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Suely Rolnik: Para o Brasil esconjurar o fascismo

Escravista, patriarcal e violenta, formação do país é fértil para subjetividades que querem a brutalização e o extermínio do outro. Saída precisa ser micropolítica, também: libertar nossos inconscientes do narcisismo que se blinda à diferença


De OUTRASPALAVRAS, 20 de Janeiro 2023
Por Suely Rolnik | Tradução do espanhol: Josy Panão;Título original: Brasil: desafios frente ao sinistro



Imagem: Fabio Stamato/Redes sociais do Ilú Oba de Min

A bestial invasão das sedes dos três poderes da República foi grave e está longe de se resolver. Caminhamos em equilíbrio instável, em uma corda bamba, desde que começou a se instalar no país a nova modalidade de golpe que levou Bolsonaro à presidência. Uma modalidade de golpe que se dá em várias etapas, que começou bem antes disso e está longe de chegar ao fim (como descrevi em meu livro Esferas da insurreição. Notas para uma vida não cafetinada1). Primeiro, uma tensão terrível durante todos esses anos. Depois, um alívio, uma alegria, que veio com a vitória de Lula e permaneceu nos dias que se sucederam, o que logo se interrompeu com acampamentos de bolsonaristas em frente a quartéis do exército por todo país e uma tentativa malograda de explosão de uma bomba no aeroporto de Brasília. Depois de novo o regozijo com a festa da posse de Lula no dia 1 de janeiro e aquela imagem da passagem da faixa presidencial por representantes de setores sociais que foram sempre excluídos do banquete republicano; uma resposta poderosa à fuga covarde de Bolsonaro que dá corpo em imagem ao fato tão óbvio e tão denegado de que o presidente é mandatário da sociedade, em todos seus segmentos. Sete dias depois, essa invasão bárbara e a rápida reação do governo que a desmantelou com mão forte. E a coisa segue na corda bamba.

Enfrentar essa situação não envolve apenas a cena nacional, já que a mesma resulta das estratégias do capitalismo que, em sua versão financeira (em que se unem neoliberalismo e um conservadorismo extremo), adquiriu um poder globalitário. São estratégias transnacionais muito bem orquestradas e com volumoso financiamento. Como comento no mencionado livro, o Brasil tem sido um importante laboratório destas estratégias, o que foi facilitado por uma característica específica de nossa história. Compartilhamos com os demais países da América a marca estrutural da fundação de nossa existência como nação pelo empreendimento colonial e a violência que lhe é intrínseca: o roubo das terras dos povos originários, seu genocídio, assim como o sequestro de milhares de africanos, vendidos como escravos aos donos das terras usurpadas (o Brasil, diga-se de passagem, é o país que recebeu o maior contingente de africanos escravizados, chegando a 4,86 milhões). No entanto, é singular o modo como esta violência estrutural se atualiza em nossa história institucional, além do fato de sermos o único país no continente que jamais reconheceu tal violência e, tampouco, lhe deu respostas à sua altura.

Primeiro, tivemos uma independência proclamada por iniciativa do próprio filho do rei de Portugal (que havia sido nomeado por seu pai como príncipe regente do Brasil). Em seguida, a abolição da escravidão jamais aboliu a condição de absoluta precariedade das pessoas de pele negra. O mais absurdo é que, quando se proclamou a República, os militares responsáveis pelo golpe que deu fim à monarquia e que tomaram o comando do governo, poucos anos depois ofereceram este comando aos fazendeiros (os quais haviam apoiado o golpe), como uma forma de “indenizá-los” por terem perdidos seus escravos. E enquanto se continuava ignorando os negros, entregues à sua própria sorte, sem qualquer tipo de apoio, o governo supostamente republicano ofereceu terras, equipamentos, sementes para plantar e todas as facilidades a cinco milhões de europeus (sobretudo camponeses pobres), cuja imigração foi financiada pelo governo como parte de um projeto de “embranquecimento” da sociedade brasileira. Depois, houve uma sequência de ditaduras, em cujo término sempre se anistiou os responsáveis pelas atrocidades cometidas por estes regimes (um pacto perverso disfarçado sob a máscara da cordialidade que supostamente caracterizaria os brasileiros), ao contrário do que ocorreu no resto do continente. Há um filme recente, Argentina 1985, que mostra como promotores públicos lograram julgar e prender os responsáveis pelas violências cometidas pela ditadura naquele país, processo que foi amplamente compartilhado pela sociedade. Aqui, nada.

