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Bruno Latour no Brasil

Da Terra É redonda, 01 de Dezembro 2022
Por IVAN DA COSTA MARQUES*


Imagem: Şahin Sezer Dinçer

Um intelectual europeu que logrou exibir o etos imperial da ciência e o papel que a ciência desempenha∕ou na construção dos impérios ocidentais

“Penseur de l’écologie, de la modernité ou de la religion, Bruno Latour était un esprit humaniste et pluriel, reconnu dans le monde entier avant de l’être en France. Sa réflexion, ses écrits, continueront de nous inspirer de nouveaux rapports au monde. Reconnaissance de la Nation ” (@Emmanuel Macron, officiel du gouvernement – France, twitter, 9 de outubro de 2022).

O presidente da França, Emmanuel Macron tuitou no dia da morte de Bruno Latour: “Um espírito humanista e plural que foi reconhecido no mundo todo antes de ser reconhecido na França”. Mas o reconhecimento de Bruno Latour não é tardio e ainda limitado também no Brasil?

Em primeiro lugar, é plausível considerar a “denúncia” que Bruno Latour faz das estratificações nas construções dos conhecimentos científicos interesse especialmente a quem faz pesquisa em nosso país. Bruno Latour desfaz a imagem do campo da pesquisa científica como um espaço plano, aberto e transparente de verdades puras configuradas em encontros de consensos racionais afastados da política. Hierarquias, autoridades e escalas isolam e estigmatizam coletivos inteiros “dentro” e “fora” das ciências.[i]

Quase insuperáveis são as desigualdades para a participação na construção de conhecimentos científicos. Colocar em circulação uma proposição científica ou criar uma controvérsia científica depende decisivamente da capacidade de alistar e manter alistadas ao seu lado pessoas e coisas ou equipamentos. Essa capacidade está concentrada em pouquíssimas mãos. Essa desigualdade nas capacidades de fazer ciência e tecnologia é visível nacional e internacionalmente. A capacidade de discutir um fato científico, abrir uma controvérsia, colocar uma proposição em circulação como candidata a teoria ou fato científico, publicar um artigo, tudo isso depende decisivamente de onde se está institucionalmente.

O processo de proposição e estabilização (criação, produção) de um conhecimento científico se dá através de sucessivas provas de força (“testes de realidade”) cujos custos aumentam a cada rodada de controvérsias e confirmações. Para conseguir permanecer no jogo e simplesmente não sair, é preciso fazer parte de importantes laboratórios, centros de cálculo, e difusores do entendimento público das ciências, todas instituições cuidadosa e hierarquicamente guardadas.

Um conhecimento científico ganha estabilidade pela reunião e manutenção sob controle de pessoas e coisas, equipamentos, materiais, e também instituições. “É … Galileu estava bem enganado quando pretendeu opor retórica e ciência colocando, de um lado, uma hoste (mil Demóstenes e mil Aristóteles) e, de outro, um só ‘homem comum’ que porventura ‘atinasse com a verdade’”. (LATOUR, 1987/1997:102)

De especial interesse para o Brasil, Bruno Latour “denuncia” que a estratificação é visível não só dentro de um mesmo país, mas que ela também é visível entre países. Isto significa, ele sublinha, que alguns países (ricos, desenvolvidos, avançados, capitalizados, competitivos, soberanos, autônomos, do primeiro mundo) alistam e outros (pobres, subdesenvolvidos, atrasados, descapitalizados, improdutivos, subalternos, dependentes, o Brasil) são alistados.

Para pesquisadoras∕es de países como o Brasil, a importância da “denúncia” das estratificações na produção dos conhecimentos científicos e de como elas acontecem não poderia ser maior: “o país que tenha um sistema científico pequeno pode acreditar nos fatos, comprar as patentes, importar conhecimentos, exportar pessoal e recursos, mas não poderá questionar, discordar ou discutir e ser levado a sério. No que se refere a construção de fatos, um país desses não tem autonomia” (Latour, 1987/1997, p.274-275).

Em segundo lugar, Bruno Latour vai muito além de constatar as estratificações nas construções dos conhecimentos científicos que chamei de “denúncias”. Talvez ainda mais relevante, ele também mostra novas direções epistemológicas que podem ser decisivas para pesquisadoras∕es que enfrentam dificuldades em dignificar conhecimentos não traduzidos para a colossal estrutura de conhecimentos das ciências (modernas) ocidentais. Esses conhecimentos, tais como aqueles oriundos dos povos originários das Américas ou da África, são classificados pelas ciências ocidentais como crença, ou ficção e ∕ ou memos fraude.[ii]

Bruno Latour mostra, no entanto, que, uma vez historiadas e analisadas em detalhes (etnograficamente), as concepções, as teorias e mesmo os fatos científicos daquela colossal estrutura não se configuram na ausência da política (sem que a força os apoie) e também incorporam as impurezas do “mundo dos humanos-entre-si”.

