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Esquema criminoso deixa crianças yanomami sem remédios contra vermes e malária

A Polícia Federal investiga desvio de recursos destinados à Saúde Indígena em Roraima. A verba era destinada a compra de remédios para os Yanomami, que vem denunciando há meses a escassez nos postos de saúde



De OUTRASAÚDE, 02 de Dezembro 2022
Por Alessandra Monterastelli


Há meses lideranças indígenas vem denunciando as condições precárias enfrentadas pelo povo Yanomami. Somado a violência do garimpo ilegal, a Terra Indígena sofre também com a falta de medicamentos e atendimento nos postos de saúde. Nesta quarta-feira (30) de manhã, a Polícia Federal fez uma operação para investigar fraudes nas compras de remédios destinados ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), em Boa Vista.

Os Distritos Sanitários Especiais são administrados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e são os locais destinados ao atendimento da população indígena, para consultas ou retirada de medicamentos. Segundo a Operação Yoasi, o desvio de verbas deixou pelo menos 10 mil crianças yanomami sem medicamentos. O esquema criminoso teria iniciado em outubro de 2021, quando o Dsei-Y firmou um contrato com a empresa privada Balme Empreendimentos para o fornecimento de medicamentos. Segundo o Ministério Público Federal, menos de 30% dos fármacos previstos no contrato foram entregues, o que representa um desvio de R$600 mil dos cofres públicos.

“Estamos sem remédios há 2 anos. O povo yanomami morreu muito por isso. Agora muitos estão com malária e sem tratamento”, afirmou ao Outra Saúde Junior Yanomami, Presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (CONDISIYY), que se diz estar “muito preocupado”. “Hoje estamos sem nenhum tipo de medicamento ou estoques na Dsei e nas comunidades. Estamos pedindo socorro para salvar o povo yanomami, não queremos mais morrer ou chorar”, declarou.

Outro tipo de medicamento que não chegou aos indígenas devido ao esquema criminoso foram os vermífugos. Em nota divulgada pela PF, proliferaram “infecções e manifestações de formas graves da doença, com crianças expelindo vermes pela boca”. O procurador do MPF responsável pelo caso, Alisson Marugal, afirmou que existe um “desabastecimento farmacêutico generalizado” das unidades de saúde. “Os valores apontados pela empresa em notas fiscais eram pagos mesmo sem a entrega dos medicamentos”, escreveu. Em fotos recebidas pela Procuradoria, as crianças yanomami aparecem também com sinais graves de desnutrição.

“A situação [no território yanomami] é muito difícil por conta do garimpo, pela gestão incopetente, somados a redução do investimento na saúde indigena”, desabafa Amanda Frota, ativista da Frente Cearense em Defesa do SUS, referindo-se aos cortes à saúde indígena incluídos no Orçamento de 2023 pelo governo de Jair Bolsonaro. “É muito revoltante porque os yanomami fizeram vários apelos para pedir insumos e remédios, e enquanto isso os postos seguiram fechados”, argumenta.

Para além da investigação e punição dos criminosos, Junior Yanomami espera que a reverberação do caso leve a sociedade a pressionar o governo federal a tomar ações em prol da saúde indígena no território Yanomami. “Estamos perdendo muitos adultos e crianças por malária e vermes, que são doenças curáveis. Pedimos que o governo faça algo urgente. Precisamos de remédios, de profissionais, médicos e ações nas comunidades”, conclui.

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