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Varíola dos macacos: de novo, desigualdade e ganância

A doença já circula desde 1970, mas não houve interesse comercial em erradicá-la. Agora, EUA e Europa concentram quase todos os tratamentos, enquanto África e América Latina padecem. Não aprendemos nada?


De OUTRASAÚDE, 15 de Setembro 2022
Por Gabriela Leite




Uma criança com varíola dos macacos recebe tratamento em um centro administrado pelos Médicos Sem Fronteiras na região de Lobaya, República Centro-Africana, em 2018.

O filme se repete. Uma doença eclode, países ricos correm na frente e estocam os medicamentos e vacinas disponíveis; farmacêuticas aproveitam para lucrar mais; o Sul Global adoece e fica sem perspectivas. É o que acontece com o surto de varíola dos macacos, que já atingiu mais de 100 países. A gravidade das enfermidades não é comparável. No entanto agora, em relação à mercantilização da saúde e às desigualdades globais, há ao menos dois agravantes muito emblemáticos, explicitados em matéria do jornal New York Times.

O primeiro é que a doença não apareceu agora. Ela circula em países da África Central desde os anos 1970. Mas ao menos desde 2017, cientistas da região começaram a acompanhar sua circulação para além de zonas rurais, especialmente após um surto na Nigéria. O alerta foi feito – mas a indústria farmacêutica, movida pelo lucro, não mostrou interesse em fazer pesquisas para produzir medicamentos ou vacinas.

Era questão de tempo até a varíola dos macacos se espalhar, como bem avisaram os pesquisadores africanos. Quando os Estados Unidos perceberam o risco para sua população, possuíam uma carta na manga: reservas de vacina contra varíola, feitas como parte de um projeto de biossegurança após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Os EUA contribuíram com mais de um bilhão de dólares para o desenvolvimento da vacina pela empresa dinamarquesa Bavarian-Nordic. Jynneos, o imunizante produzido a partir desse investimento, é o mais eficaz e seguro contra a varíola comum. Sobre seu uso para a varíola dos macacos, há apenas estudos feitos com primatas não-humanos para provar sua eficácia. É o que tem para hoje.


Cerca de 15 milhões de doses da Jynneos pertencem aos Estados Unidos – que não parecem dispostos a cedê-las. O outro milhão restante já foi praticamente todo adquirido pelo Norte Global – especialmente Canadá, Austrália e países da Europa. Os preços exorbitantes impedem a compra por países pobres. E a desigualdade obscena se mantém: um estudo com humanos para testar a Jynneos está sendo conduzido no Congo, mas o país não terá direito a nenhuma dose sequer.

Não se trata apenas de vacinas: em países pobres, também faltam remédios e testes para diagnosticar a doença. A situação de escassez na África Central é tão grave, há anos, que simplesmente não há um controle real da doença – os testes são feitos por amostragem. Isso dificulta a criação de políticas públicas para mitigar a doença – mesmo que houvesse vacinas e remédios, não se saberia como administrá-los.

A capacidade de ação da Organização Mundial da Saúde (OMS), já bastante aquém do necessário na crise da covid-19, está ainda pior com a varíola dos macacos. A declaração de emergência global de saúde pública foi feita pela Organização em 23 de julho, mas não ficou explícito o que os países podem fazer para resolvê-la. Tampouco há iniciativas robustas para a distribuição dos fármacos para países empobrecidos.

O que os diretores da OMS alegam é que, por não haver estudos científicos suficientes para provar que a vacina e os medicamentos disponíveis funcionam, não se pode estabelecer diretrizes. Até há um programa para distribuir doses da Jynneos. O Brasil, por exemplo, já firmou acordo para ficar com 50 mil das disponibilizadas para a América Latina. Mas falta muito para diminuir as desigualdades globais no controle da doença.

Enquanto a iniquidade persistir, o risco da doença se espalhar aumenta. A solução, aponta ao NY Times James Krellenstein, fundador do grupo de defesa do acesso a medicamentos PrEP4All, é os Estados Unidos distribuírem igualmente todas as 15 milhões de doses que possuem – para si a para todo o mundo. “Este é o passo mais importante que se pode dar para ajudar a controlar esse surto globalmente.” Não há indícios de que isso vá acontecer.Enquanto isso, no Brasil, cientistas já estão estudando maneiras de produzir vacinas. O país tem 10% dos casos de varíola dos macacos de todo o mundo. Recentemente, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) recebeu, dos EUA, matéria-prima para desenvolver vacina própria contra a varíola. Mas o processo pode levar bastante tempo, como se sabe – ainda mais tendo em vista os cortes sucessivos de financiamento da ciência brasileira.

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