Não é aqui um lugar para se explorar longamente essas novas direções epistemológicas propostas por Bruno Latour. Como um exemplo, utilizarei a apreciação que Bruno Latour faz do “artigo científico” para mostrar onde suas propostas podem nos levar. Bruno Latour “denuncia” a visão geral estabilizada, mesmo nos meios acadêmicos, de que o artigo científico expressa uma verdade pura e cristalina, algo que “está lá” no “mundo das coisas-em-si”, na Natureza, algo atingido por um método científico que o separa do “mundo dos humanos-entre-si”. Nesta visão dominante o artigo científico é uma obra de apresentação de uma verdade sem qualquer esforço de retórica de convencimento do∕a leitor∕a.[iii]

Estudando etnograficamente a confecção do artigo científico em laboratórios e centros de cálculo, contudo, Bruno Latour mostra que seus autores arregimentam aliados, referem-se positiva ou negativamente a textos anteriores, ignoram os discordantes que não se sentem capazes de enfrentar, consideram as situações em que poderão ser tomados como referência por textos posteriores, defendem-se e fortificando-se a si próprios, adotam táticas de posicionamento, empilham elementos criando induções, encenam enquadramentos, enfim, todas as técnicas da velha retórica, visando finalmente capturar o leitor apresentando-lhe um leito ladrilhado, sem poros, lógico, que o deixa isolado e sem saída. “A forca da retórica está em fazer o discordante sentir-se sozinho”. (LATOUR, 1987/1997:76)

Bruno Latour nos faz ver que um artigo científico fecha propositalmente todas as opções de negá-lo. Ou você o ignora ou entra em um laboratório para submetê-lo a “provas de força”, coisa pouco acessível para a maioria, como vimos que ele próprio “denuncia”. Latour mostra que o artigo científico é uma obra de convencimento e não uma apresentação de verdades reluzentes previamente dadas em uma realidade isolável e incorruptível que seria a natureza.

Bruno Latour mostra que quando um assunto passa de uma conversa de bar para um artigo científico a quantidade de aliados e opositores (coisas e humanos) envolvidos não diminui, mas aumenta drasticamente. “Desacreditar (do artigo científico) não só significará lutar corajosamente contra uma grande massa de referências, como também desemaranhar infindáveis laços que amarram, uns aos outros, instrumentos, figuras e textos”. (LATOUR, 1987/1997:84) Quem é pobre, subdesenvolvido, atrasado, descapitalizado, improdutivo, subalterno, dependente, brasileira/o, fica desarmado diante de um artigo científico, não tem como discordar e não seguir essa peça literária que usa uma retórica tão forte que produz um texto do qual não se escapa sob pena de se descolar da realidade. “Grande é o poder dessa retórica capaz de enlouquecer quem dela discorde” (LATOUR, 1987/1997:99).

Embora branco europeu e privilegiado, como ele mesmo reconhece, Bruno Latour vislumbra alianças com e entre as classes subalternas desse mundo e se posiciona contra a supremacia branca tão aceita por grande parte da elite mestiça brasileira que intrigantemente se enxerga como branca. O pensamento de Bruno Latour é, antes de tudo, radicalmente subversivo: o que pode ser mais libertador da ordem estabelecida do que clamar “Jamais fomos modernos!” entre os próprios europeus? (LATOUR, 1991/1994).

Bruno Latour é libertador mesmo para os soberanos no império euro-americano, aconselhando-os a “abandonarem a ideia de enquadrar tudo em termos da economia”. Eis aí uma verdade especialmente difícil para os soberanos de um império que já não aguenta mais nem as doenças de seus sistemas de produção e consumo nem os remédios para elas, mas não quer renunciar a seu modo de existência.[iv] Bruno Latour sugere que “[o] que nós precisamos não é só modificar o sistema de produção, mas sair dele completamente. Deveríamos nos lembrar que essa ideia de enquadrar tudo em termos da economia é uma novidade na história humana. A pandemia nos mostrou que a economia é uma maneira bastante estreita e limitada de organizar a vida e de decidir quem é importante e quem não é. … Se eu pudesse mudar uma coisa, seria sair do sistema de produção e em vez dele construir uma ecologia política”. (Bruno Latour, entrevista a Jonathan Watts, The Guardian, 06∕06∕2020).[v]

Ressalto que a obra de Bruno Latour vislumbra, sobretudo, alianças para e entre as classes subalternas do império euro-americano. O que é ciência hoje? Onde é feita? Como e quem a faz? Com quem, para quem e para o quê? O que pode ser mais subversivo do que propor uma mudança radical não só no entendimento de como se faz/fez e se acumula/ou o conhecimento científico, mas também no próprio modo de existência euro-americano? É construindo suas próprias respostas para as perguntas acima que os povos subalternizados dos brasis poderão se aproximar dos soberanos euro-americanos sem renunciar a suas próprias soberanias.

