ucraniana que combate a anexação das áreas ocupadas, mas sem uma estratégia além disso. E, embora, existam rumores de uma nova ofensiva russa, não está mais no horizonte uma completa ocupação da Ucrânia com a instalação de um regime pró-russo, muito menos uma anexação completa, por mais que Putin continue expressando se tratar de um território que nunca deveria ter se separada da pátria mãe.

Considerando que de outro lado, não é muito realista imaginar que as forças armadas ucranianas sejam capazes de expulsar as tropas russas e até reincorporar a Crimeia, ainda mais considerando os limites do apoio militar e logística dos países da Otan (A aliança militar ocidental), esta guerra está se transformando em um conflito de trincheira. Até quando as duas partes, no entanto, podem continuar assim ?

Primeiro ponto é o apoio da população. Na Europa o quadro é misto, há países onde parte significativa da população já é contrária a continuar fornecendo armas, como o caso da Itália e outros onde o apoio continua alto, como na Polônia.

Mas, no seu conjunto há um risco de aumento dos questionamentos se o fornecimento armas, em número crescente e mais sofisticadas, possa resolver o conflito, embora os governos, com exceção da Hungria, se mantenham firme no apoio. E isso vale também para os EUA.

A segunda questão é a disponibilidade de armas. O que assistimos até agora foi em grande parte o fornecimento de armas que já estavam em estoque e, para alegria do complexo industrial-militar, o compromisso dos governos doadores de comprar novas armas, para manter e aumentar a sua própria defesa, inclusive com tecnologia mais avançada. Mas há limites e um problema temporal, porque a produção de novas armas leva mais tempo e de outro lado há limitações de absorção, sobretudo das armas de maior sofisticação, não obstante os esforços de organizar treinamento fora da Ucrânia.

Em terceiro lugar, há o estresse sobre os preços, em particular de energia que levou as taxas de inflação a um patamar mais elevado para os padrões europeus. Analisando as taxas de inflação anualizadas, percebe-se grandes diferenças entre os países, de 5,5% na Espanha para 15,3% na Polônia e 25% na Hungria, com uma média de 10,4% na União Europeia e 9,2% na Zona do Euro. Contudo, a erosão dos salários reais acirra o conflito distributivo e vimos, nos últimos meses, mobilizações sindicais por reajustes salários que não eram vistos havia muito tempo em vários países europeus.

De outro lado, o caos anunciado e, provavelmente esperado pelo Putin, não aconteceu. Há vários motivos que explicam que, ao final, os preços de energia, embora em patamares muito elevados, não desorganizaram as economias e o tecido social europeu.

Primeiro o inverno muito mais ameno que baixou a demanda e logo aliviou a pressão sobre os preços. Segundo o baixo empenho da economia chinesa devido principalmente à sua política muito restritiva de covid-zero, que só foi abandonada no início desse ano. Um crescimento de 3% do PIB chinês, bem menor que a média nos últimos anos, significou também menor demanda por energia, o que aliviou os preços internacionais.

Junta-se a isso dois outros fatores: o acesso ao gás liquefeito (GNL) embora mais caro, de terceiros, em particular - mas não só - dos EUA. E, gastos públicos pesados para subsidiar os preços para o consumidor. Ao final, houve inclusive uma surpreendente resiliência da Zona do Euro que cresceu 3,5% em 2022 - pela primeira vez em décadas acima do crescimento da China -, enquanto os EUA ficaram com crescimento de 2,1%. Ninguém mais fala em recessão europeia, mas a situação está longe de ser tranquila.

Além disso, há setores que ganham fortunas com a guerra, entre estes, as empresas petrolíferas e, de forma mais permanente, o complexo industrial-militar.

No caso da Europa há ainda outro fator que começa a pesar cada vez mais: a onda de refugiados do conflito, que depois de um ano está em torno de oito milhões. Em princípio, a sua grande maioria deles voltaria para seu país de origem pós-conflito. Mas, diante da perspectiva de encontrar um país destruído, e uma prolongada permanência nos país hospedeiras, o cenário parece ser para muito de se estabelecer e criar uma nova vida, aproveitando inclusive dos braços abertos com os quais foram recebidos até agora em contraste com outros fluxos migratórios do passado.

De outro lado, a Rússia está passando por uma dupla reorientação da sua economia. De fora para dentro, e do Ocidente para o Oriente. Putin falou em seu discurso na semana passada na construção de “uma economia autossuficiente muito forte”.

