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O último romance de Proust

Do A Terra É Redonda, 20 de Janeiro 2023
Por MARCIO SALGADO*



Alexey Savrasov, Volga perto de Yuryevets , 1870

Comentário sobre o livro de Cláudio Aguiar

O último romance de Proust, do escritor Cláudio Aguiar, narra a busca dos manuscritos do famoso romancista francês, Marcel Proust (1871-1922), por contrabandistas e falsificadores de arte, que desembarcam em terras tropicais com o propósito de resgatá-los a qualquer custo. A ação se passa em Olinda, cidade colonial de Pernambuco, durante o carnaval de 1972.

Os manuscritos estariam nas mãos do professor de latim Danilo Morais, que vive o pesadelo de tê-los guardados em suas gavetas de cômodas antigas. O fato do professor guardar – ou não guardar –, os manuscritos em seu poder, é um mistério que o autor conservará até as páginas finais.

De qualquer forma, há justificativas lógicas para a sua existência, já que foram trazidos ao Brasil antes da morte de Marcel Proust, por seu “amante e secretário”, Henri Rochat, a quem o escritor francês, já doente, sem condições de escrever, ditou os três últimos volumes do seminal Em busca do tempo perdido. Com ele, foram trazidos ainda outros manuscritos inéditos, e dados, desde então, como desaparecidos.

Diante desse enredo, é necessário que o leitor faça a sua parte, ao interagir com as peças montadas pelo narrador. E, afora a trama, deve estar alerta às referências, pois são frequentes as citações sobre a vida e a obra de Marcel Proust. Nada disso, porém, sugere algum tipo de resistência para os leitores: o estilo é ágil, e a linguagem, acessível.

Sem perder de vista o contexto abrangente do que se convencionou chamar de literatura policial, O último romance de Proust se aproxima do subgênero noir. Uma ficção contemporânea que traz as marcas sombrias da ação humana envolta em suspense.

A ensaísta Lyslei Nascimento, em estudo sobre a literatura criminal brasileira, observa que as grandes cidades inspiram essas ficções: “Para além dos contos noir, a literatura brasileira vem produzindo, ao longo das últimas décadas, um sem número de romances em que as cidades são territórios privilegiados para a orquestração de crimes e delitos que põem em cena o espaço urbano com suas mazelas, personagens que sucumbem em tramas mortais e histórias cujo teor multifacetado traduz-se em verdadeiros tabuleiros de xadrez.”

Com enredos que misturam violência, mistério e suspense em um ambiente de sombras, a literatura noir apresenta personagens deslocados da sociedade, distantes dos detetives da literatura policial tradicional, restauradores da lei e da ordem.

A trama do romance começa a ser urdida em Paris, quando Pierre Cambronne, ex-oficial do exército francês é contratado por um contrabandista e falsificador de obras de arte para recuperar os originais do escritor francês, supostamente, em poder do professor Danilo Morais, residente em Olinda. “Quando Cambronne e Ponds se encontram pela segunda vez no restaurante do Cabaret Au Lapin Agile, em Montmartre, ambos estavam animados e eufóricos em relação ao projeto que iriam empreender”.

Por aí é possível vislumbrar o universo moral dos personagens envolvidos, mas a literatura, desde sempre, alimenta-se desses sentimentos contraditórios, sendo que o mal e as transgressões de comportamento, enquanto temas literários, funcionam como fatores de sedução dos leitores. Conforme Lyslei Nascimento, todas as vertentes da ficção policial contemporânea colocam no cenário de delitos e transgressões, sujeitos que “podem ser caracterizados como inumanos ou bestializados”.

Após a preparação do ato que iriam deslanchar, Cambronne e Ponds partem para o Brasil, e aqui se juntam a Lídice, amiga que servirá de guia na cidade. Fantasiada de odalisca, ela esbanja sensualidade e tenta seduzir o professor que guarda os manuscritos. Os dias de carnaval favorecem a execução do ato planejado, pois a cidade se transforma com o constante movimento de gente, que mal se reconhece em seus disfarces.

Mas, à medida que o tempo passa, eles percebem que as chances de sucesso da sua empreitada diminuem. A propósito, as partes do livro estão dispostas de acordo com os dias de carnaval, e o narrador aproveita esse fato para descrever os desfiles de troças e blocos carnavalescos, e o intenso movimento dos foliões pelas ruas da cidade colonial.

Aspectos da vida e da obra do escritor francês Marcel Proust são narrados por Danilo Morais, quando se encontra no porão de um sobrado sob as ordens dos seus algozes. Ele tenta dissuadi-los com longas digressões sobre assuntos que fogem aos seus objetivos. Com esse artifício, o autor obtém um efeito didático – ao discorrer sobre um escritor universal – e produz um retardo da narrativa, de modo a sustentar o suspense que é próprio desse gênero literário.


Outras obras do autor

Cláudio Aguiar é autor do livro “Francisco Julião – uma biografia” (Civilização Brasileira, 2014), com o qual ganhou o Prêmio Jabuti. O livro, que consumiu dez anos de trabalhos, com pesquisas, entrevistas e a escrita, conta a vida do líder das Ligas Camponesas, que nasceu e viveu em Pernambuco, antes de partir para o exílio no México, ao final dos anos 1960. Publicou ainda “A última noite de Kafka e outros dramas”, reunindo suas 11 peças de teatro (ABL, Ibis Libris, 2015); o livro de poemas “Baile de luz” (2019) e “A casa de João Fernandes Vieira” (2021), ambos publicados pela Ibis Libris.

Cláudio Aguiar é graduado em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor pela Universidade de Salamanca, Espanha. Pertence à Academia Pernambucana de Letras, à Academia Carioca de Letras, e foi presidente do Pen Clube do Brasil, entidade de escritores empenhada na defesa da liberdade de expressão.

*Marcio Salgado é jornalista e escritor. Doutor em Comunicação pela UFRJ. Autor do romance O filósofo do deserto (Multifoco).

Referência

Cláudio Aguiar. O último romance de Proust. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2022.

Bibliografia

NASCIMENTO, Lyslei. As cidades e os crimes: um perfil da literatura criminal brasileira contemporânea. In: JEHA, Julio. (Org.). Noir: aproximações. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2017, p. 91-107.

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