Ter deixado impune esta sequência de violências fez com que os traumas que estas provocaram (e continuam provocando) jamais tenham sido elaborados. A consequência é que essas infinitas feridas seguem abertas, encapsuladas na memória do corpo dos brasileiros, junto com suas respostas inadequadas às mesmas (respostas reativas decorrentes da impossibilidade de acessá-las). Tais feridas voltam a se infectar em situações de crise, como a que está acontecendo agora, produzindo rompantes de reatividade em massa. Por este motivo, somos muito mais vulneráveis à nova modalidade de poder do capitalismo, produtora de uma política de subjetivação que podemos chamar de fascista por sua dinâmica, embora seja distinta do que foi o fascismo histórico, pelas diferenças dos respectivos contextos. Uma destas diferenças é o avanço das tecnologias de comunicação, e, portanto, de manipulação, altamente sofisticadas e muito mais eficazes. Tais tecnologias criam igualmente as condições para a gestão globalitária desta máquina infernal, adaptada às especificidades não só de cada país, mas dos distintos setores de suas respectivas sociedades.

Quando se produziu o vandalismo, já estávamos nesta situação complexa e de alta tensão e sabíamos que seria muito difícil para o governo Lula manejá-la, já que terá que enfrentar manobras de adversários muito hostis a seus projetos (instalados no Congresso, nas Forças Armadas, na Polícia Federal etc., com o apoio de uma parcela significativa do empresariado). Esta é a razão pela qual Lula teve que estabelecer uma política de amplas alianças. E apesar de que, por ora, Lula conte com o apoio das forças progressistas internacionais, as forças internas contra ele contam com o apoio desta extrema-direita internacional altamente articulada (que, inclusive, pode sair vitoriosa nas próximas eleições em países que hoje apoiam o atual governo).

E o desafio não para por aí: enfrentar o retorno do fascismo na sociedade brasileira não se limita à esfera macropolítica, mas envolve estratégias na esfera micropolítica. Refiro-me à esfera do regime de inconsciente colonial-racial-patriarcal-capitalista (como o designo no tal livro, onde descrevo as engrenagens de seu maquinário): a fábrica de mundo, responsável pela produção e reprodução de um tipo de subjetividade e suas formações no campo social, cuja versão extrema é o fascismo. Não é óbvio se desfazer da subjetividade fascista, que já afeta quase a metade da população (a que votou em Bolsonaro). É verdade que não são todos os seus apoiadores que estão de acordo com os atos terroristas (que vêm se repetindo e que culminaram na invasão de Brasília), no entanto suas mentes estão igualmente capturadas por um caos cognitivo, que os distancia da realidade, numa espécie de delírio paranoide. Nos mais fanáticos, chega-se à convicção de que a Terra é plana, e que o fato de nos terem feito acreditar que ela é redonda seria parte “da conspiração” (que insistem em chamar de comunista, nome genérico que se dá a seus outros, nos quais se projeta a figura do inimigo).

A estratégia de enfrentamento nesta esfera consiste em ocupar a fábrica de mundo sob gestão do regime de inconsciente dominante, o que requer um trabalho complexo e sutil, já que implica em libertar nossa própria subjetividade do poder desse regime que produz um narcisismo blindado ao outro, convertendo-o numa tela de projeção de representações. Que sejam as representações “do mal” dos sujeitos de direita, que os demonizam, ou as “do bem” dos de esquerda, que os idealizam, ambas são igualmente marcadas pela falácia da suposta hierarquia racial, estabelecida no final do século XV, quando se passou a aplicar a noção raça à espécie humana, o que veio junto com a ideia tóxica de que nossa espécie seguiria uma linha evolutiva universal (daí a ideia de progresso), em cujo topo estaria o modo de existência do branco europeu, macho das elites coloniais, hoje elites do mercado financeiro.

Junta-se a essa dificuldade o fato de que, ao contrário da experiência acumulada de resistência na esfera macropolítica, o ativismo micropolítico é relativamente novo na história do Ocidente moderno, o que torna esta tarefa ainda mais desafiadora. A boa notícia é que os movimentos dos negros, indígenas, ambientalistas, feministas e dissidentes da noção de gênero e da heterocisnormatividade que, nas últimas décadas, foram se fortalecendo muitíssimo por todo o continente, atuam exatamente nessa esfera, além de erguer suas vozes na esfera pública da indispensável luta macropolítica contra a iniquidade de direitos (seu ativismo macropolítico). Nos movimentos negros e indígenas o trabalho micropolítico tem se alimentado do princípio que rege a produção de mundos própria à sua ancestralidade. Tal princípio vem sendo atualizado no presente, o que tende a destituir o regime de inconsciente dominante de sua autoridade e tem poder de contágio.

O que está em jogo aqui é um tratamento clínico-político do modo de subjetivação dominante: abrir o acesso em nossos corpos aos efeitos da presença viva do outro (não só humano), presença que passa a nos compor e nos transforma. É da avaliação destes afeitos que depende a possibilidade de uma construção coletiva de mundos à altura das demandas da vida, nossa responsabilidade ética. A blindagem ao outro nos torna surdos a tais demandas, o que permite o desvio da vida de seu destino ético, para ser cafetinada a serviço da acumulação de capital (não só econômico e político, mas, também e indissociavelmente, social e narcísico). Por aí há uma possibilidade de mudança que levará décadas, quiçá séculos, já que curá-lo é nada mais nada menos do que curar o trauma da violência colonial que nos constitui, condição para uma efetiva transfiguração de nossa sociedade.

