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Quando Marx traduziu “O Capital” para o francês

No 150° aniversário da publicação da tradução francesa de "O Capital", Marcello Musto escreve sobre a participação ativa de Marx no processo de tradução e comenta a fortuna crítica desta tradução/nova edição no mundo.

Do Blog da Boitempo, 17 de Setembro 2022
Por Marcello Musto


Em fevereiro de 1867, depois de mais de duas décadas de trabalho hercúleo, Marx finalmente pôde dar a seu amigo Friedrich Engels a tão esperada notícia de que a primeira parte de sua crítica à economia política estava finalizada. A partir daí, Marx viajou de Londres a Hamburgo para entregar o manuscrito do Volume I (“O processo de produção do Capital”) de sua magnum opus e, de acordo com seu editor Otto Meissner, foi decidido que O Capital seria lançado em três partes. Cheio de satisfação, Marx escreveu que a publicação de seu livro foi “sem dúvida, o mais terrível míssil que já foi lançado contra as cabeças da burguesia”.

Apesar do longo trabalho de escrita antes de 1867, a estrutura de O Capital seria consideravelmente expandida nos anos seguintes, e o Volume I também continuou a absorver um empenho significativo por parte de Marx, mesmo após sua publicação. Um dos exemplos mais evidentes desse compromisso foi a tradução francesa de O Capital, publicada em 44 fascículos entre 1872 e 1875. Este volume não era uma mera tradução, mas uma versão “totalmente revisada pelo autor” na qual Marx também aprofundou a seção sobre o processo de acumulação de capital e desenvolveu melhor suas ideias sobre a distinção entre “concentração” e “centralização” do capital.

A busca pela versão definitiva do Volume I

Depois de algumas interrupções devido à sua saúde precária, e após um período de intensa atividade política para a Associação Internacional dos Trabalhadores, Marx passou a trabalhar em uma nova edição de O Capital, Volume I, no início da década de 1870. Insatisfeito com a maneira como havia exposto a teoria do valor, passou dezembro de 1871 e janeiro de 1872 reescrevendo o que havia publicado em 1867. Em 1872, uma reimpressão de Das Kapital foi lançada e incluía as mudanças feitas por Marx. Este ano foi de fundamental importância para a divulgação de O Capital, pois também viu nascer as traduções russa e francesa. Confiadas a Joseph Roy, que já havia traduzido alguns textos do filósofo alemão Ludwig Feuerbach, as traduções apareceram em lotes com o editor Maurice Lachâtre. O primeiro foi publicado há 150 anos, em 17 de setembro.

Marx concordou que seria bom lançar uma “edição popular e barata”. “Aplaudo sua ideia de publicar a tradução […] em parcelas periódicas”, escreveu. “Dessa forma o livro será mais acessível à classe trabalhadora e para mim essa consideração supera qualquer outra”, argumentou com seu editor. Consciente, no entanto, de que havia “outro lado reverso” da moeda, ele antecipou que o “método de análise” que ele havia usado iria “tornar uma leitura um tanto árdua nos primeiros capítulos”, e que os leitores poderiam “desanimar” quando eles fossem “incapazes de seguir em frente na leitura logo de cara”. Ele não sentia que pudesse fazer nada sobre essa “desvantagem”, “além de alertar e prevenir os leitores preocupados com a verdade. Não há estrada real para o aprendizado e os únicos com alguma chance de alcançar seus picos ensolarados são aqueles que não temem a exaustão ao subir os caminhos íngremes”.

No final, Marx teve que gastar muito mais tempo na tradução do que havia planejado inicialmente para a correção da prova. Como escreveu ao economista russo Nikolai Danielson, Roy “muitas vezes traduziu de forma muito literal” e o forçou a “reescrever passagens inteiras em francês, para torná-las mais palatáveis ​​para o público francês”. No início daquele mês, sua filha Jenny disse ao amigo da família Ludwig Kugelmann que seu pai era “obrigado a fazer inúmeras correções”, reescrevendo “não apenas frases inteiras, mas páginas inteiras”. Subsequentemente, Engels escreveu na mesma linha de Kugelmann que a tradução francesa havia se mostrado um “verdadeiro trabalho árduo” para Marx e que ele “mais ou menos teve que reescrever a coisa toda desde o início”.

