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Amazônia Profunda: para evitar mais do mesmo

Do IELA,  21 de dezembro de 2022
Por Carlos Walter Porto-Gonçalve
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Ali, durante a Conferência Rio 1992 da ONU, mais de 100 mil pessoas reunidas no Aterro do Flamengo no então conhecido Fórum Paralelo ouviram a força dos Povos da Floresta, ainda sob os ecos dos tiros que mataram Chico Mendes em dezembro de 1988. Estávamos diante de uma inflexão no chamado movimento ambientalista com a emergência dos povos e comunidades tradicionais questionando, como o fez explicitamente Chico Mendes, essa gente que defende a floresta e não os Povos da Floresta. Enfim, punha-se em xeque um ambientalismo a meias, como se costuma dizer em Portugal.

E, mais, os Povos da Floresta gritaram bem forte associando o ano de 1992 ao ano de 1492, quando os europeus acreditaram ter descoberto o mundo, na verdade, encobrindo a história milenar de civilizações, povos e culturas não-ocidentais. A Amazônia já ali, em 1992, dava o alerta para o encobrimento dos Povos que ali habitavam há, pelo menos, 19.000 anos como a Formação Cultural Chiribiquete na atual Amazônia colombiana. Como se vê, as datas matam e o 1492 silencia sobre esses milhares de anos de coevolução de vidas nessa região que, hoje, se apresenta como a maior reserva de vida do planeta e que ainda cumpre um papel central na dinâmica climática global em função da enorme extensão territorial, cerca de 800 milhões de hectares, com uma elevada concentração de biomassa que, diga-se de passagem é, em média, conformada por 70% de água que evapotranspira em função da enorme incidência de radiação solar e se redistribui mais além dessa região hoje conhecida como Amazônia.

Essa região, segundo o geógrafo Aziz Ab’ Saber, estava coberta entre 18000 e 13000 anos A.P. por savanas em função do clima mais seco do planeta que reinava à época devido à Glaciação Wurn que retinha congelada águas nas altas latitudes, água essa que não circulando deixava os climas do planeta mais secos. Somente com o recuo dessa glaciação, cerca de 12000 A.P., é que o atual desenho dos oceanos e mares – o mar então subiu cerca de 100 metros – e os atuais biomas ganharam a cartografia atual.

Observemos que a Amazônia já tinha gente antes de ter floresta e que essa enorme floresta ganhou a extensão territorial que hoje tem há cerca de 12000 anos. São, portanto, 12 milênios de coevolução do metabolismo da vida com as culturas dos Povos que ali habitavam e habitam. Sublinhe-se que ninguém vive sem saber coletar, sem saber caçar, sem saber plantar, sem saber pescar, sem saber se proteger das intempéries inventando suas arquiteturas, sem saber curar-se inventando suas medicinas. Enfim, sejamos explícitos: ninguém vive sem saber. No fazer há, sempre, saber, não necessariamente escolarizado como os ocidentais tentam convencer o mundo.

Se hoje a Amazônia se apresenta como tema central para evitarmos o anunciado colapso capitalista ecológico global, conforme nos alerta Luiz Marques, devemos deixar registrado que todo esse patrimônio que hoje a humanidade ainda pode contar para evitar o pior é um legado desses Povos e suas culturas cujos territórios devem ser devidamente respeitados no interior dos estados que ainda os tratam de modo colonial como se essa região fosse um vazio demográfico e como se só o conhecimento científico convencional tenha autoridade para garantir sua existência. Não confundamos conhecimento científico com conhecimento tout court. Afastemos a colonialidade com seus obstáculos cognitivos que nos impede de reconhecermos essa obviedade que é esse enorme patrimônio de vida e de conhecimento que a floresta abriga. Os trabalhos de Manoela Cardoso da Cunha, Eduardo Neves, Darell Posey e William Balle, entre outros, estão aí a reconhecer essa riqueza. Reconheçamos, ainda, as enormes contribuições que esses Povos vêm dando na revolução do direito na América Latina quando propõem os direitos da natureza como várias Constituições hoje abrigam. Ou quando propõem reinventar o estado como estado plurinacional e não somente estado nacional com toda a colonialidade (e seu colonialismo interno).

Recentemente, o fisósofo Enrique Leff em pronunciamento no Congresso da CLACSO chamou a atenção que já se passaram 50 anos desde a 1ª conferência da ONU sobre Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972. Sim, são cinco décadas ou simplesmente meio século que o chamado sistema de governança global não consegue encontrar como se autorregular para dar conta do colapso ambiental que se avizinha conforme vem anunciando os cientistas do Painel do Clima da ONU. Tudo indica que se continua prisioneiro de seus próprios obstáculos cognitivos que nos impede de encontrar uma solução verdadeira haja vista que querem encontrar uma solução dentro do sistema quando é o próprio sistema o problema. A última moda é o mercado de carbono e sua métrica cuidadosamente criticada por Camila Moreno. Afinal, a questão ambiental é a uma só vez uma questão social, como já nos havia alertado Chico Mendes. Afinal, a grande dificuldade de superarmos o paradigma que separa o homem da natureza reside justamente aí: não se trata de uma questão exclusivamente de paradigma, embora também o seja. Afinal, vivemos uma sociedade de natureza mercadológica que para ser tal necessita praticamente separar as comunidades e transformá-las em indivíduos isolados, separando homens e mulheres das condições metabólicas de reprodução da vida, condições essas que passam a ser regidas pelo princípio da propriedade privada e seu direito e ainda por ideologias que justificam que índios, negros e mulheres “por natureza” fiquem subordinados àqueles que se tornaram proprietários privados. Como se vê, a natureza bem vale uma missa!

Fiquemos atentos, pois, aos Povos da Floresta para que vejam respeitado seu legado amazônico e não deixemos que venham ser transformados em medidores de carbono de ONGs e das corporações que as financiam. A Vida merece respeito e honrar o legado desses povos é o reconhecimento prático dessas experiências consubstanciadas nessa Amazônia que hoje se coloca como tão decisiva para a humanidade e o planeta! Descolonizemo-nos, pois!

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