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Janio de Freitas

Do A Terra É Redonda, 23 de Dezembro 2022
Por HENRY BURNETT*



Imagem: Carlos Fajardo (Jornal de Resenhas)

Ler o Janio aos domingos, durante os últimos quatro anos, era um refúgio, um dos únicos motivos de seguir pagando a Folha

Eu já fiz coisas quase insanas para ler a Folha de S. Paulo. Morava num conjunto da Cohab no bairro do Coqueiro, no município de Ananindeua, colado a Belém; algo como Guarulhos em relação a São Paulo. É quase certo que eu fosse o único assinante do jornal num raio de quilômetros. Até aí tudo bem.

O problema é que a assinatura devia custar cinco vezes mais que o valor do Sudeste e o jornal, podem rir, não raro só era entregue no dia seguinte. Logo, muitas vezes lia o jornal com um atraso que, no mundo das notícias, podia ser fatal.

O motivo daquele gasto absurdo para um estudante desempregado era simples: os jornais de Belém eram contaminados pela política provinciana e eu achava que o “maior jornal do país” era isento.

Mas logo outros motivos me tornaram dependentes daquela leitura. Marcelo Coelho era meu preferido. Aquilo era jornalismo cultural do mais alto nível e não fazia diferença ler suas colunas um dia depois da publicação.

Nunca esquecerei a estreia de Arnaldo Jabor no jornal. Ele escreveu, cito de memória quase trinta anos depois, sobre o quadro de Diego Velázquez As meninas. Foi um deslumbramento. “Ler” um quadro; eu via aquilo pela primeira vez, num jornal!

Não posso sequer confirmar a informação no Acervo da Folha, porque anteontem cancelei em definitivo minha assinatura digital (teria sido bem melhor se existisse isso naquela época…). Depois de tantos anos lendo esse jornal – contra várias dicas de amigos que sempre me alertaram sobre as ambiguidades destiladas nos editoriais – fui vencido.

Quando soube da demissão do jornalista Janio de Freitas fiquei alguns minutos sem entender – de novo eu tentava entender o jornal, para dar-lhe algum crédito. Tendo publicado duas ou três colaborações e me sentido “o centro do mundo”, me sentia esgotado; já não era sem tempo.

Tentei cancelar minha assinatura a primeira vez logo depois da vitória do Lula. Curioso, Freud explica. Eu já andava sentindo a ambiguidade (?) do jornal bater no teto, mas então antes de abrir o editorial, no dia seguinte à vitória, eu pensei comigo, “a Folha vai cobrar o Lula um dia depois da apuração”. Batata, diria Nelson Rodrigues (por que lembrei dele?). Estava lá o editorial confirmando minha intuição.

Entro no chat e peço para cancelar. O atendente, pasmem, me sugere ler o Ombudsman como argumento para aceitar pagar “1,90 por três meses, depois 9,90”. Perguntei se ele estava me sugerindo manter a assinatura para ler a única coluna que criticava o jornal e a resposta foi sim. Mas eu disse que já lia, ele e Janio de Freitas, e o Marcelo Coelho, claro. Prorroguei mais um ano… (já era caso de internação, eu sei).

Mas a demissão de Janio foi demais. Lembro que ele havia sutilmente se queixado quando o jornal reduziu de duas para uma única coluna dominical sua colaboração. Ler o Janio aos domingos, durante os últimos quatro anos, era um refúgio, um dos únicos motivos de seguir pagando a Folha.

Como um jornal demite seu jornalista mais importante, cuja integridade e acuidade política servia de baliza para dezenas de jornalistas no país? Leio o motivo: contenção de gastos… pensei: não seria o caso de triplicar o salário para manter um jornalista dessa qualidade nos quadros do jornal? Se o New York Times declara voto, por que a Folha se mantém “apartidária”? Meu amigo alemão, no auge da campanha, me disse assim: “a Folha é de esquerda”. Ledo e Ivo engano, meu caro.

Acho que este texto deveria ser escrito por um jornalista, não é meu caso. Sou apenas um ex-leitor, para quem o jornal se tornou um fardo insuportável. Cancelei o recebimento da Newsletter, mas eles seguem mandando, como um castigo.

Soube que Marcelo Coelho saiu junto comigo, em respeito ao colega. Eu, que assinei o jornal muito por sua causa, me senti representado. Pensando bem, a saída dele faz acreditar que ainda resta gente íntegra neste mundo.

*Henry Burnett é crítico musical e professor de filosofia da Unifesp. Autor, entre outros livros, de Espelho musical do mundo (Editora Phi).

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