Além disso, ao revisar a tradução, Marx decidiu introduzir alguns acréscimos e modificações. No posfácio de Le Capital, ele não hesitou em atribuir-lhe “um valor científico independente do original” e afirmou que a nova versão “deveria ser consultada até mesmo por leitores familiarizados com o alemão”. O ponto mais interessante, sobretudo pelo seu valor político, diz respeito à tendência histórica da produção capitalista. Se na edição anterior do Capital Marx havia escrito que “o país mais desenvolvido industrialmente só mostra, aos menos desenvolvidos, a imagem de seu próprio futuro”, na versão francesa as palavras em itálico foram substituídas por “àqueles que o seguem até a escada industrial”. Esse esclarecimento limitou a tendência do desenvolvimento capitalista apenas aos países ocidentais já industrializados.

Ele agora estava plenamente consciente de que o esquema de progressão linear através dos “modos de produção burgueses asiáticos, antigos, feudais e modernos”, que ele havia desenhado no Prefácio de Uma Contribuição à Crítica da Economia Política, em 1859, era inadequado para uma compreensão do movimento da história, e que era de fato aconselhável evitar qualquer filosofia da história. Ele não via o desenvolvimento histórico em termos de progresso linear inabalável em direção a um fim predefinido. A concepção multilinear mais pronunciada que Marx desenvolveu em seus últimos anos o levou a olhar ainda mais atentamente para as especificidades históricas e as desigualdades do desenvolvimento político e econômico em diferentes países e contextos sociais. Essa abordagem certamente aumentou as dificuldades que ele enfrentou no já acidentado percurso de conclusão do segundo e terceiro volumes de O Capital. Na última década de sua vida, Marx realizou investigações minuciosas de sociedades fora da Europa e expressou-se inequivocamente contra os estragos do colonialismo. É um erro sugerir o contrário. Marx criticou os pensadores que, ao destacar as consequências destrutivas do colonialismo, utilizaram, em suas análises das áreas periféricas do globo, categorias peculiares ao contexto europeu. Ele alertou várias vezes contra aqueles que não conseguiram observar as distinções necessárias entre os fenômenos e, especialmente após seus avanços teóricos na década de 1870, ele foi altamente cauteloso ao transferir categorias interpretativas para campos históricos ou geográficos completamente diferentes. Tudo isso fica mais claro graças a Le Capital.

Em uma carta de 1878, na qual Marx pesava os lados positivos e negativos da edição francesa, ele escreveu a Danielson que ela continha “muitas mudanças e acréscimos importantes”, mas que ele também fora “às vezes obrigado – principalmente no primeiro capítulo – a simplificar o assunto”. Engels era dessa opinião e não incluiu todas as mudanças feitas por Marx na quarta edição alemã do Capital que publicou em 1890, sete anos após a morte de Marx. Marx não conseguiu completar uma revisão final de O Capital – Volume I, que incluía as melhorias e acréscimos que pretendia aprimorar seu livro. De fato, nem a edição francesa de 1872-75, nem a terceira edição alemã – que saiu em 1881 – podem ser consideradas a versão definitiva que Marx gostaria que fosse.

