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Sobre rankings universitários

Do A Terra É Redonda, 18 de Setembro 2022
Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*


Imagem: Guillaume Meurice

Tudo isso feito por nós mesmos, transformando nossos colegas em concorrentes e nossas instituições em adversárias

Por meio de conversas com colegas no cotidiano, grupos e redes sociais, uma contradição causou-me mal-estar proveniente de um problema que parece não estar sendo percebido pelos meus pares nas universidades. Recentemente, nos e-mails, facebook, whatsapp e também no instagram, colegas pesquisadores socializaram o ranking acadêmico da THE (Times Higher Education) com as 20 melhores universidades da América Latina. No entanto, em vez de esclarecerem como funciona tal ranking, propagaram a tabela classificatória como propaganda das universidades em que trabalham. É nesse ato de socialização dos rankings que mora minha inquietação.

Sobre tal incômodo, fiz rápida pesquisa sobre os critérios de avaliação dos principais rankings internacionais de Educação Superior. Durante a pesquisa, notei um fato importante, o Banco Mundial (BM) indica como parâmetro três grupos que realizam ranqueamentos acadêmicos, sendo eles as principais referências no campo: o Ranking Acadêmico das Universidades Mundiais (ARWU), o Conselho de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior de Taiwan (HEEACT) e a Times Higher Education (THE). Os três rankings possuem semelhanças em suas métricas, tais como: número de publicações dos pesquisadores nos principais periódicos internacionais e o número de citações dessas publicações por pesquisador, e número geral de citações por instituição acadêmica.

Nessa coincidência, localizamos outro fenômeno, o oligopólio de editoras científicas, pois, dos cinco principais critérios de avaliação de cada ranking, três consistem dos coeficientes de publicações e citações nos principais periódicos globais, os quais pertencem a seis editoras: Reed-Elsevier, Thomsom Reuters, Wolter Kluwer, Springer Nature, Wiley-Blackwell e Sage Publishing.

Essas editoras mantêm hegemonia no ramo da indústria editorial científica, porque detêm 237 dos periódicos internacionais que classificamos como Qualis A1 (78,55% do total). Além disso, essas editoras cobram taxas de publicação que variam entre US$ 100 e US$ 5.000 (dólares americanos), totalizando, apenas nesses seis grupos, em 2020, receita superior a US$ 20 bilhões. Curiosamente, são editoras centenárias, pois cinco dessas seis têm origem no século XIX.

Resumidamente, os rankings compartilhados pelos professores e pesquisadores brasileiros nas redes sociais têm influência do Banco Mundial e medem a capacidade científica das instituições por meio de coeficientes provenientes de publicações em periódicos de grupos com capital aberto nas bolsas de valores internacionais.

Exposto isso, é necessário indagar quais as consequências de socializarmos, acriticamente, tais rankings? Maior competição entre os pares; maior competição entre as instituições; constituição de um mercado; maior busca de financiamento para pesquisas junto à iniciativa privada; maior produtivismo acadêmico; mais adoecimento de trabalhadores da ciência; maior adoção pelas Universidades estatais públicas da lógica do mercado.

Tudo isso feito por nós mesmos, transformando nossos colegas em concorrentes e nossas instituições em adversárias. Movimento diametralmente oposto ao de crítica política a essa racionalidade fortalecida e implementada pela CAPES desde meados da década de 1990, pelo visto, hoje consolidada e institucionalizada. Vamos postar e disseminar o resultado de nosso trabalho e evitar nos confundir com nossa própria epifania.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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