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Nota sobre as eleições na Itália

Do A Terra É Redonda, 27 de Setembto 2022
Por ANSELMO PESSOA NETO*


Imagem: Anselmo Pessoa Neto

Considerações sobre a derrota do Partido Democrático (PD) italiano

É curioso como se formam os turbilhões do pensamento. Pessoas que você observa e considera atentas ao que acontece no mundo e à sua volta, de repente, como se do nada, têm uma opinião totalmente descolada da realidade, veem o que não está dado. A construção das ideias é fenômeno estudado. Da Ágora grega a Goebbels, chegando à sofisticação da publicidade e aos profissionais do marketing.

Exemplar, nesse sentido, é o trabalho do sobrinho de Freud, Edward Bernays (1891–1995), considerado o pai da propaganda nos Estados Unidos. Edward Bernays usou a teoria do tio famoso para ganhar dinheiro, foi ele quem criou a onda de que fumar era coisa elegante para as mulheres. O cigarro, construído como símbolo fálico nas campanhas de Bernays para a indústria do tabaco, é a expressão do poder masculino, e as mulheres, com um cigarro na boca, se tornam poderosas ou, pelo menos, fumantes e sujeitas a um câncer.

O filme documentário sobre a experiência de manipulação de mentes e corações de Edward Bernays, cujo título é O século do Ego (The Century of the Self), está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=azE_Mjyma3I

Esse aparentemente longo “nariz de cera” é só aparentemente um nariz de cera. Quem parasse aqui e fosse assistir ao Século do Ego já teria ganho o seu tempo (tempo é aquela coisa que a propaganda também diz ser dinheiro). As eleições políticas de 25 de setembro de 2022 na Itália foi envolta pela mistificação e pela propaganda. A pergunta óbvia é: mas que eleição não é? E a resposta óbvia é: é verdade, toda eleição é envolta em propaganda e mistificação. A diferença, nesse caso, porém, é de grau. A propaganda subiu uma ou mais casas.

Grosso modo, até muito recentemente você tinha pelo menos dois grandes campos em luta: um de esquerda e outro de direita. No geral, você tinha também um campo se dizendo de centro que, na verdade, era de direita também. Depois você podia ter várias nuances de esquerda e, um pouco menos, de nuances de direita. Esses dois grandes campos logo se estabeleciam e a disputa, via propaganda, era a de um campo tentando desmitificar o outro campo, o que, de certa forma, ajudava o eleitor, esse coitado. Os meios materiais de fazer a propaganda conta, ora se conta! E a direita, sempre perto do capital, também era de norma ter mais dinheiro e, por consequência, mais tempo.

A evolução do mundo, pelo menos do mundo da propaganda, nos levou a um outro patamar. As cartas foram embaralhadas. Agora, daqueles dois campos, um de esquerda, outro de direita, você continua tendo dois campos, um se apresentando como de direita e outro se dizendo de esquerda, mas, em termos de programa, de ideias, de propostas, de visão de mundo, a diferença é só de roupagem, só de propaganda.

Os valores de esquerda e os seus teóricos, continuam valendo. Mas aquele grande partido que antes era de esquerda e que defendia os valores históricos de esquerda, hoje é uma velha roupa colorida escondida em algum armário. De forma orquestrada, o que se dá pelo mundo é uma disputa entre uma direita de peito aberto e uma dita esquerda com valores, principalmente na questão crucial, a questão econômica, de direita. Em suma, você tem uma direita contra uma outra direita, mas aquele eleitor, coitado, continua a ser enganado de que ele está em uma disputa do bem contra o mal. E o mal, nós sabemos, é o outro.

Foi o caso das eleições recentes italianas, assim como foram os casos das últimas eleições na França e nos Estados Unidos, para dar dois exemplos fortes. Ainda não era propriamente dita uma disputa entre direita e esquerda no sentido tradicional, pois os Estados Unidos nunca tiveram uma candidato de esquerda que chegasse a concorrer, de forma competitiva, em uma eleição para valer. Joe Biden, assim como Barack Obama e os Clintons, Bill e Hillary são, descaradamente, empregados da indústria armamentista e do capital financeiro. Emmanuel Macron nunca se apresentou como sendo de esquerda, mas capitalizou o pavor. Emmanuel Macron, e eu e você vimos, se colocou como o defensor daquilo que agora na Itália ganhou ainda mais força: os valores ocidentais!

Em suma, os valores ocidentais poderiam ser traduzidos de muitas maneiras, mas a mais direta e certeira é de que aquilo que Emmanuel Macron e Joe Biden (e Enrico Letta) entendem como valores ocidentais é a defesa do sistema dominado e organizado pelo capital financeiro internacional. Tudo o mais que contesta esse sistema, é populismo. E aquela esquerda, que antes era esquerda, e que se vangloriava de contestar o sistema, aquela esquerda agora veste a camisa do sistema com muito orgulho e servidão.

Mas essa nova esquerda modernizada age para aparentar ser ainda de esquerda e continuar usando o rótulo de esquerda. Ela, essa esquerda que defende o sistema, diz que está defendendo o sistema contra um mal maior: contra a direita que defende o sistema! Logo, o que tivemos na Itália foi uma disputa entre uma direita que defende o sistema, representada por Giorgia Meloni, e o seu partido Fratelli d’Italia (com origens no fascismo) contra Enrico Letta e o seu Partido Democratico (com origens no comunismo) que defende o sistema!

Se Emmanuel Macron é um funcionário dos Rothschild, o Partido Democratico (PD) também tem os seus banqueiros de estimação: Pier Carlo Padoan, Mario Monti e agora o melhor dos melhores: Mario Draghi. Pois bem, tanto Giorgia Meloni quanto Enrico Letta defendem a“agenda Draghi”, a agenda do banqueiro.

Não tive como contar das nuances, e são as nuances que fazem da Itália o país mais belo e mais transparente, em certo sentido, do mundo. Quem quiser saber, na Itália, consegue. Mas a Itália é também o país dos indiferentes (Alberto Moravia): https://www.raicultura.it/letteratura/articoli/2020/01/Gli-indifferenti-di-Alberto-Moravia-673c4c8c-b1df-41e9-960c-ed1ecc3759c6.html

Caro leitor, torcedor apaixonado, não chore pela derrota do PD na Itália. Foi também um italiano, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, quem criou a máxima das máximas:“Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Você também pode assistir ao filme clássico de Luchino Visconti, Il gattopardo.

Para uma análise do voto, em italiano, feita no calor da hora, veja https://www.youtube.com/watch?v=TFFYR_o6LOI ou https://www.youtube.com/watch?v=PFphyyK3Pog ou ainda https://www.youtube.com/watch?v=69tza7WdmRI

*Anselmo Pessoa Neto é professor de literatura italiana na UFG. Autor, entre outros livros, de Italo Calvino: as passagens obrigatórias (Editora UFG).

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