Em Bruno Latour os subalternos podem procurar e encontrar o que pode ser lido como “denúncias” de como os soberanos euro-americanos tenham talvez mais exportado do que seguido suas próprias convicções modernas. Em suas “denúncias” ele indica como, com o expediente da “razão sempre apoiando a força e a força sempre apoiando a razão”, os conceitos, as teorias, e as práticas das tecnociências do império seduziram ∕ subjugaram os subalternizados deste mundo fazendo-os optar por caminhos que não os privilegiam e os fazem desperdiçar esforços. Resta às classes subalternas aproveitar as “denuncias”, dando prosseguimento às oportunidades que elas abrem.

Bruno Latour destaca-se como um intelectual europeu que logrou exibir o etos imperial da ciência e o papel que a ciência desempenha∕ou na construção dos impérios ocidentais, “a invencibilidade moderna”. O conservadorismo e o confinamento voluntário de uma (grande?) parte da intelectualidade brasileira revela-se por ser justamente esse um ponto escolhido para atacá-lo: “Bruno Latour voltou atrás e mudou o que pensava sobre o conhecimento científico!” – é a acusação rasa dos que querem tapar o sol com a peneira, insistindo na visão idealizada da ciência como obra que transcende o humano ao descobrir objetos sem história, objetos que sempre estiveram lá em uma natureza incorruptível à qual a ciência tem acesso (transcendente). É mesmo revelador constatar esse caso brasileiro do colonizado que se vê no colonizador e do oprimido que teme a fragilização (relativização) do opressor. Se o aproveitamento da humanização da Ciência pela “direita” provoca horror, a reação não pode ser continuar crendo que a Ciência transcende o humano. Lembremos que o oposto de relativismo é absolutismo e não realismo. A fragilização não é dos conhecimentos científicos que sempre dependeram da política, da força e do trabalho contínuo para se afirmarem. A fragilização é da ciência Moderna como verdade absoluta, como verdade acima dos humanos. (DA COSTA MARQUES, 2022).

*Ivan da Costa Marques é professor do Programa de pós-graduação de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE) da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Brasil e abertura dos mercados (Contraponto).

Versão modificada da publicada no dossiê Bruno Latour da revista digital chilena barbárie.

Referências

DA COSTA MARQUES, I. Tecnologia, Ciência e Ativismo Militante em Bruno Latour In: KLEBA, J. B.;CRUZ, C. C., et al (Ed.). Engenharias e outras práticas técnicas engajadas – Vol 3: Diálogos Interdisciplinares e decoloniais. Campina Grande, PB: EDUEPB, 2022. p. 395-436.

LATOUR, B. Ciência em Ação – Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. Tradução (REVISÃO), I. C. B. e. J. d. P. A. São Paulo: UNESP, 1987/1997. 439 p..

LATOUR, B. Jamais fomos modernos – ensaio de antropologia simétrica. Tradução COSTA, C. I. d. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1991/1994. 152 p.

LATOUR, B. Reagregando o social – uma introdução à teoria do Ator-Rede. Salvador, BA e Bauru, SP (Brasil): Edulba (BA) e Edusc (SP), 2012. 400 p.

LATOUR, B. Bruno Latour: ‘Trump and Thunberg inhabit different planets – his has no limits, hers trembles’. TODD, A. : The Guardian 2020 (Jun 6).

Notas

[i] Escrevo “‘dentro’ e ‘fora’ (do campo da pesquisa científica) por razões de economia do texto, evitando entrar na problematização da “noção de contexto” presente nos Science Studies, especialmente na teoria ator-rede. Ver “Da Dificuldade de Ser uma ANT: Interlúdio na Forma de Diálogo” em (LATOUR, 2012).

[ii] Vale ressaltar que essa (des)classificação transborda dos referenciais epistemológicos para a sociedade em geral, inclusive para os circuitos econômicos. Para citar um exemplo, os conhecimentos dos povos originários da Amazônia sobre as plantas não são aptos a serem remunerados, mas o princípio ativo isolado em uma molécula é um conhecimento apto a ser remunerado na forma de um remédio (uma molécula).

[iii] Ver (LATOUR, 1987/1997:Capítulo I “Literatura”, pag. 39-104).

[iv] O jornal britânico The Guardian descreveu Bruno Latour como “um showman de verdades difíceis”. (LATOUR, 2020 (Jun 6)).

[v] https://www.theguardian.com/world/2020/jun/06/bruno-latour-coronavirus-gaia-hypothesis-climate-crisis acessado em 13∕10∕2022.

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