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A Fundação Ford e o identitarismo negro

Do A Terra É Redonda, 04 de Janeiro 2023
Por RONALDO TADEU DE SOUZA*



Imagem: Plato Terentev
Comentário sobre um artigo de Mário Maestri

“A raça pode ser que não seja real, porém o racismo sim é – isto se tem convertido em algo como o catecismo de [setores] da esquerda; [se é assim a questão é] a que responde o racismo?” (John-Baptiste Oduor, New Left Review).

“os ateus se tornam cristãos no campo de batalha” (Marcel Proust, A Fugitiva).

Nos últimos anos, e sobretudo com a ascensão da direita intransigente ao poder, chefiada por Jair Bolsonaro, sua família e Paulo Guedes, o debate público, de ideias, ganhou contornos complexos e intensos para dizer o mínimo. É como se uma espécie de caixa de pandora de concepções, críticas, conceitos, correntes de pensamento, teorias, práticas, autores e autoras tivesse saído e ganhado vida por muito tempo sufocada. As consequências disso são um conjunto de abordagens sobre temas sensíveis acerca da realidade política e social brasileira que afetam muitas pessoas, em particular aqueles e aquelas que mais sofrem tal realidade, particularmente negros e negras e o enfrentamento do racismo.

O nível e a qualidade dos debates, textos, artigos e livros, entrevistas, lives, são variados e para todos os gostos e estilos. Fazer julgamentos das qualidades ou não sobre isso pode ser do agrado de alguns, não é deste que escreve estas poucas linhas. Ademais a que se ter muito amor-próprio no sentido negativo que Balzac deu a essa qualidade no século XIX, para empreender tais considerações qualificativas acerca do trabalho de outras pessoas em ou no público, e mesmo entre quadro paredes.

Um dos últimos momentos desse atual estado de coisas em 2022 foi o artigo publicado no site A Terra é Redonda pelo historiador Mário Maestri. Tratando da relação entre questões raciais, a Fundação Ford, os interesses dos Estados Unidos nisso e o que ele (muitos outros) chamam de identitarismo negro. No que segue faço algumas considerações sobre o artigo de Mário Maestri. Em especial nos temas em que tenho discordância com ele, e um desses é de seu estilo de escrita, que obviamente é do debate público de ideias, são as regras hoje desse, o que obviamente também não se pode pedir para que se concorde com ele – que é a minha posição.

Como estamos, supostamente no “mesmo campo” e combatendo os mesmos problemas (de classe, social e racial) se eu for inconveniente e/ou indelicado peço de antemão sinceras desculpas. São quatro as considerações críticas que farei, respeitando as pesquisas e estudos que Maestri fez acerca das questões negras no Sul do Brasil:

1.

Compreendo que de fato, teórica, política e organizativamente o movimento negro em sentido amplo, seu bloco hegemônico e as figuras que o representam (tanto os mais públicos como os círculos intermediários) passa por um momento de definições. Dentre uma das questões a serem debatidas seriamente é a relação assimétrica estabelecida entre setores da elite branca dominante e os artifícios que dispõe (capital, instituições, prestígio, força das ideias e temperamento de dominação) para manter a ordem social vigente e grupos específicos do “movimento negro” e algumas personalidades que o animam.

Em poucas palavras, faz-se necessário distinguir aquilo que é do interesse da classe média negra que com todo o esforço e luta acendeu na pirâmide social (incluindo aqui setores da universidade pública de excelência) no Brasil hoje e as modalidades próprias de enfrentamento ao racismo que avançam e a massa negra insurreta, a nação de pele preta e parda, a enfrentar as agruras do racismo atroz, violento, sanguinário, institucional, pessoal e cínico.

Dito isso e para marcar uma certa posição – repúdio veementemente expressões no texto e do argumento de Mário Maestri que resvalam para algo que ofende aos negros e negras como eu que lutam contra o racismo – expressões como “Brizola, o pai branco…” e “autismo negro…” são dignas de infelicidade para colocar as coisas de um ponto de vista mínimo e ponderado.

2.

