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Marx: “excessivo” e fundamental

Leda Paulani comenta a publicação do "Capítulo VI (inédito)" de "O capital", de Karl Marx, destacando seu caráter excessivo e fundamental, além de outras características que o tornam especial.



Da Boitempo, 13 de Dezembro 2022
Por Leda Paulani


O assim chamado Capítulo VI (inédito) de O capital, escrito ao que tudo indica entre 1863 e 1866, é tão “excessivo” quanto fundamental. Excessivo muito provavelmente na avaliação do próprio Marx, que, depois de incluí-lo num dos esboços iniciais do livro primeiro, deixa-o inacabado e não o utiliza quando da efetiva publicação de sua obra magna, pouco tempo depois. Fundamental porque, tendo dormido nas gavetas por cerca de sete décadas – é descoberto e publicado apenas em 1933 pelo Instituto Marx-Engels-Lênin de Moscou –, ele acaba por trazer observações e esclarecimentos sobre temas complexos e sempre sujeitos a muitas interpretações, como o par trabalho produtivo/trabalho improdutivo e a questão da subsunção formal e real do trabalho ao capital.

Mas o texto tem outras duas características que o tornam muito especial. A primeira se refere ao fato de ele pretender ser originalmente uma espécie de sinopse turbinada e contundente da torrente de movimentos e formas sociais acionados por Marx para dar conta, ao longo do Livro I, do demiurgo da modernidade que atende pelo nome de capital. Isso imprime ao texto um caráter voraz, a cujo magnetismo é difícil ficar imune, um poder de sedução reconhecidamente presente em sua obra maior, mas que está aí mais condensado.

A segunda característica se relaciona à natureza mesma da dialética materialista capturada e operada por Marx, insuperável em sua capacidade de dar conta de objetos atravessados pela contradição, mas que causa problemas de difícil solução para a apresentação dos resultados da análise. No início do capítulo inédito, Marx diz que terá de considerar ali três pontos: 1) que a mercadoria é produto do capital; 2) que a produção capitalista é produção de mais-valor; e 3) que a produção capitalista é produção e reprodução de toda a relação que caracteriza o processo de produção como capitalista. Mas faz um lembrete: o número 1, com o qual “por conveniência” iniciará o manuscrito, deverá, na revisão final para a impressão, vir em último lugar, porque é ele que “faz a transição para o segundo livro”.

Mas por que é a mercadoria que deve fazer a transição para um livro que vai lidar com a circulação do capital? O capital não supera categorialmente a mercadoria, não é resultado dela? A verdade é que a mercadoria é a um só tempo pressuposto do capital e sua produção, pois só quando posta pelo capital tem existência efetiva; mas aí também todas as leis da circulação mercantil se intervertem e negam a mercadoria. E é uma mercadoria em especial que produz toda essa reviravolta: a força de trabalho.

É muito bem-vinda, portanto, esta edição do capítulo inédito com a qual a Boitempo brinda seus leitores, que ainda traz como bônus uma valiosa enquete para os trabalhadores elaborada por Marx em 1880. Vale conferir de que maneira o grande pensador do capital é, na práxis de sua luta, o pensador da opressão capitalista e das formas de sua imposição.





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No 31º volume da Coleção Marx-Engels, a Boitempo publica a primeira tradução brasileira diretamente do original em alemão do célebre Capítulo VI do Livro I de O capital. Única parte do primeiro manuscrito da obra-prima de Marx a chegar até nós, o texto intitulado “Resultados do processo imediato de produção” encerraria o volume I e serviria de ponte para o volume II. Nele são apresentados de maneira substancial pontos centrais da reflexão marxiana: “Marx refere-se à mercadoria de maneira bastante concreta, não somente como um pressuposto para a produção capitalista, mas como resultado de seu processo produtivo. […] Por outro lado, analisa as formas diversas do fetichismo típicas da sociedade do capital, expressão da peculiar divisão social do trabalho mediada pelas coisas, mostrando os reflexos desse fetichismo nas interpretações dos economistas burgueses”, contam Ricardo Antunes e Murillo van der Laan no texto de apresentação.

Produzido numa fase decisiva do desenvolvimento intelectual de Marx, o Capítulo VI condensa alguns dos principais momentos da argumentação do autor em O capital, que na versão final da obra, concebida como um “todo artístico”, se espraiam por várias seções. Por isso, oferece um ponto de vista privilegiado para temas a operação concreta da mercadoria, presente sobretudo no Livro III, ou para a reflexão sobre a subsunção formal e a subsunção real do trabalho ao capital, ponto crucial da elaboração e do procedimento metodológico de Marx, que encontra aqui formulação direta e autônoma.

O volume traz ainda, como apêndice, o “Questionário para trabalhadores”, mais conhecido como “Enquete operária”. Nele sobressai a preocupação de Marx com o cotidiano da classe trabalhadora. Redigido para La Revue Socialiste e propagada entre os trabalhadores franceses, o questionário tinha como objetivo evidenciar, de maneira metódica, as contradições e os privilégios do capital e apresentar aos trabalhadores as possibilidades de resistência frente à exploração à qual eram submetidos. A enquete serviu, ainda no século XIX, de modelo para outros questionários semelhantes na Europa. Ao longo do século XX foi inspiração para movimentos socialistas e pesquisadores em diferentes países e, no século XXI, continua a demonstrar sua vitalidade, no contexto dos processos de trabalhos uberizados e plataformizados.

A obra tem tradução de Ronaldo Vielmi Fortes, apresentação de Ricardo Antunes e Murillo van der Laan, texto de orelha de Leda Paulani e capa de Antonio Kehl sobre ilustração de Cassio Loredano.

“Os dois textos aqui reunidos trazem a marca indelével da obra de Marx. Enquanto o Capítulo VI é um momento analítico de peso de sua produção, a Enquete operária remete à importância da autoconsciência da classe trabalhadora sobre sua própria condição. Dada a densidade da produção marxiana, ambos têm uma longa, rica, plural e polêmica história de interpretação em todo o mundo.”
– Ricardo Antunes e Murillo Van der Laan

“Este capítulo inédito é de grande interesse porque resume o conteúdo teórico essencial do Livro I d’O capital. Sua leitura permite adentrar na essência da argumentação de Marx.”
– Claudio Napoleoni

“A Enquete operária examina a dinâmica do processo capitalista de trabalho. Por meio das perguntas, o entrevistado tem uma demonstração empírica dos interesses opostos entre trabalhadores e capitalistas.”

– Clark McAllister





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Leda Paulani é economista e doutora em Economia pelo IPE-USP, professora do Departamento de Economia da FEA-USP e da pós-graduação em Economia do IPE-USP. Tem artigos publicados em revistas acadêmicas nacionais e estrangeiras e é membro do conselho editorial de publicações, como a Revista de Economia Política. De janeiro de 2013 a março de 2015, foi secretária de planejamento, orçamento e gestão da prefeitura de São Paulo. Publicou, pela Boitempo, Modernidade e discurso econômico (2005) e Brasil delivery (2008).

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