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Cultura o que é?

Do Brasil de Fato, 23 de Setembro de 2022 
Por Leonardo Melgarejo 


"Precisamos votar de maneira a consolidar lideranças que permitam recuperarmos o país que nos foi roubado no golpe de 2016" - Foto: Tiago Miotto / Cimi

Precisamos reconstruir políticas subordinadas à inclusão social, de base agroecológica e democrática

Seria uma espécie de alma compartilhada?

Ou seria algo relativo ao modo individualizado com que cada um de nós “se coloca no mundo”?

Ou quem sabe, seria um padrão de comportamento coletivo, um “jeito de ser, no plural”, estabelecido a partir de critérios de agrupamento... um tipo de bagagem coletiva a ser levada adiante em parceria plurigeracional?

Ou seria tudo isso e mais um pouco, envolvendo a natureza, a comunhão, a espiritualidade e o desejo de influir na configuração de tudo que compartilhamos?

Seria, enfim, algo que nos une, ou seu oposto, uma espécie de elemento de discriminação entre pessoas, classes e categorias? Haveria antagonismo entre “culturas eruditas”, sofisticadas, reservadas a grupos dominantes, e “culturas populares”, “dominadas”, menores, de traços afeitos a grupos “inferiores”, que se satisfariam com coisas poucas?

Claramente não. Até porque, ao falar de cultura estamos tratando de bens coletivos, socialmente construídos, e em choque constante com as possibilidades/exigências de renovação que o tempo impõe. Sim, um bem coletivo porque se forma e se mantém a partir de relacionamentos.

Afinal, é no contato com os outros que nos identificamos e somos levados a assumir papéis ao longo da vida.

Um bebê reconhece a si mesmo na existência diferenciada da mãe que o acolhe. E a seguir na surpresa de haver outros, com as distintas expectativas e possibilidades que carregam. Assim, desde criança vamos descobrindo um mundo que se transforma com as pulsões e desafios da adolescência, da vida adulta e das necessidades de ressocialização impostas pela velhice. Diferentes papéis, diferentes fatores de motivação, diferentes anseios de adaptação, diferentes agrupamentos e formas de coletivização. Diferentes necessidades de acolhimento, diferentes percepções de rejeição e identificação. Culturas são associações.

Nesta trajetória de vida, ao sabor do reconhecimento de injustiças, de insatisfações, de privilégios e outros motivos para sentimentos de ajuste ou inadequação, nos reconhecemos como parte integrante de subculturas que moldam a nação onde vivemos. Sub, não por menores, ou afeitas a poucos, mas por revolucionárias, porque se afiguram justas na medida em que se erguem em defesa ou contracorrentes físicas e psicológicas, de autoafirmação identitária.

Afinal, “índio é quem se garante”, diz Ailton Krenak. Esta terra tem dono, gritava Sepé.

O movimento hippie, o rock, o samba, a capoeira, modos de cortar o cabelo, falar, vestir dançar, cantar, orar e lutar, alimentam, negam ou reafirmam padrões culturais.

Culturas como modos de ser em bloco, como redes formadas para manter ou transformar o que nos é devido, ou negado. Pulsões em favor do necessário ou contra o que nos pareça injusto, imoral, inaceitável.

Os estudiosos de comportamento afirmam que nas construções culturais, os piores, dentro de cada grupo, definem o limite mínimo de qualidade para interações que geram tendências evolutivas ou regressivas, em todos os ambientes. Afinal, se alguém pode se comportar de forma abjeta e ser beneficiado por isso, todos o podem. Então, quando “usar apartamento funcional para comer gente”, homenagear torturadores, garantir sigilos centenários para maracutaias familiares, comprar parlamentares e preferir filhos mortos a filhos gay, passam a ser “coisas normais”, a tendência é de que os níveis de exigência cultural se reduzam e a barbárie se instale.

Isto seria assim porque as subculturas, positivas ou negativas, emergiriam e se expandiriam a partir da mentalidade de lideranças que, uma vez aceitas e valorizadas, passariam a ser imitadas em seus comportamentos. Com isso, padronizadas a partir dos piores, construções culturais coletivas poderiam se colocar em oposição a valores reais e, desta forma, gradativamente, corroer conquistas civilizatórias expressas na convenção dos direitos humanos universais.

Anomalias, como o desejo de eliminação dos desiguais, de abafamento e controle de formas diferenciadas de ser, de impulsos, reclamos e articulações com vistas ao apagamento de culturas populares legítimas, eventualmente surgiriam na forma de patologias que precisam ser reconhecidas e enfrentadas como verdadeiras doenças socioculturais.

Vivemos um momento em que isto acontece entre nós. E não faltam indicadores de suas causas e significado.

Os apoios ao atual presidente e seus amigos que concorrem em parceria a cargos eletivos são suficientemente assustadores para que até mesmo lideranças golpistas reconheçam: 'Estamos indo para o precipício'. A distribuição de armas e as ameaças veladas fazem recrudescer entre nós a criminalidade , os genocídios e ecocídios que aceleram a instabilidade social causada pela miséria e fome crescentes.

Como isso decorre de desvio em nossa base cultural nacional, resta clara a importância desta eleição e das lideranças daí emergentes, para reversão da tendência em que afundamos como nação. Precisamos mudar os rumos do Brasil, valorizando o que de fato interessa: pessoas e contratos sociais comprometidos com valores éticos, com a saúde humana e ambiental, com a qualidade de vida da população e com nossa inserção soberana, no contexto da geopolítica internacional que se desenha com o fim da hegemonia norte-americana.

Precisamos votar de maneira a consolidar lideranças que permitam recuperarmos o país que nos foi roubado no golpe de 2016, eliminando da vida pública aqueles que nos trouxeram ao fundo do poço civilizatório.

Precisamos reconstruir políticas subordinadas a uma cultura de inclusão social, de base agroecológica e verdadeiramente democrática, como solicitado por diversos ex-candidatos à Presidência da República e lideranças até há pouco na oposição do projeto desenhado pela ampla articulação estabelecida em torno do presidente Lula. Como Marina Silva e mesmo articuladores do golpe que depôs Dilma Rousseff, hoje oficialmente reconhecido como tal. Afinal, aquele de quem não se fala o nome ascendeu ao poder em decorrência de um golpe de Estado, sem base legal, perpetrado com objetivos de subordinação nacional a interesses externos, e acobertado por cumplicidades locais.

Nesta perspectiva, figuras públicas que em suas posturas favorecem as possibilidades de um segundo turno devem ser reconhecidas como cúmplices daqueles que atuam contra o Brasil. O apelo a Ciro, por parte de intelectuais e políticos comprometidos com o futuro da América Latina não poderia ser mais eloquente e se soma às manifestações de Fernanda Kaingang no programa Arte, Ciência, Ética e os Direitos dos Povos Indígenas deste dia 22 de setembro. Ela alertou, face ao que muitos pajés já anunciam há tempo: o fim do mundo se aproxima e isso porque algumas lideranças do mundo branco continuam sendo valorizadas por seus piores defeitos, por sua ignorância e desumanidade.

Ela lembrou que tudo tem alma e que as almas de todos os seres choram por igual, numa mesma linguagem, em defesa da vida, e que contra isso devemos nos erguer, em lutas, danças e cantos de guerra e paz.

Lembrei de Chico Cesar. A alma não tem cor. Mas penso que se aplica melhor, neste momento, a virada cultural.


* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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