Se Maestri quisesse resenhar o livro de Wanderson Chaves e o mobilizar para debater o atual momento do movimento negro e seus problemas políticos que são muitos, poderia ter feito. O que se tornou desnecessário, no âmbito do texto mesmo, era fazer comentários inconvenientes logo no início ao Abdias do Nascimento (que de fato tinha questões a serem discutidas por nós negros e negras), e inconvenientes porque constrói frases ligeiras, impressionistas e de aspecto pessoal. Além disso Abdias do Nascimento é uma referência política e afetiva do movimento negro histórico brasileiro e toca muitos militantes e figuras negras – a delicadeza é por vezes mais revolucionária.

Bem entendidas as coisas, há questões que podem ser não tocadas em certos contextos ou tocadas de forma diferente de modo a retirar toda a inclinação pessoal da observação crítico-política. Nos dias que antecederam à morte de Lênin em que ele foi por necessidade da existência forçado a escrever seu testamento político-partidário ele advertia que “unicamente tenho de recordar que o episódio de outubro de Zinoviev e Kamenev não foi de modo algum casual; porém, do mesmo modo que o não-bolchevismo de Trotsky, não devem utilizar-se como arma pessoal [nos debates futuros]” (Ver Carta Dirigida ao Comité Central do PCUS, 25/12/1922 – El Testamento de Lenin, México, Ediciones el Socialista, 1984) que a forma direta que resvala em circunstâncias sentimentais dos indivíduos e grupos.

Abdias do Nascimento como referi tinha questões complexas e problemáticas que todo pesquisador e pesquisadora das causas raciais e todo negro e negra informado sabe ou deveria saber, não há novidade aqui como Maestri procura demonstrar.

3.

Sobre Florestan Fernandes, seus financiamentos de pesquisa e seu trabalho a Integração do negro na sociedade de classes, novamente Mário Maestri poderia ser um pouco mais cuidadoso com um homem que fez o que fez, e deixou a carreira acadêmica porque sabia que nela a crítica socialista e marxista era inviável, tornando-se um publicista radical-subversivo. Seus financiamentos de pesquisa para o estudo das relações raciais no Brasil são de conhecimento público, até onde eu saiba (claro que um arquivo aqui outro ali pode comprometer minha afirmação…) e Integração do negro na sociedade de classes – qualquer estudante de ciências sociais treinado minimamente nos clássicos da sociologia e antropologia – sabe que o livro não é uma obra teoricamente marxista, e sim a mobilização, temperada com funcionalismo, da sociologia compreensiva do Max Weber.

Não há novidade nesse debate. Outra coisa são seus textos que poderiam ser citados por Mário Maestri: Sociedade escravista, 25 anos depois da pesquisa brancos e negros em São Paulo e Significado do protesto negro, em que Florestan Fernandes conclama pela rebelião negra, pela insurgência negra, pela organização política negra pela e na esquerda, em poucas palavras, as de Florestan Fernandes, pela “revolução negra contra a ordem e/ou dentro da ordem”.

Florestan Fernandes que diga-se é figura pouco apreciada pelo movimento negro atual, e óbvio ninguém tem que concordar com ele ou comigo que tenho sua obra sobre o racismo como referência fundamental: com efeito, a bem da verdade e exagerando meu argumento, de todo o arco de intelectuais brancos no Brasil Florestan Fernandes foi o único que por suas posições teóricas e ação prática de intervenção política socialista dos anos 1980 (e mesmo antes nos anos 1950, 1960) até sua morte esteve do lado das causas do povo negro trabalhador.

Por isso o movimento negro o preza mais que qualquer outra figura letrado branca entre nós o que não o livrou de críticas daquele e mesmo de outros pesquisadores e pesquisadoras. Mário Maestri poderia, se de fato é um combatente da causa do povo negro, ter feito essa nota sem comprometer sua posição diante do mestre da Maria Antônia, e não se está solicitando isso de maneira alguma. Mas preferiu comentários sem sentido teórico e político definido, preferiu seu tribunal moral desconexo com qualquer perspectiva de luta contra ao racismo.

4.

