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CrowdFarming: o digital pela Agroecologia

Nova plataforma conecta cidades a produtores rurais de 12 países. Atende meio milhão de consumidores. Remunera camponeses até cinco vezes mais do que atravessadores. Mostra: tecnologia pode subverter lógicas predatórias no campo


De OUTRASPALAVRAS
Por Stephen Burgen para The Guardian | Tradução: Maurício Ayer



Iniciativa de crowdfarming com jovens do norte da África

Abandonar o trabalho como policial para cultivar maracujá pode ser considerada uma virada na carreira bem pouco convencional. Mas foi isso que Sergio Quijada Domínguez fez quando a identificação de um problema cardíaco hereditário o obrigou a se aposentar aos 32 anos, após 14 anos na Guarda Civil da Espanha.

Quijada, que tem cerca de 1.500 pés de maracujá em sua fazenda perto de Vélez-Málaga, no sul da Espanha, descobriu que era bom no cultivo da fruta – o que lhe faltava era saber como vendê-las.

“Era a ferramenta que estava faltando”, diz ele. “Eu tinha meu produto e queria vender direto para o consumidor, mas não tinha os meios para fazer isso. E os distribuidores normais acrescentam muito ao preço.”


Sergio Quijada Domínguez: “Os distribuidores normais acrescentam muito ao preço”. Foto: CrowdFarming

Foi o homem que entregou suas caixas de papelão quem sugeriu que ele conhecesse a CrowdFarming, uma plataforma que é um balcão único para lidar com a administração e a logística e conectar os clientes diretamente aos agricultores.

A CrowdFarming foi fundada em 2017 pelo produtor de laranjas Gonzalo Úrculo e seu irmão Gabriel, que queriam obter um preço justo por seus produtos cortando o intermediário. O site agora hospeda 182 fazendas em 12 países e é usado por 500 mil consumidores.

“No sistema convencional, o supermercado decide o preço final de venda com base no que o consumidor está disposto a pagar”, diz Gonzalo Úrculo. “Isso determina o que os supermercados pagam aos seus fornecedores, que por sua vez têm que lidar com outros intermediários. Lá no final da cadeia estão os agricultores, para quem a negociação se torna questão de pegar ou largar, pois eles não têm poder de barganha e o tempo não está a seu favor.”


Gonzalo e Gabriel Úrculo: “Nossas laranjas ainda são mais baratas do que o preço médio das laranjas orgânicas nos países para os quais vendemos”. Foto: CrowdFarming

Ele acrescenta que quando você compra uma laranja em um supermercado no norte da Europa, a fruta está viajando ou armazenada há pelo menos três semanas. Mas com o CrowdFarming, em troca de um relacionamento direto com o produtor, o cliente obtém um produto melhor, mais fresco e, muitas vezes, mais barato.

“Só colhemos laranjas quando elas são solicitadas”, diz ele. “Você envia seu pedido, no dia seguinte nós colhemos as laranjas e elas estão com você em três dias. Além disso, eu ganho cinco vezes mais do que ganharia no mercado aberto. Mesmo assim, nossas laranjas ainda são mais baratas do que o preço médio das laranjas orgânicas nos países para os quais vendemos.”

Três anos depois de criar o site CrowdFarming, Úrculo conseguiu largar o emprego e se concentrar na administração da fazenda de laranja orgânica dos irmãos em Valência.

Os seus clientes, a maioria no norte da Europa, gostam de visitar a fazenda. Quando uma doença obrigou os irmãos a replantar 10 mil árvores alguém teve a ideia de pedir aos clientes que as adotassem. Em um ano, todas as árvores foram pagas. Na plataforma como um todo, 188.842 árvores, plantas ou campos já foram adotados.

Kelly Go trabalhou com a CrowdFarming desde o início, quando montou sua empresa Auro Chocolate nas Filipinas. Ela compra grãos de cacau de uma série de cooperativas e faz o processo de fermentação e secagem antes de fazer o chocolate.

“Pagamos aos agricultores entre 30 e 50% acima do preço de mercado da commodity”, diz Go. “Em comparação com um agricultor da África Ocidental, nossos agricultores estão ganhando quase o dobro. Também pagamos por sua certificação como agricultores orgânicos. Uma vez certificados, eles recebem um prêmio adicional. Também realizamos programas de treinamento e ajudamos os agricultores a participar de competições para obter mais reconhecimento.”

A Auro produz cerca de uma tonelada de chocolate por dia e vende cerca de 70% dele nas Filipinas. Semelhantemente a outros produtores da plataforma CrowdFarming, seu maior cliente internacional é a Alemanha, onde a demanda por produtos orgânicos é alta.

Em Cammarata, no centro da Sicília, Nicola De Gregorio usa variedades de grãos ancestrais para produzir sua massa artesanal Fastuchera. O grão colhido das variedades tradicionais sicilianas tumminìa e russulidda é moído e a massa passa por um método tradicional de secagem ao longo de vários dias, ao contrário da massa convencional que seca rapidamente, a altas temperaturas.

De Gregorio ingressou na plataforma CrowdFarming em 2019 e diz: “me ajudou a atravessar a covid por ter um relacionamento direto com os clientes”.

A maioria dos clientes da Fastuchera está na Alemanha, Áustria e Suíça, e De Gregorio diz que eles costumam visitar a fazenda, especialmente os clientes que adotaram os campos de trigo.

“As pessoas estão dispostas a pagar mais porque sabem que estão apoiando uma forma de agricultura que minimiza o impacto ambiental e cuja ênfase é a qualidade”, diz ele.


Nicola De Gregorio: “As pessoas estão dispostas a pagar mais pela qualidade”. Fotografia: Enzo Fratalia

A agricultura sustentável é algo que Quijada – que vende seu maracujá principalmente para clientes na Bélgica, França e Alemanha – também valoriza e diz que a plataforma compartilha dessa filosofia.

Além de facilitar o contato entre produtores e consumidores, o CrowdFarming minimiza o impacto ambiental ao reduzir ao mínimo o transporte.

“É claro que não posso competir com a Colômbia ou o Vietnã, onde o maracujá cresce selvagem, mas a Europa é grande – grande o suficiente para comprar todos os maracujás, abacates e mangas que cultivamos na Espanha”, diz Quijada.

Na cadeia de abastecimento tradicional, os agricultores vendem a intermediários, que transportam a produção para os seus armazéns e depois os vendem a uma rede de supermercados, que os distribui às lojas locais. Então o consumidor tem que se deslocar até o supermercado. O CrowdFarming envia direto do agricultor para o consumidor e a plataforma garante que diferentes pedidos para o mesmo destino sejam agrupados para que os caminhões estejam sempre cheios.

O sistema é vantajoso para produtores e consumidores e para o meio ambiente, diz Úrculo. “Comprar alimentos diretamente dos agricultores é o ato diário mais poderoso disponível para qualquer pessoa para criar um impacto social e ambiental positivo”, diz ele.


STEPHEN BURGEN
Jornalista, colaborador em The Guardian.

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