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O gás como arma

Do A Terra É Redonda, 09 de Setembro 2022
Por DRAGO BOSNIC*


Imagem: Elina Fairytale

O próximo inverno europeu poderá se mostrar como a perfeita prova de fogo em soberania

Durante anos, o Ocidente Político vem acusando a Rússia de usar seus recursos naturais, principalmente gás e petróleo, como “arma”. Moscou seria culpada de usar tais recursos essenciais para supostamente “chantagear” a União Europeia, enquanto Bruxelas, pressionada em parte pela beligerância imperialista norte-americana, e, em parte por sua própria ambição (neo)colonialista, continuava se aproximando do quintal geopolítico da Rússia, criando tensões com o gigante euro-asiático.

Moscou jamais permitiria a repetição da invasão nazista alemã, que ceifou dezenas de milhões de vidas russas, além da devastação sem precedentes deixada em seu rastro. Como se não fosse pouco, “Barbarossa” – o nome dessa operação militar nazista na Segunda Grande Guerra – foi apenas mais uma na longa lista de tentativas do Ocidente Político de destruir a Rússia. Por mais de mil anos, muitos na Europa tentaram neutralizar o gigante euro-asiático. A Rússia prevaleceu todas as vezes, mas teve que fazê-lo com a força das armas.

Nas últimas décadas, no entanto, Moscou vinha se esforçando para estabelecer uma cooperação mutuamente benéfica com o Ocidente Político, especialmente a sua porção europeia. Isso incluía estabelecer acordos de longo prazo com a União Europeia, em especial no que respeita ao fornecimento de commodities essenciais, como gás natural, petróleo, alimentos e outras matérias-primas, que vinham ajudando a alimentar o crescimento de ramos industriais inteiros, na Europa e em outros lugares. A esperança da Rússia era estabelecer laços duradouros com a União Europeia e garantir que a segurança estratégica de suas fronteiras ocidentais fosse garantida por meio da cooperação econômica, e não por meio do poderio militar. No entanto, Washington tinha outros planos, e as elites complacentes de Bruxelas o seguiram, garantindo que a infraestrutura militar da OTAN (especialmente as instalações militares norte-americanas de alto impacto estratégico) continuasse a se expandir para o leste.

Mesmo nessa situação, Moscou tentou reduzir uma eventual escalada de tensões. Ainda que seguisse se precavendo contra esse lento e progressivo avanço militar, em especial por meio do desenvolvimento e prontificação militar de meios estrategicamente sem paralelos, a Rússia parecia esperançosa de que “cabeças mais frias” acabassem prevalecendo em Bruxelas e outras grandes capitais da União Europeia, particularmente Paris e Berlim. Essa esperança persistiu mesmo após o malfadado golpe de Estado de 2014, o assim chamado Euromaidan, que levou a junta neonazista ao poder em Kiev. Por quase uma década, Moscou continuou tentando trazer o Ocidente Político à razão. Infelizmente, sem sucesso, já que essa abordagem foi vista por Washington e Bruxelas como demonstração de fraqueza. Em 24 de fevereiro, a Rússia decidiu pôr fim a todo o imbroglio.

Agora, depois de meses de um cerco econômico fracassado ao gigante euro-asiático, especialmente depois que o efeito bumerangue das sanções começou a devastar as economias ocidentais, o Ocidente Político está tentando um novo lance, bastante cômico, num jogo de culpa em que acusa Moscou de usar como arma (“weaponizing”) seus próprios recursos naturais. Diante da perspectiva de um inverno desastroso, a União Europeia vê-se agora encalacrada entre a sua subserviência suicida a Washington e a necessidade de tão simplesmente sobreviver.

Enquanto os Estados Unidos continuam importando commodities russas (em um volume de aproximadamente 1 bilhão de dólares por mês), forçam Bruxelas, de sua parte, a aplicar o que é, a rigor, um embargo autoimposto, que causa danos incalculáveis ao declinante setor produtivo europeu, seguindo-lhe um efeito em cascata de devastação econômica em outros setores aparentemente não relacionados.

Em lugar de buscar um acordo com Moscou, Bruxelas engajou-se em uma guerra econômica contra a Rússia, que leva o gigante euro-asiático a responder. Agora, quando os preços do gás natural rondam um aumento de 400% em um ano, as potências da União Europeia, particularmente a Alemanha, enfrentam a perspectiva de uma paralisação industrial. E o problema candente não está apenas no aumento dos preços do gás natural, mas também na escassez econômica. Durante meses, os altos preços vinham exaurindo os recursos das economias europeias, mas agora que o gasoduto Nord Stream parou definitivamente de bombear hidrocarbonetos, a questão é exponencialmente pior, já que indústrias inteiras correm o risco de entrar em colapso.

Mais além da paralisação do setor produtivo, muitos membros da União Europeia se deparam com o aumento dos preços da energia, o que coloca uma enorme pressão sobre as famílias, que se veem não apenas diante da perspectiva de falência financeira como também do congelamento físico, pois a estação fria na Europa está começando com as instalações de armazenamento de gás natural nos níveis mais baixos que já se conheceram. Assim, a pressão sobre Bruxelas torna-se tanto econômica quanto social. Se uns quantos governos dos Estados membros da União Europeia chegam a colapsar, a instabilidade política no bloco vai se incrementar consideravelmente nos próximos meses. Além da escassez de gás natural, há que se considerar o aumento dos preços dos alimentos, em breve transmutado em escassez, ampliando a instabilidade social e política em todo o bloco.

A questão é: o que a União Europeia vai fazer? Vai pedir ajuda a seus patrões de Washington? E vão os Estados Unidos enviar alimentos, petróleo, gás e outros produtos essenciais? Eles têm isso em quantidade suficiente para si mesmos? De que modo a “moral elevada para centrar a atenção em Putin” poderá ajudar a aquecer casas, alimentar centenas de milhões de cidadãos famintos (e furiosos) e abastecer economias e países inteiros?

Como os governos da União Europeia vão explicar aos seus eleitores que tudo isso “vale a pena” para sustentar a sobrevivência da “jovem e vibrante democracia de Kiev”? Como será a Europa em 2023, depois de provar o esgarçamento político e social? Será ainda soberana para se dar conta de que, aconteça o que acontecer, os Estados Unidos vão continuar importando commodities essenciais da Rússia, enquanto pressionam os outros a não o fazer? O próximo inverno poderá se mostrar como a perfeita prova de fogo em soberania, além de excelente indicador, de quem terá o privilégio de formar parte do novo mundo multipolar de nações soberanas.

*Drago Bosnic é analista geopolítico e militar croata, colabora com os portais de notícias e análise GlobalResearch e InfoBRICS.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em InfoBRICS.

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