Saindo das duas figuras mais emblemáticas que o texto toca e entrando no argumento de fundo do texto/resenha/livro. Acerca dos financiamentos da Fundação Ford e outras agências estadunidenses, o estilo de Mário Maestri, um escritor hábil sem dúvida e que seduz, é assunto que não é segredo para ninguém nas ciências sociais brasileiras e mundiais. Os Estados Unidos financiam o campo acadêmico-intelectual em toda parte desde que o mundo é mundo (financiou boa parte da emigração alemã fugida do nazismo, que não os impossibilitou de escreverem trabalhos notáveis para as humanidades – ciência política, teoria social, estética, crítica da cultura –, mas com perspectivas conservantistas do ângulo da teoria socialista clássica).

Por que motivos não fariam na periferia do capitalismo e com um dos elos fraco dessa sociedade, a comunidade letrada negra, sem espaço em instituições públicas superiores no período, ou seja com recursos escassos para pesquisar, produzir conhecimento, trabalhar e sustentarem suas famílias, se hoje isso é assim dada a conformação do homo academicus brasileiro em que quem não for amigo do rei estará com problemas e negros ao que eu saiba não são amigos nem do bobo da corte quanto mais do rei.

Imaginemos em 1970, 1980 e 1990, a menos que defendamos que negros e negras tinham que comer o pão que o diabo amassou por serem negros e combaterem o racismo, naqueles dias as opções eram raríssimas e era de certo modo “legítimo” certos posicionamentos, o que eu como negro não concordo e crítico, mas com o devido senso de proporção e respeito, e falar da posição e atitude alheia é sempre mais fácil, convenhamos (como diz o ditado popular que aprendi com minha avó preta da Bahia, “pimenta no rabo dos outros é refresco” não é mesmo Mário Maestri…); e mais, a questão dialética a ser colocada é por que isso foi feito e quais a condições que a determinaram?

Se a London Review of Books não tivesse um pequeno financiamento público-estatal do British Arts Council poderíamos ter certeza que quem estaria escrevendo nas suas páginas seriam apenas Roger Scruton, os herdeiros do Michael Oakeshott, Ferdinand Mount e escribas do capital, e foi tentado, pois: “críticos de direita indignados, só porque a London Review of Books não se ajustou às expectativas estabelecidas [fizeram a solicitação] – o Sunday Times [então] pediu recentemente que a verba fosse suspensa” (Ver Perry Anderson, London Review of Books, Espectros: da direita a esquerda no mundo das ideias).

Mário Maestri poderia ter posto indagações dessa natureza; preferiu a sanha de acusar sem nenhuma ponderação político (e insisto revolucionária) e tendendo a ser uma espécie de quinta coluna racial, pesquisadores negros e negras que receberam verbas da Fundação Ford de imperialistas e a serviço da classe dominante branca norte-americana.

5.

A querela em torno do identitarismo e seu fomento por forças ocultas do Império americano. Aqui o problema se divide em três e talvez seja o núcleo intencional do artigo de Maestri, seu objetivo esotérico de fundo: primeiro, Mário Maestri precisa definir, minimamente, o que ele entende por identitarismo e com quem ele está, supostamente, debatendo, dizer que “desde janeiro de 1967, o identitarismo, o etno-centrismo e o radicalismo negro orientou a ação da Fundação Ford”, ou “que essa militância [identitária] se deu através do financiamento, da formação e da cooptação de cientistas sociais, de intelectuais e de lideranças [negras]” é o mesmo que dizer que nos anos de auge do stalinismo intelectuais de esquerda não proferiam a crítica devida, de modo que legitimavam o sistema soviético.

Ora, “as categorias são modos de formas de ser, elas são determinações [dialéticas] da existência” – Marx não estava, se somos marxistas evidentemente, a buscar formulações de efeito, balofas e astuciosas, e sim em erguer uma teoria político e social, acompanhada de estratégias de luta, que possibilitasse os subalternos e desvalidos de todas as cores, raça, nacionalidade e gênero a derrubar a ordem social burguesa vigente e suas implicações (racismo, patriarcalismo, humilhação, soberba, esnobismo, arrogância de classe, idiotia etc.).