Há um processo de substituição das importações e nacionalização de produção e oferta de serviço. Exemplo é o MacDonalds, cuja abertura em Moscou logo depois da queda da União Soviética tinha se tornado um símbolo da nova era. Agora o capital americano saiu e a rede se transformou em uma rede russa de fastfood, a Vkousno i tochka (algo como 'Delicioso, ponto final', em tradução livre).

Ao mesmo tempo, o presidente russo anunciou uma reorientação das suas relações comerciais e econômicas para o Oriente de forma permanente, não só com a China, mas também Índia, Asia Central e Sudeste asiático. A Rússia mostrou nesse ano sua resiliência e não se verificou também o desastre anunciado nos primeiros meses, com previsões de queda do PIB que chegavam aos dois dígitos.

É verdade que o aumento do comércio com a Índia e China, embora sem provocar as sanções ocidentais, contribuíram. Mas a Rússia também aproveitou de esquemas existentes no capitalismo globalizada de desaviar os fluxos de mercadorias e finanças. Isso faz das sanções um queijo suíço, com, por exemplo, aumento do trânsito via países como Turquia, Cazaquistão e China. Junta-se a isso que os países europeus, sem alternativas, continuaram durante meses comprando petróleo, gás e carvão da Rússia em grandes volumes e agora a preços mais altos. E isso apesar de toda a retórica e das sanções que custam cerca de 1 bilhão de euros por dia para a Rússia.

Contudo, houve queda de mais de 2% do PIB e isso após de uma década de crescimento pífio. Junta-se a isso os sacrifícios humanos com dezenas de milhares de jovens mortes e feridos e uma repressão dos espaços democráticos que provocou fluxos migratórios sobretudo de jovens profissionais.

Uma guerra exige fechar as fileiras e obedecer. Por enquanto todo indica que o sistema político e a própria posição de Putin se mantenham firmes com apoio popular, mas, sem perspectivas de uma melhora nas condições de vida e avanços na frente de batalha, isso pode se alterar.

Um outro player importante é a China. A Ucrânia tinha na China seu principal parceiro comercial. Além do mais, o respeito à integridade territorial é um princípio sagrado, não só para as Nações Unidas, mas para a própria política externa chinesa desde a Revolução de 1949. Não é à toa que consta como um dos principios centrais de Conferência de Bandung (1955).

Ao mesmo tempo, a China tem todo interesse em uma Rússia estável politicamente, distante do Ocidente e cada vez mais dependente dela como mercado exportador de matérias primas, manufatura e tecnologia. Nesse contexto, aumenta a influência chinesa na Asia Central.

Mas uma guerra que desequilibra levemente o Ocidente é uma coisa, e outra diferente um conflito prolongado que pode representar riscos para a China. Por exemplo, o fortalecimento da Otan sob maior liderança dos EUA. E a guerra prolongada complica também o objetivo número 1 da China para esse ano, após abandonar a política de covid-zero: voltar a crescer de forma robusta.

Diante tudo que foi exposto acima, pode parecer que o momento para iniciar as negociações é agora. Mas, como disse no começo, para isso é preciso a vontade de todas as partes e ai começa o problema.

Nos EUA e o Reino Unido, em particular, os governos continuam apostando em uma vitória total e humilhação da Rússia. Isso reafirmaria a força da Otan que sairia revigorada e pronta para ampliar seu mandato visando a contenção do principal rival, a China.

O primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, falou, na semana passada, em dobrar a aposta (“double down”) na Conferência de Segurança de Munich. Depois dos bilhões de apoio em armamentos, qualquer concessão para a Rússia pode parecer uma vitória para Putin. Nessa equação nunca pode se submeter o poder e a influência do complexo militar-industrial, cuja influência política, aliás, merece mais atenção e pesquisa.

Outro fator importante são os cálculos eleitorais nos EUA. Embora o voto seja determinado pelo empenho da economia doméstica, uma vitória acachapante sobre a Rússia por parte das tropas ucranianas armadas e treinadas pelos EUA e seus aliados, seria um grande triunfo, mas, de outro lado, um retirada do apoio seria interpretada como uma grande derrota.

Nenhum dos cenários mencionados é muito provável. As maiores chances são de França e Alemanha dispostas a negociarem compromissos, inclusive porque estão sentindo o peso da continuação da guerra e, conforme mencionado, uma queda na aprovação pública da atual política de vencer no campo de batalha com o fornecimento de cada vez mais armas e mais sofisticadas.

