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A Europa trama o Inverno da Revolta

140 mil pessoas tomam as ruas de Paris e prevê-se grande greve nesta 3ª. Protestos e paralisações eclodem em outros países. Ressurge a luta por redistribuição de riquezas e mudança política – sob liderança, na França, de uma esquerda renovada




De OUTRASPALAVRAS, 17 de Outubro 2022
Por Antonio Martins



“Quero um aumento de 52%, como o CEO [executivo-chefe] da Total”, demandava um cartaz. “Parem a evasão fiscal”, arengava outro. “Até os veganos desejam saborear os ricos”, zombava um terceiro. Na tarde fria de ontem (16/10), em Paris, 140 mil pessoas convocadas pela coalizão de esquerda Nupes1 percorreram a capital francesa em marcha “contra a vida cara e a inação climática”. Jean-Luc Mélenchon, líder da coalizão e ex-candidato à presidência, dirigiu-se aos presentes. Diante da inflação em alta e da resistência do governo a tabelar os preços ou a tributar os lucros exorbitantes das corporações petroleiras, ele previu uma “convergência de lutas”, nas próximas semanas – a começar de uma “greve multiprofissional” amanhã.

A marcha não foi uma ação solitária. Há três semanas, alastra-se progressivamente, na França, uma greve no setor de combustíveis. Em um terço dos postos, as bombas já estão secas. Nesta terça, o movimento pode receber adesão dos trabalhadores de transportes, dos professores e de todo o setor de energia. Os sinais de indignação já atingiram a Grã-Bretanha, República Checa, Alemanha e Espanha. Algo move-se entre as maiorias europeias, no exato instante em que os governos do “velho continentente” parecem mais acomodados à “ordens” dos mercados, submissos aos EUA e incapazes imaginar de alternativas.

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O movimento que pode amotinar a França começou no final de setembro, na forma de uma luta sindical petroleira. Os operários de refinarias da Total (francesa) e da Exxon (norte-americana) recusaram-se a continuar trabalhando sem aumento de salários. Apontaram a corrosão do poder de compra pela inflação (que beira os 7% ao ano). Mas foram além: reivindicaram também receber parte dos lucros extraordinários auferidos pelas corporações no primeiro semestre deste ano. Beneficiadas pela disparada dos preços do petróleo, elas lucraram entre 10 bilhões de euros (Total) e 18 bi (Exxon), no período. No entanto, destinaram os ganhos apenas a seus acionistas e executivos.

Aos poucos, as greves alastraram-se. No fim de semana, metade das oito refinarias francesas estava parada. Surgiram piquetes na entrada das usinas, e em alguns casos pneus em chamas bloquearam estradas. Os combustíveis começou a faltar nos postos. O governo insinuou que recorrerá às leis que obrigam a manter atividades consideradas “essenciais”. A ameaça ricocheteou. Foi também em solidariedade aos petroleiros que se armou a greve interprofissional de amanhã.

Mas as paralisações também tocaram numa ferida exposta da sociedade francesa – o que explica os cartazes irreverentes de ontem. Ao questionar os superlucros das petroleiras, o movimento “mostrou a muitas pessoas quão injusto é o sistema”, analisou o sociólogo Bruno Cautrès, do Centro de Pesquisa Política da Universidade Sciences Po. A mundo político é conivernte com a alta dos preços, a concentração de riquezas e, agora, a volta ao uso, pela Europa, dos combustíveis mais poluentes, como o carvão. A mídia europeia tornou-se monotemática. Quase todas as manchetes destacam a guerra (supostamente “justa”) da OTAN contra a Rússia. As consequências deste conflito são tratadas como “danos colaterais inevitáveis”.



A manifestação convocada pela Nupes ontem expõe as possibilidades que se abrem à esquerda, quando esta ousa ocupar o espaço da alternativa ao sistema. Ao fazê-lo, Jean-Luc Mélenchon ficou a 1,2 pontos percentuais do segundo turno, nas eleições presidenciais de abril deste ano. Pouco depois, em junho, levou sua coalizão a formar a segunda maior bancada no Parlamento. Agora, ao propor alternativas claras diante da crise, coloca na defensiva tanto o governo neoliberal de Emmanuel Macron quanto a ultradireita de Marine Le Pen.

Para a manifestação de ontem, a Nupes formulou uma pauta de reivindicações contemporânea, que se identifica clamente com as necessidades das maioras e atinge a lógica do capital em seus pontos mais frágeis. Alta dos salários e dos benefícios sociais. Congelamento dos preços da energia, bens de primeira necessidade e aluguéis. Tributação imediata dos superlucros. Investimentos maciços em transição ecológica, em transportes públicos e na agroecologia – com criação de empregos lociais. Redução para 60 anos da idade mínima de aposentadoria (o governo quer, ao contrário, aumentá-la dos 62 anos atuais para 65).

Parte destas propostas tende a provocar, em breve, tensão no Parlamento. Está em curso a votação do Orçamento para 2023. Os neoliberais de Macron são a maior bancada – mas não têm maioria. Resistem, por motivos óbvios, a aprovar o imposto suplementar sobre a riqueza. Mas temem submeter a proposta a voto e podem recorrer a um dispositivo vergonhoso (o artigo 49.3 da Constituição) que permite aprová-lo por decreto. A ultradireita, que em todo o mundo tenta apresentar-se como anti-establishment faz críticas de fachada a Macron. Mas, diante de uma esquerda que convocou o povo às ruas, recusou-se a aderir – porque seus laços com a plutocracia estariam em risco.

Esperançoso, Mélenchon disse ontem acreditar numa grande onda de mobilizações. As próximas semanas dirão se terá sucesso – e amanhã pode ser um dia decisivo. De qualquer forma, os sinais de descontentamento estão se espalhando na Europa. Nos últimos meses, houve uma onda greves no Reino Unido, protestos maciços na República Tcheca (contra a guerra e a carestia), paralisações no setor aéreo na Espanha e Alemanha.

A maior parte das análises vê, no cenário político atual do Ocidente, apenas dois movimentos. Os Estados Unidos e os governos aliados a Washington tentam humilhar militarmente a Rússia e, ao fazê-lo, pretendem enquadrar a China. Cresce em muitos países, ao mesmo tempo, a ultradireita – que tira proveito do ressentimento provocado pelas avanço das desigualdades e pelo esvaziamento da política. A França mostra que há vasto lugar para a esquerda, quando esta ousa propor um novo horizonte político.

1Nova Unidade Popular Ecológica e Social – Nupes – formada por iniciativa do partido França Insubmissa. Inclui também socialistas, comunistas e verdes. Na manifestação de ontem, também estiveram presentes dezenas de organizações da sociedade civil e o Novo Partido Anticapitalista, de orientação trotsquista. Para saber mais, consulte a Wikipedia.

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