Segundo, Mário Maestri supõe que toda luta racial, e toda modalidade de combate ao racismo no Brasil extirpa a questão de classe tendo como efeito imediato o identitarismo, seu argumento imanente é que as “classes sociais”, e particularmente sua forma proletária e burguesa predomina ou tem de predominar, necessária e absolutamente, em qualquer situação histórico-política, sejam elas conformadas por negros, brancos, mulheres, LGBTQIA+, estrangeiros – se a “tradição” socialista clássica, que é o que Maestri parece preferir, assim pensasse, jamais teríamos obras como O 18 Brumário de Luís Bonaparte (Marx), Que Fazer? e Imperialismo… (Lenin), Cadernos do Cárcere (Gramsci), Revolução Permanente (Trotsky), Greve de Massas (Luxemburgo) e História e Consciência de Classe (Lukács).

As aljavas estariam completamente vazias, sem as flechas da crítica emancipatória, e mais, se não refletirmos seriamente acerca dos marcos teóricos, políticos e estratégicos da radical transformação social iremos nos defrontar novamente com os próximos katechons (Carl Schmitt) da elite branca dominante brasileira e mundial (Lênin já havia alertado em texto que leva o nome da advertência sobre As vicissitudes históricas da doutrina de Karl Marx – que fazendo o devido trabalho de esforço teórico como sugeriu o velho Althusser, quer dizer que a história universal (da luta de classes) são seus períodos e circunstâncias, sujeitos e subjetividades que vão e vem, em um redemoinho de avanços e derrotas, ações políticas e paz social imposta.

Ou nós a acompanhamos ou ficaremos argumentando que Abdias do Nascimento e Florestan Fernandes são identitários a serviço do “imperialismo”, conceito que frise-se, Lênin o desenvolveu, a partir dos debates da época, justamente porque certas formulações da teoria socialista de então não respondiam ao momento agressivo do capital financeiro, da nova partilha do Terceiro Mundo ou mundo subdesenvolvido e da intensificação da guerra e das crises mundiais, e que nada tem a dizer para os negros que sofrem o racismo cruel e sanguinário brasileiro.

Somos nós que o sofremos diuturnamente em nossas vidas e não pessoas brancas de classe média-média, alta e burguesa – como diz Paulo Arantes o inferno em baixo é diário (e histórico) e não ocasional como nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, que isso fique nítido para quem se põe a falar sobre isso.

Terceiro, Mário Maestri se quer criticar o identitarismo com vistas aos problemas reais do negro e negra brasileiros tem de tomar de fato o touro pelo chifre, meias palavras não bastam bem como observações inconvenientes a figuras da intelectualidade brasileira e mundial que na sua análise são financiados pela CIA via Fundação Ford, o que quero dizer com isso é que seu texto apenas possui o que Walter Benjamin em outro eixo teórico (o da crítica literária e o da estética) observou como o registro da forma em que certas figuras (Abdias, Florestan, Carneiro) e formulações (a ênfase nas identidades raciais e de cor) engendraram resoluções para o problema (racismo) enfrentado.

A questão é como vamos enfrentar a estrutura interno-imanente do processo social ao qual possibilita a existência do racismo peculiar no Brasil – é essa a verdade enquanto objetividade concreta (Ver Walter Benjamin – “Dois Poemas de Friedrich Hölderlin”, in: Escritos sobre Mito e Linguagem) que teceu cicatrização (Adolph Reed Jr.) na pele negra (com implicações variadas, essas podem, eventualmente para quem quer superar revolucionariamente de fato o racismo, ser um caminho para entender as modalidades de autorreferência da identidade que predomina na hoje entre o movimento negro e certas figuras) e seus efeitos na experiência de cada um na totalidade social que devemos compreender para fazer desabar pelas mãos dos ex-escravizados a ordem racista a vigorar desde os dias da colônia entre nós.

Mário Maestri, distante disso, está preocupado em expor posições pessoais de militantes negros e seus aliados brancos bem como em produzir alcunhas travestidas de “crítica marxista”. O que ele quer com isso em seu texto? Talvez seja ser apenas o Mário Maestri…

*Ronaldo Tadeu de Souza é pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da USP.

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