Em 11 de janeiro de 2023, foram inaugurados dois novos ministérios no governo Lula, que representam um marco importantíssimo em nossa história: o ministério da Igualdade Racial e o ministério dos Povos Indígenas, que estarão sob o comando de duas mulheres ativistas (Anielle Franco, negra, e Sonia Guajajara, indígena). Não por acaso, o vandalismo do domingo, 8 de janeiro de 2023, ocorreu na véspera da cerimônia prevista para as posses das duas novas ministras, no Palácio do Planalto, o que fez com que a mesma tivesse que ser adiada por dois dias, quando os espaços do edifício já estavam recompostos (o que se deu em tempo recorde). Isso tornou a cerimônia ainda mais emocionante. Se este é um inegável avanço da luta contra o racismo na esfera macropolítica (resultante dos movimentos dos indígenas e dos negros, principalmente das mulheres), é necessário que isso se acompanhe de avanços na esfera micropolítica.

Como muitos latino-americanos, hoje meu desejo está totalmente investido no diálogo com ativistas dos referidos movimentos e com seu pensamento; diálogo em que, a partir de experiências e linguagens distintas, compartilhamos nossos diferentes modos de exercer o combate micropolítico, o que (não sem atritos e graças a seu enfrentamento) vai gerando transmutações em nossa subjetividade e sua relação com o outro. É isso o que tem permitido muitos de nós não sucumbir ao desastre que estamos vivendo, nos mantendo ativos. Minha intuição é que esta reviravolta micropolítica em processo logrará, a longo prazo, ou melhor, a longíssimo prazo, fundar uma nova política de formações do inconsciente no campo social e suas formas de governabilidade, produzindo cartografias em processo contínuo de criação coletiva, no lugar do chamado “pacto social” que nos funda. Um pacto maldito que implica um consenso homogeneizador que bloqueia esses processos, macro e micropoliticamente, sufocando tudo aquilo que lhe escapa.

Em poucas palavras, minha intuição é que, paralelamente à paisagem macabra que estamos vivendo, está em curso o reflorestamento dos campos subjetivo e social. Nesta operação, aos poucos vai sendo substituída a monocultura que se impôs aos mesmos desde a fundação colonial do Brasil, submetendo a vida para colocá-la a serviço do capital. Esta é uma tarefa que tem enfrentado (e, sem dúvida, seguirá enfrentando) muitas barreiras, com diferentes graus de violência cujo extremo é extermínio, mas ao que tudo indica parece haver algo de irreversível no ar.

[Texto originalmente publicado no periódico espanhol CTXT Contexto y acción (Número 292 – Janeiro 2023, Madri)].
Nota

1 Livro publicado no Brasil em 2018, pela editora n-1, e na Argentina em 2019, pela editora Tinta Limón, com o título Esferas de la insurrección. Apuntes para descolonizar el inconsciente. O livro foi igualmente publicado em Portugal, em 2020, pela editora Teatro Praga /Sistema Solar, com o título Esferas da Insurreição. Notas para uma vida não chulada.

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SUELY ROLNIK
Psicanalista, crítica de arte e cultura, curadora. Professora Titular da PUC-SP e, desde 2007, docente convidada do Programa de Estudios Independientes do Museu de Arte Contemporáneo de Barcelona. Em 2008, foi docente convidada do Master Oficial en Historia del Arte Contemporáneo y Cultura Visual, Universidad Autónoma de Madrid e Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía e pesquisadora convidada pela Fondation de France, no Institut National de l'Histoire de l'Art. Viveu exilada em Paris de 1970 a 1979 onde graduou-se em Filosofia e Ciências Sociais na Université de Paris VIII, e fez graduação, mestrado e DESS em Ciências Humanas Clínicas na Université de Paris VII. Doutorou-me em Psicologia Social pela PUC-SP, em 1987. Sua investigação enfoca as politicas de subjetivação em diferentes contextos, abordadas de um ponto de vista teórico transdisciplinar e indissociável de uma pragmática clínico-política. Desde os anos 1990, atua sobretudo no campo da arte contemporânea. É fundadora da Rede Conceitualismos do Sul, composta de 50 investigadores latino-americanos. Autora, entre outros, de Manifeste Anthropophage / Anthropophagie Zombie (Paris : Black Jack éditions, 2012), Archivmanie (Berlim: HatjCantz/Documenta 13, 2011), de Cartografia Sentimental. Transformações contemporâneas do desejo (Estação Liberdade, 1989; 2a Ed. Sulinas, 2006, 5a Ed. 2011) e, em colaboração com Félix Guattari, de Micropolítica. Cartografias do desejo (Vozes, 1986, 11a ed. 2011), cuja 7ª ed. revista e ampliada (2005) foi publicada em sete países




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