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O Festejo do Divino adentra nossa casa

A sala se transformou num terreiro circular, e onde estavam os quatro homens surgiram sumaúmas com suas raízes profundas. Não eram mais quatro vozes, eram milhares, porque toda a ancestralidade se fez presente. Nossas almas se encantavam


Estes foliões são de Guaratuba: Antonio Silva, Jorge Freitas, Elói Silva e Edival Alves
 | Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo


De OUTRASPALAVRAS, 07 de Dezembro 2022
Por Mazé Leite na coluna Viver fora da engrenagem


Era meio-dia e tudo estava em silêncio, até os pássaros e os ventos. Domingo claro de sol, céu azul. Terminei de guardar as coisas que trouxe de São Paulo, dei uma olhada geral na casinha alugada de seu Chico, nosso pouso até termos os nossos. Ouvi o som de motor de carro, alguém passando em alguma estrada de terra. Lumena veio da casa de dona Nair, vizinha, mãe de alguns dos filhos de Francisco. Foi logo dizendo:

– Se prepara, vamos receber visitas!

Minutos depois dois carros chegaram, uma Kombi e um Fiat. De dentro deles saiu uma ruma de gente, vestida de vermelho e branco, carregando um mastro cheio de fitas coloridas, encimado por uma coroa de rosas vermelhas em torno de uma pequena pomba branca. “São os festeiros do Divino Espírito Santo”. Depois de nos cumprimentar, um a uma, se apresentaram: uma moça disse que ela e o esposo eram um dos sete casais escolhidos para fazer a Festa do Divino de 2023. Vinham com ela os festeiros, as rezadeiras. Dois homens portando duas violas, um outro um tambor e um quarto trazia seu triângulo. Pediram licença, entraram em nossa sala.

As mulheres puxaram as rezas e todos nós nos postamos em círculo em volta de uma pomba branca. À Lumena foi destinado o mastro com suas fitas coloridas e as rosas vermelhas. Ela aceitou a obrigação, ouvindo que este mastro trazia bênçãos para nossas casas, famílias, nosso bairro Capinzal. Meus pensamentos, minha racionalidade, meus modos de ser urbanos se afastaram, eu me via novamente surpreendida pelos mistérios do mundo. É quando sou outra.

O canto começou. As duas violas fizeram uma espécie de introdução seguindo o ritmo do tambor e do triângulo. Quatro vozes masculinas, em tonalidades diferentes, entre baixo, barítono, tenor e um soprano em falsete trouxeram uma música que atravessou tempos, séculos e tradições. Era alguma louvação ao Divino Espírito Santo que lembrava o velho cantochão dos monges da Idade Média. Em ritmo suave, as sílabas se estendiam com a respiração dos quatro camponeses que arrancavam do fundo de suas respirações e almas um novo impulso sonoro, mais grave, mais agudo, mais intenso.

Aquela sala se transformou num terreiro circular, e no lugar exato onde estavam os quatro homens, na verdade surgiram quatro árvores, com raízes muito profundas como sumaúmas, ipês e sibipirunas. Aquele canto virou um canto da Terra, que subia através das raízes e se alastrava pelo ambiente, cujo ritmo alongado, lento, parecendo um lamento, reverberava em nossos corpos, mulheres e homens naquela sala. Não eram mais quatro vozes, eram milhares, porque toda a ancestralidade de todas as pessoas se fez presente. Nossas almas cantavam, encantadas. A música, sabemos, fascina e carrega misteriosos encantamentos capazes de nos arrancar de determinado espaço-tempo.

Os Festejos do Divino se espalham pelo Brasil inteiro. Foram trazidos pelos portugueses, mas se fala de registros destas festas no século XIII na França. Chegaram na Península Ibérica, alcançaram Portugal, atravessaram o Atlântico. Aqui chegando, cruzaram com duas tradições fortíssimas: as indígenas e as africanas. Que acrescentaram de si a esta festa, enriquecendo-a com sons, cores, danças, falas, línguas, culinárias, gestos. Amálgama cultural brasileiro. Antropofagia belíssima que somente acontece nessas terras. No Maranhão, o festejo é dirigido pelas Caixeiras, mulheres que carregam suas “caixas”, espécie de releitura de antigos atabaques. Porque quem dá o tom e o ritmo maranhense da festa do Divino tem sido o povo preto.

Em Cunha, a mistura se fez com brancos, indígenas e africanos. Por isso, naquele canto a quatro vozes, grave, em andamento larghissimo, que eu me esforçava para compreender alguma palavra, podiam conter francês, português arcaico, latim, tupi-guarani, yorubá, português brasileiro… “Tupi or not Tupi”… E ressalte-se que ano que vem, em julho, nos dias dos festejos do Divino de Cunha, haverá a Congada, a tradição africana de origem angolana e congolesa, festa milenar que aqui também passou, como outras, pela nossa oswaldiana canibalização, nossa mania de “comer” o estrangeiro…

Depois de dois cantos, sabendo que os festeiros recolhiam donativos para a festa do ano que vem, entregamos nossa doação, que foi agradecida com outro canto. Meus olhos estavam marejados, eu mal via os homens e as mulheres de vermelho. Uma das árvores se dirigiu a nós, ao final do canto. E o homem nos chamou para acompanhá-los, para ir comer num sítio vizinho, onde a dona da casa tinha feito um almoço para receber os festeiros e todos os que quisessem se juntar a eles. Lembrei das Festas de Santo nos terreiros de candomblé, onde todos os presentes se reúnem numa grande ceia, ao fim da festa, se alimentando do Axé do Orixá.

Nos dias do festejo do Divino, tudo também termina num grande almoço. Em Cunha, esta festa, que já dura 300 anos, tem toda a preparação que se inicia meses antes, como agora, onde um casal de festeiro guia os outros para recolher donativos que garantirão a grande festa. No grande dia, mulheres jovens e velhas saem de suas casas carregando suas peneiras para ajudar a catar o feijão do almoço. São sacas e sacas de feijão e arroz, quilos e quilos de carne. Já se chegou a alimentar mais de 20 mil pessoas há alguns anos. Todos são convidados a esta imensa mesa, cheia de axé, cheia de bênçãos, feita por tantas mãos.

Mas neste domingo, agradecemos o convite para o almoço no sítio vizinho, sem saber como agradecer mais o presente de ver de perto esta tradição e de sentir a força da cultura e da alma do nosso povo. “Ano que vem, nós vamos”, respondemos. “Venham na novena também”, sugeriu a mulher de roupa branca e vermelha, parceira e irmã das ogãs e ekedis de Oxalá e de Ogum. Ou de Oiá. Saravá!

Deixaram conosco um pequeno pacote de sal. “Sal bento”, afirmaram. É pra ser acrescentado ao sal da casa, ao sal dos animais, semear nas plantas. Tudo isso trará fartura e prosperidade para a casa e a família. Saravá!

E eu mal tinha chegado de São Paulo…


MAZÉ LEITE
Mazé Leite é artista plástica e professora de desenho e pintura a óleo no Ateliê Contraponto de Arte Figurativa em São Paulo. Bacharel em Letras pela USP, pernambucana de nascimento, é autora do blog Arte & Oficio (artemazeh.blogspot.com.br)


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