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No quarto ataque em 4 meses, dois indígenas Guajajara são baleados na cabeça no Maranhão

Atentado aconteceu segunda-feira (9) na Terra Indígena Arariboia; os jovens de 18 e 16 anos estão na UTI em estado grave



Por Gabriela Moncau
Do Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 11 de Janeiro de 2023 


Contra as invasões constantes, indígenas da TI Arariboia organizam a própria proteção por meio do grupo Guardiões da Floresta - Ronilson Guajajara / Mídia India

Por volta das 5h da manhã desta segunda-feira (9), dois indígenas do povo Guajajara da Terra Indígena (TI) Arariboia foram alvejados na cabeça quando caminhavam pela rodovia MA-006, na cidade de Santa Luzia (MA). Benedito Guajajara, de 18 anos, e Júnior Guajajara, de 16, estão em estado grave na UTI do Hospital Regional de Grajaú.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), os disparos partiram de um carro preto e atingiram os jovens quando, perto da aldeia Maranuwi, chegavam em casa depois de uma festa.

O caso está sendo investigado pelo Delegacia de Polícia da cidade de Arame (MA) e acompanhado pela Polícia Federal. Em nota, a Polícia Civil informou que está coletando depoimentos de "testemunhas e familiares" e que até o momento ninguém foi preso.

"A gente procurou saber e eles não se envolveram em nenhum tipo de confusão na festa, nada", explica Gilderlan Rodrigues, coordenador do Cimi no Maranhão. "A gente está preocupado porque é uma situação recorrente, não é uma situação de ontem", enfatiza.

A região é marcada por conflitos envolvendo a invasão da TI Arariboia por parte de madeireiros, caçadores e traficantes. Dados do Instituto Socioambiental (ISA) mostram que de setembro de 2018 a outubro de 2019, foram abertos 1.248 ramais para exploração ilegal de madeira dentro do território. Só em 2021, cerca de 380 hectares foram desmatados na área, que está homologada desde 1990.

Violência constante

Há apenas quatro meses, três indígenas Guajajara foram assassinados na região. Em 3 de setembro de 2022, Janildo Oliveira Guajajara foi morto a tiros, em um ataque que também feriu um adolescente de 14 anos. No mesmo dia, Jael Carlos Miranda Guajajara foi assassinado em um atropelamento.

Uma semana depois, no dia 11 de setembro, na estrada que leva ao povoado Jiboia e que fica perto dos limites da TI Arariboia, Antônio Cafeteiro Sousa Silva Guajajara foi morto com seis tiros. Até hoje, ninguém foi responsabilizado.

"Pensamos em interditar a estrada para chamar a atenção das autoridades. Para tomarem providências", afirma um indígena Guajajara morador da TI que preferiu manter o anonimato, por segurança. "A gente sentou entre algumas lideranças, queremos uma audiência pública com as autoridades dos municípios daqui para a gente conversar. Porque se a gente não fizer isso, vai ficar por isso mesmo", conta.

"Está uma apreensão na comunidade pela falta de segurança a que estão submetidos. Porque não conseguem mais andar nem dentro do seu próprio território", resume Gilderlan.

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De acordo com o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Cimi, entre 2003 e 2021, 50 indígenas Guajajara foram assassinados no Maranhão. Destes, 21 viviam na TI Araraboia. No território, além dos Guajajara, vivem os povos Awá Guajá e Awá - este último em isolamento voluntário.

"Outra questão que potencializou o racismo contra os indígenas é que a rodovia MA-006 passa dentro do território e muita gente os culpa pela paralisação da obra de pavimentação", conta Rodrigues.

Os guardiões da floresta

Foi justamente esse cenário que deu origem, em 2007, aos Guardiões da Floresta. O grupo auto-organizado indígena tem a missão, segundo sua carta, de "defender a TI Arariboia da exploração ilegal de recursos naturais, realizando o monitoramento ambiental e territorial com vistas a garantir" aos povos que ali vivem "as condições necessárias à sua reprodução física e cultural".

Janildo Oliveira Guajajara, executado pelas costas, era um guardião. Assim como era Paulo Paulino Guajajara, morto em uma emboscada em novembro de 2019, em caso que ganhou repercussão nacional e internacional.

O episódio gota d’água para a criação do grupo autônomo de proteção aconteceu em outubro de 2007, na aldeia Lagoa Comprida. Um caminhão usado para exploração de madeira ilegal nas matas do entorno foi apreendido pelos indígenas. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o veículo pertencia ao madeireiro Geraldo Cândido da Costa Filho, apelidado de Geraldinho.

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Depois de uma oferta de R$ 15 mil para reaver o caminhão ser negada pelos indígenas, no dia 15 de outubro um grupo de madeireiros fortemente armados atacou a aldeia. Indígenas foram amarrados, espancados e pegos como reféns. Em reação, o cacique Tomé Guajajara trocou tiros com os invasores.

Ao final, morreram o madeireiro Josevan da Costa Gomes e o próprio cacique, além de dois indígenas gravemente feridos a bala. Geraldinho e os irmãos Joane e Elias Rodrigues da Costa foram denunciados pelo MPF pelo homicídio de Tomé Guajajara. Até hoje, no entanto, não houve sentença.

Neste mesmo ano de 2007, uma assembleia do Conselho de Caciques e Lideranças da Terra Indígena Arariboia (Cocalitia) criou o Guardiões da Floresta, que recentemente completou 15 anos.

Edição: Nicolau Soares

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