Marx através de Le Capital

Le Capital teve considerável importância para a difusão da obra de Marx pelo mundo. Foi usado para a tradução de muitos extratos em vários idiomas – o primeiro em inglês, por exemplo. De maneira mais geral, Le Capital representou a primeira porta de entrada para a obra de Marx para leitores em vários países. A primeira tradução italiana – publicada entre 1882 e 1884 – foi feita diretamente da edição francesa, assim como a tradução que apareceu na Grécia, em 1927. No caso do espanhol, Le Capital possibilitou algumas edições parciais e duas traduções completas: uma em Madri, em 1967, e outra em Buenos Aires, em 1973. Como o francês era mais conhecido que o alemão, foi graças a essa versão que a crítica de Marx à economia política pôde chegar a muitos países da América hispânica mais rapidamente. O mesmo aconteceu com os países de língua portuguesa. Em Portugal mesmo, O Capital circulou apenas pelo pequeno número de exemplares disponíveis em francês, até que uma versão resumida em português apareceu pouco antes da queda da ditadura de Salazar. Em geral, ativistas políticos e pesquisadores em Portugal e no Brasil acharam mais fácil abordar a obra de Marx pela tradução francesa do que pelo original. Os poucos exemplares que chegaram aos países africanos de língua portuguesa também eram nessa língua.

O colonialismo também moldou parcialmente os mecanismos pelos quais O Capital se tornou disponível no mundo árabe. Enquanto no Egito e no Iraque foi o inglês que mais se destacou na difusão da cultura europeia, a edição francesa teve um papel mais proeminente em outros lugares, especialmente na Argélia, que na década de 1960 foi um importante centro para facilitar a circulação de ideias marxistas em países “não alinhados”. A importância de Le Capital estendeu-se também à Ásia, como demonstrado pelo fato de que a primeira tradução vietnamita do Volume I, publicada entre 1959 e 1960, foi realizada na edição francesa.

Assim, além de ser frequentemente consultada por tradutores de todo o mundo e confrontada com a edição de 1890 publicada por Engels, que se tornou a versão padrão de Das Kapital, a tradução francesa serviu de base para traduções completas de O Capital em oito idiomas. Cento e cinquenta anos desde sua primeira publicação, continua sendo fonte de debate estimulante entre estudiosos e ativistas interessados ​​na crítica de Marx ao capitalismo.

Em uma carta ao seu companheiro de longa data Friedrich Adolph Sorge, o próprio Marx observou que Le Capital “consumiu tanto [seu] tempo que [ele] não colaboraria novamente de forma alguma em uma tradução”. Isso é exatamente o que aconteceu. O trabalho e o sofrimento que ele depositou para produzir a melhor versão francesa possível foram realmente notáveis. Mas podemos dizer que foram bem recompensados. Le Capital teve uma circulação significativa, e os acréscimos e mudanças feitas por Marx, durante a revisão de sua tradução, contribuíram para a dimensão anticolonial e universal de O Capital, que hoje está se tornando amplamente reconhecida está se tornando amplamente reconhecido hoje em dia graças a algumas das contribuições mais recentes e perspicazes nos estudos de Marx.



Tradução de Marcelo Bamonte para o Blog da Boitempo.

O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), de Marcello Musto



O velho Marx apresenta uma análise perspicaz dos anos finais e ainda pouco explorados da vida de Karl Marx. Combinando rigorosa abordagem acadêmica com uma escrita acessível, Marcello Musto derruba a lenda de que a partir de meados de 1870, devido a problemas de saúde e dificuldades pessoais, o filósofo alemão teria suspendido quase inteiramente sua pesquisa. Ao contrário, ele não só deu continuidade a seu trabalho, mas estendeu-o a novas disciplinas e a outras áreas do planeta. A partir do estudo de manuscritos que vieram a público recentemente e ainda não foram traduzidos do alemão nem publicados em livro, Musto demonstra que Marx passa a se interessar por antropologia, pelas sociedades não ocidentais e pela crítica ao colonialismo europeu.

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Marcello Musto é professor de Sociologia na York University, em Toronto, Canadá. Suas publicações, disponíveis em seu site, foram traduzidas em vinte e cinco idiomas. Pela Boitempo publicou Trabalhadores, uni-vos!: antologia política da I Internacional e O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1883), além de colaborações com a revista Margem Esquerda.
 

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