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Ucrânia: uma possível saída à guerra sem fim

Otan entope Kiev com mais armamento pesado e teima em humilhar Moscou. Mas conflito não terá um vencedor e é preciso criar uma via para a paz. Brasil, Índia e Turquia podem ser decisivos para conter a escalada e o risco nuclear



De OUTRASPALAVRAS, 24 de Janeiro 2023
Por Jeffrey Sachs em The Economist | Tradução: Maurício Ayer | Imagem: Olga Chernysheva


Nem a Rússia nem a Ucrânia parece ter condições de alcançar uma vitória militar decisiva na guerra em andamento: ambos os lados têm espaço considerável para uma escalada mortal. A Ucrânia e seus aliados ocidentais têm poucas chances de expulsar a Rússia da Crimeia e da região de Donbas, enquanto a Rússia tem poucas chances de forçar a Ucrânia se render. Como observou Joe Biden em outubro, a espiral de escalada marca a primeira ameaça direta de “Armagedom nuclear” desde a crise dos mísseis em Cuba há 60 anos.

O resto do mundo também está sofrendo, embora não na escala do campo de batalha. A Europa provavelmente está em recessão. As economias em desenvolvimento lutam contra o aumento da fome e da pobreza. Fabricantes de armas americanos e grandes empresas petrolíferas colhem lucros inesperados, mesmo quando a economia americana em geral piora. O mundo enfrenta incertezas elevadas, cadeias de suprimentos interrompidas e riscos terríveis de escalada nuclear.

Cada lado pode optar pela continuação da guerra na crença de que tem uma vantagem militar decisiva sobre seu inimigo. Pelo menos uma das partes está equivocada em tal visão – provavelmente, ambas. Uma guerra de exaustão devastará os dois lados.

No entanto, o conflito pode continuar por um outro motivo: nenhum dos lados vê a possibilidade de um acordo de paz executável. Os líderes ucranianos acreditam que a Rússia usaria qualquer trégua na guerra para se rearmar. Os líderes russos acreditam que a OTAN usaria qualquer trégua na guerra para expandir o arsenal da Ucrânia. Eles escolhem lutar agora, em vez de enfrentar um inimigo mais forte mais tarde.

O desafio é encontrar uma maneira de fazer com que um acordo de paz seja aceitável, crível e executável. Acredito que a necessidade de uma paz negociada precisa ser considerada de forma mais ampla, primeiro para evitar que a Ucrânia se torne um campo de batalha perpétuo e, de maneira mais geral, por ser benéfica para ambos os lados e para todo o resto do mundo. Pode-se promover uma forte discussão com o intuito de envolver países neutros para ajudar a impor um acordo de paz que beneficiaria muitos.

Um acordo crível precisa primeiro atender aos principais interesses de segurança de ambas as partes. Como John F. Kennedy sabiamente disse na construção do bem-sucedido Tratado de Interdição Parcial de Testes Nucleares com a União Soviética em 1963, “mesmo as nações mais hostis podem aceitar e manter as obrigações do tratado, e apenas as obrigações do tratado, que são de seu próprio interesse”.

Em um acordo de paz, a Ucrânia precisaria ter certeza de sua soberania e segurança, enquanto a OTAN precisaria se comprometer a não se expandir para o leste. (Embora a OTAN descreva a si mesma como uma aliança defensiva, a Rússia certamente pensa o contrário e resiste firmemente à ampliação da OTAN.) Alguns compromissos precisariam ser encontrados em relação à Crimeia e à região de Donbas, talvez congelando e desmilitarizando esses conflitos por um período de tempo. Um acordo também será mais sustentável se incluir a eliminação gradual das sanções contra a Rússia e um acordo entre a Rússia e o Ocidente que contribua para a reconstrução das áreas devastadas pela guerra.

O sucesso pode efetivamente depender de quem está envolvido na tentativa de encontrar e assegurar a paz. Uma vez que os próprios beligerantes não podem forjar essa paz sozinhos, uma solução estrutural chave reside em trazer partes adicionais para o acordo. Nações neutras, incluindo Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia e África do Sul, pediram repetidamente um fim negociado para o conflito. Eles poderiam ajudar a fazer cumprir qualquer acordo que seja alcançado.

Esses países não odeiam a Rússia nem odeiam a Ucrânia. Eles não querem que a Rússia conquiste a Ucrânia, nem que o Ocidente expanda a OTAN para o leste, o que muitos veem como uma provocação perigosa não apenas para a Rússia, mas talvez para outros países também. Sua oposição à expansão da OTAN se intensificou à medida que os americanos mais linha-dura passaram a incitar a aliança a confrontar a China. Os países neutros ficaram surpresos com a participação dos líderes de países da Ásia-Pacífico, como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, em uma cúpula no ano passado que supostamente deveria envolver apenas países do “Atlântico Norte”.

O papel pacificador dos principais países neutros pode ser decisivo. A economia e a capacidade de guerra da Rússia dependem de relações diplomáticas fortes e contínuas e do comércio internacional com esses países neutros. Quando o Ocidente impôs sanções econômicas à Rússia, as principais economias emergentes, como a Índia, não seguiram o exemplo, não quiseram escolher um lado e mantiveram fortes relações com a Rússia.

Esses países neutros são os principais atores da economia global. De acordo com as estimativas do FMI quanto ao PIB em paridade de poder de compra, a produção combinada de Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia e África do Sul (US$ 51,7 trilhões, ou quase 32% da produção mundial) em 2022 foi maior que o das nações do G7 – EUA, Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália e Japão. As economias emergentes também são cruciais para a governança econômica global e ocuparão a presidência do G20 por quatro anos consecutivos, além de posições de liderança em importantes órgãos regionais. Nem a Rússia nem a Ucrânia querem desprezar as relações com esses países, o que faz deles importantes garantidores potenciais da paz.

Além disso, muitos desses países procurarão melhorar suas credenciais diplomáticas ajudando a negociar a paz. Vários, incluindo, é claro, o Brasil e a Índia, são aspirantes de longa data a assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU. A possível arquitetura de um acordo de paz poderia ser um tratado co-garantido pelo Conselho de Segurança da ONU com várias das principais economias emergentes. Além dos países mencionados acima, outros co-fiadores confiáveis ​​incluem a Turquia (que habilmente mediou as negociações Rússia-Ucrânia); a Áustria, que se orgulha de sua duradoura neutralidade; e a Hungria, que detém a presidência da Assembleia Geral da ONU este ano e clamou repetidamente por negociações para acabar com a guerra.

O Conselho de Segurança da ONU e os co-garantidores imporiam medidas comerciais e financeiras acordadas pela ONU contra qualquer parte que violasse o acordo de paz. A implementação de tais medidas não estaria sujeita ao veto da parte infratora. A Rússia e a Ucrânia teriam que confiar no jogo limpo dos países neutros para garantir a paz e seus respectivos objetivos de segurança.

Não faz sentido que os combates continuem na Ucrânia. Provavelmente, nenhum dos lados vencerá uma guerra que atualmente está devastando a Ucrânia, impondo enormes custos em vidas e lucros à Rússia e causando danos globais. Os principais países neutros, em conjunto com a ONU, podem ser co-garantidores para iniciar uma nova era de paz e reconstrução. O mundo não deve permitir que os dois lados levem adiante uma espiral imprudente de escalada militar.



JEFFREY D. SACHS
Jeffrey D. Sachs é Professor da Universidade de Columbia, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e Presidente da Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele atuou como conselheiro de três secretários-gerais da ONU e atualmente atua como advogado dos ODS sob o secretário-geral António Guterres.

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