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O Peru e os desafios de Abya Yala

Do IELA, 13 de janeiro de 2023
Por Elaine Tavares


Foto: Angela Ponce/Reuters

Desde a prisão do presidente Pedro Castillo, logo após a sua tentativa de fechar o Congresso, que as manifestações populares de protesto não param no Peru. E a violência tem sido a resposta dos órgãos de segurança do país, comandados pela presidente Dina Boluarte, a vice que assumiu o cargo depois da prisão de Castillo. Já são 36 dias de manifestações em todo o país. Esta semana a polícia matou 18 pessoas em Juliaca, Puno, e feriu 78 num enfrentamento com manifestantes. Já são mais de 50 mortos no processo, bem como 518 feridos e um número ainda não sabido de desaparecidos. Ontem, milhares de pessoas foram às ruas em Juliaca, para a despedida dos mortos e o governo decretou uma proibição de três dias nas manifestações.

Os protestos em todo o país exigem eleições presidenciais imediatas, bem como a criação de uma Assembleia Constituinte, com a dissolução imediata do Congresso atual.

O presidente Castillo venceu a candidata da direita – filha de Fujimori – em uma eleição livre e aberta, mas logo nos primeiros meses já enfrentou problemas no Congresso, visto que os congressistas procuravam inviabilizar cada nome apontado como ministro. Castillo acabou cedendo e, na tentativa de manter a governabilidade, foi trocando o gabinete de governo a cada nova crítica. Em seguida passou a enfrentar as tentativas de impedimento do seu mandato baseadas em um vago conceito de “incapacidade moral”. Para os movimentos sociais que estão na rua realizando marchas, trancamento de estradas e manifestações, são os congressistas que devem ser varridos do país, já que parecem não ter qualquer preocupação com os destinos do Peru. Tudo tem se resumido a uma queda de braço com o presidente porque não aceitam a derrota nas urnas.

A decisão de fechar o Congresso, tomada por Castillo de maneira atabalhoada, sem a costura de acordos políticos, acabou por acelerar o processo de impedimento – três já haviam sido tentados sem sucesso – e no mesmo dia em que deu a ordem de fechar a casa legislativa, o presidente foi deposto em uma sessão de emergência e logo em seguida preso. A prisão desencadeou protestos em todo o país e desde aí a violência policial tem sido feroz.

Para os que arriscam suas vidas nos protestos a única forma de colocar o Peru no rumo é a imediata dissolução do Congresso com a criação de uma Assembleia Constituinte, capaz de dar conta das demandas que ficaram apenas no papel, já que Castillo não conseguiu governar, tendo de preocupar-se mais com a ofensiva do Congresso. Os peruanos também querem novas eleições, pois tampouco confiam em Castillo que se mostrou débil na condução do governo, e muito menos confiam na atual presidente. Não encontram razão para que não sejam convocadas as eleições e não estão dispostos a parar. Mesmo com o massacre realizado em Juliaca, a intenção dos movimentos que estão mobilizados é continuar atuando até que as demandas sejam atendidas.

Têm sido tempos difíceis na América Latina, nossa Abya Yala. Mesmo com a ascensão de governos de matiz mais progressista, a impossibilidade ou a incapacidade de realizar mudanças estruturais que verdadeiramente mudem a realidade da maioria, acaba sendo combustível para que a direita – sempre alerta – desarticule e provoque instabilidade visando assumir o comando. A crítica radical ao sistema capitalista, que deveria ser instrumento da esquerda, passa a ser feita pela direita e são esses políticos que aparecem como os salvadores da pátria bramindo bandeiras como o combate à corrupção, da qual são useiros e vezeiros.

Por outro lado, apesar da irrupção das massas em protestos e rebeliões tampouco tem sido possível a construção de alternativas revolucionárias capazes de atacar com eficácia a lógica de dependência e subdesenvolvimento imposta ao continente latino-americano desde a fracassada tentativa da Pátria Grande. Cuba segue sendo uma estrela solitária e a Venezuela segue aos tropeços, acossada e atacada a cada tanto. O Brasil, agora com Lula, engrossa o desfio. Diante da ação sistemática da extrema-direita precisa decidir se vai abrir mão da radicalidade ou não. A história ensina que tentar compor com a burguesia nunca dá em algo bom.

Seguimos, sem pernas, mas caminhando.

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