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Por que é preciso nomear Nísia Trindade à Saúde

Chantagens dos partidos fisiológicos não cessarão. Mas Lula se comprometeu com a reconstrução do SUS, com a participação popular nas decisões e com o combate ao negacionismo. A presidenta da Fiocruz tem todas as credenciais



De OUTRASAÚDE, 22 de Dezembro 2022
Por Gabriel Brito


Enquanto a mídia comercial transforma o silêncio golpista do atual presidente em “crises de tristeza”, aqueles que sustentaram seu governo de corrupção e incompetência não param de fazer suas chantagens. Por isso Lula segura o quanto pode as nomeações para diversos ministérios, entre eles o da Saúde, carro-chefe da política pública em 2023.

Neste ministério, despontou a semanas – mas ainda depende de confirmação presidencial – o nome de Nísia Trindade de Lima. A presidente da Fiocruz desfruta de enorme prestígio no movimento da saúde pública e segue como nome forte. Mas o centrão e seus
partidos fisiológicos torturam a democracia brasileira com suas exigências que nada têm a ver com a construção de um sistema político saudável.


“Lula se comprometeu de tal modo com a valorização do SUS e com investimentos para retomar sua construção, assegurando a participação popular nesse processo, que não há a menor possibilidade de atendimento às pretensões de Lira e, por extensão, do centrão”, disse Paulo Capel Narvai, professor aposentado da Faculdade de Saúde Pública da USP, ao Outra Saúde. “Mesmo considerando o imponderável de muitas decisões políticas, não me parece ter qualquer viabilidade que o ministério da Saúde não seja comandado por alguém afinado com a defesa do SUS e capacidade de diálogo permanente com o movimento da reforma sanitária.”

A decisão do STF contra o orçamento secreto intensificou ainda mais a movimentação política dos que agem nas sombras. Agora, buscam manobras para aumentar a cota de emendas individuais por novos mecanismos. No meio disso, conseguiram que a retirada do Bolsa Família do teto de gastos não financeiros caísse de dois anos para apenas um. Embora busquem “compensações” em outros ministérios, ainda não desistiram da Saúde, cuja importância estratégica é inquestionável. Por isso, enquanto não há nomeação oficial, a apreensão continua.

“Um parlamentar que corroborou com o negacionismo e a experiência trágica da pandemia no Brasil ter a pretensão de liderar a política de saúde só é possível em um país sem memória. Impedir isto é o primeiro compromisso da Frente pela Vida, que congrega centenas de entidades em todo país: não esquecer e nem deixar que esqueçam. Manter a memória viva deste episódio significa respeitar a dor das famílias enlutadas, dos 184 mil órfãos deixados por mães e pais mortos pela Covid-19, dos mais de 30 milhões de infectados, dos quais muitos carregam sequelas da doença até hoje”, afirmou Túlio Batista Franco, da Frente Pela Vida, neste artigo.

“Temos de impor outra agenda”, defende Lúcia Souto, presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). “A Saúde está destruída e é inaceitável a permanência da catástrofe. O Brasil não aguenta mais e os impactos sobre a saúde da população contrariam todo o programa de quem apoiou e construiu a vitória de Lula à presidência. A saúde de nosso povo é bem público fundamental a ser defendido por todos”,

Nísia

A socióloga e presidente da Fundação Oswaldo Cruz parece ter tudo para ser ministra. Até na mídia empresarial seu perfil foi apresentado sem ressalvas e a competência demonstrada na administração da Fundação, que inclusive conseguiu produzir uma vacina, no auge da pandemia são ótimas credenciais.

“Nísia foi uma extraordinária presidenta da Fiocruz na hora que o país mais precisou da Saúde Pública, que foi no contexto da pandemia, a mais grave catástrofe sanitária que nós atravessamos. Se for ela a escolhida, o Brasil terá muito a celebrar porque tem todas as credenciais para ocupar o cargo de ministra”, afirmou Lúcia Souto na página do Cebes.

Talvez pelo trauma da passagem criminosa do general Eduardo Pazuello pelo ministério, gerou algum ruído o fato de Nísia não ser médica. Mas trata-se de uma figura ligada ao campo da saúde para além de seu entendimento meramente clínico.

“Esse argumento é muito corporativista e não deve prevalecer. Lula sabe que um economista, como José Serra, foi um ministro com bom desempenho. Um engenheiro, como Ricardo Barros, foi um ministro ruim. A questão central, nessa decisão, não está posta sobre o curso de graduação de quem for nomeado, mas em outros atributos que precisa ter”, explicou Narvai.

Seu nome beira à unanimidade no movimento sanitarista e de defesa do SUS. Não é com esta ou aquela concessão que o apetite de sabotadores da democracia será saciado. A considerar o papel da saúde pública no plano imediato, nomear Nísia para a Saúde parece ser a cereja do bolo desta dura transição de governo. “Lula tem dito que quer alguém que tenha mantido distância do negacionismo e tenha estado no olho do furacão no enfrentamento da pandemia. Ele tem esse nome”, sintetizou Paulo Capel Narvai.

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