Da parte da Rússia a situação talvez seja mais complicada ainda. Já circulam notícias de forças mais radicais que criticam a condução da guerra. Uma retirada de tropas russas de Donbass e devolução dos territórios anexados formalmente seria visto internamente como uma derrota e colocaria as ambiciosas políticas, aparentemente ilimitadas, do Putin em cheque.

A propaganda de guerra transmite a imagem de pátria mãe novamente diante de uma ameaça existencial vinda do Ocidente.

E na Ucrânia a situação não é mais propensa a se imaginar concessões. Difícil saber qual é o clima entre a população nas regiões anexadas e que não fugiram. Mas tudo indica que, no restante do país, Zelensky viu sua popularidade crescer de forma exponencial desde o início da guerra. Lembrando que, após ganhar de lavada as eleições em 2019, ele, por vários motivos, estava muito debilitado no início do ano passado com índices de aprovação despencando de 70% para 30% e, diga-se de passagem, muito pouco prestigio no Ocidente.

Uma análise minuciosa das declarações de Zelensky ao longo desse ano mostra muitas contradições e uma evolução marcante. Houve momentos em que ele declarou em video entrevista com a revista britânica The Economist que havia países que estavam interessados em prolongar a guerra para enfraquecer a Rússia, em uma clara referência aos EUA. Em outras ocasiões, sinalizou disposição para renunciar à pretensão constitucional de aderir à Otan e até declarações sugerindo que poderia aceitar um acordo que reconhecesse Crimeia como parte da Rússia.

Com o fluxo contínuo e organizado de fornecimento de armamentos e a surpreendente capacidade de resistir, frear o avanço russo e até reconquistar território, o discurso foi se radicalizando até se alinhar com o discurso dos EUA. Aparente, e infelizmente, Zelensky não tomou nota das experiências de outros aliados dos EUA que, no passado recente, do dia para o noite, foram abandonados à sua própria sorte, como por exemplo, do Nguyen Van Thieu e Ashraf Ghani, respectivamente no Afeganistão e no Vietnam do Sul.

A promessa de dobrar a aposta gera uma falsa percepção de que seria possível ganhar a guerra no campo de batalha e obrigar a Rússia a aceitar todas as reivindicações de Kiev, que, por mais legitimas que possam ser, não é o cenário mais provável.

Mas como Putin, Zelensky terá muita dificuldade em manter suas renovadas ambições políticas internas em um cenário de paz negociada com concessões territoriais. Em particular os países do Leste Europeu, Polônia e os países bálticos a frente - com exceção da Hungria - , insistem que qualquer concessão manteria o apetite por parte da Rússia para novas aventuras militares.

Isso é pouco provável porque significaria avançar em território da Otan e Putin pode cometer erros, mas conhece os limites. A exceção é a Moldávia, vizinha da Ucrânia, onde já há tropas russa em uma parte do país a Transnístria. Qualquer acordo deve incluir, portanto, a Moldávia.

É muito difícil imaginar uma fórmula que possa ser apresentada como vitória por todos os lados em guerra. O que pode ser apresentada é uma proposta na qual nenhuma das partes considere que perdeu mais que o outro.

É nesse contexto que o Lula sugeriu um papel para o Brasil e outros países não envolvidos na guerra e não alinhados com nenhum dos dois lados, embora sofram das consequências dramáticas especialmente pela pressão sobre os preços internacionais de energia e alimentos. Em 2003 diante da invasão estadunidense no Iraque, Lula articulou uma Ação internacional contra a fome e a extrema pobreza em oposição à lógica da guerra e militarização. Disputar novamente a pauta da comunidade internacional a partir de uma perspectiva do Sul Global é urgente.

Mesmo se, por milagre, se conseguir um cessar fogo seguido de paz a curto prazo, a guerra terá provocado mudanças profundas no cenário internacional, com o fortalecimento da Otan, agora mirando a contenção da China.

E uma preocupação real: o aumento expressivo dos orçamento militares no mundo tudo, em particular na Alemanha e Japão, dois países que estavam ainda contidos pela sua história e agora dobraram seus gastos militares com relação ao PIB. É mais que oportuno priorizar a cooperação e investimentos no combate à fome, crises climática, pobreza e doenças infecciosas esvaziando a lógica da militarização e guerra. Em dezembro desse ano Brasil assume o G20 e, em 2025, a presidência dos Brics. Oportunidades únicas para o governo Lula pautar esse debate durante sua gestão.

*Giorgio Romano Schutte, professor de Relações Internacionais e Economia da UFABC, e membro do Observatório da Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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