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Em um mundo ao avesso, desvirar a ontologia dominante em direção aos saberes decoloniais


Imagem: Nuestro norte es el sur, Joaquin Torres Garcia

Por: Ricardo Machado 
Do IHu,  03 Setembro 2022


O quadro de Joaquin Torres Garcia, que ilustra esta reportagem, mostra o mapa da América do Sul em que a Linha do Equador aparece na base da imagem, em uma alegoria que se tornou clássica ao se referir ao pensamento decolonial. A obra é de 1943 e, certo sentido, profetizava a urgência de repensarmos nossos modos de vida desde nosso próprio território.

O colapso climático, o profundo e profícuo debate sobre a condição humana e sobre a vida na contemporaneidade, levam-nos a refundar os questionamentos sobre os modos hegemônicos de pensar e viver sobre o planeta. Diante deste cenário, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza Ciclo de Estudos Saberes Decoloniais, que retoma e atualiza questões e provocações desde o Sul global.

Desafio à efetivação do pensamento decolonial

Em uma entrevista concedida à Revista IHU On-Line, Walter Mignolo sublinha o quão recente são esses estudos e como trazê-los à tona implica romper uma bolha epistêmica muito poderosa.

“Acontece que foi apenas no século XX que se consolidaram fora da Europa projetos decoloniais de todo tipo, mas que têm em sua base a consciência das ficções imperiais raciais, genéricas e sexuais e as ficções imperiais em torno do Terceiro Mundo, países desenvolvidos, economias emergentes”, descreve Mignolo.

“Este é um pacote epistêmico que justifica o controle das organizações sociais e internacionais em qualquer nível — econômico, político e epistêmico — e que se baseia em uma duvidosa ética: a justificação do extermínio, do envenenamento de águas e terras em prol do crescimento econômico”, complementa.

Ciclo de Estudos “Saberes Decoloniais”

O Ciclo de Estudos Saberes Decoloniais reforça o principal objetivo do IHU, de apontar novas questões e buscar respostas para os grandes desafios de nossa época, a partir da visão do humanismo social cristão, participando, ativa e ousadamente, do debate cultural em tela.

A proposição da transdisciplinaridade é intencional para vincular os diferentes públicos e romper com as fronteiras do pensamento moderno, oferecendo perspectivas mais holísticas de abordagem dos fenômenos.

Confira a programação na íntegra

Perspectivas descoloniais: o papel do Sul Global no Novo Regime Climático | Profa. Dra. Jess Auerbach - Universidade do Cabo Verde – África



Jess Auerbach é professora associada e diretora do Mestrado em Filosofia especializado em Inovação Inclusiva na Graduate School of Business da Universidade da Cidade do Cabo. É uma acadêmica de classificação P (categoria máxima) da South African National Research Foundation. A professora é PhD pela Stanford University e passou um tempo na Universidade Federal Fluminense com bolsa sanduiche em 2014. Possui Mestrado em Ciência na Universidade de Oxford. Autora de dois livros e inúmeras publicações acadêmicas – sua monografia está disponível em português e pode ser acessada aqui. Trabalhou em pesquisa e ensino em Angola, Brasil, Ilhas Maurício, Moçambique, Reino Unido, EUA e outros lugares. Presta consultoria em ecologia e conservação, política de ensino superior e melhores práticas globais em sistemas de conhecimento.

O colapso da modernidade: multipolaridade, decolonialidade e desocidentalização | Prof. Dr. Walter Mignolo – Duke University – EUA




Walter Mignolo é um semiólogo argentino e professor de literatura na Universidade de Duke, nos Estados Unidos. É conhecido como uma das figuras centrais do pensamento decolonial latino-americano e como membro fundador do Grupo modernidade/colonialidade.

Da injustiça à libertação no Atlântico Negro: perspectivas para um mundo pós-ocidental | Prof. Dr. Lewis R. Gordon - Universidade de Connecticut – EUA



Lewis Ricardo Gordon é doutor e mestre em Filosofia pela Yale University, EUA. Atualmente é professor de Filosofia e Estudos Africanos, na Universidade de Connecticut. Gordon também lecionou na Brown University, Yale University, Purdue University e Temple University. Trabalha nas áreas de filosofia africana, existencialismo, fenomenologia, teoria social e política, pensamento pós-colonial, teorias de raça e racismo, filosofias de libertação, estética, filosofia da educação e filosofia da religião.

Transgressões epistêmicas: a práxis decolonial como antídoto ao terricídio | Profa. Dra. Lina Alvarez Villarreal – Universidad de los Andes – Colombia



Lina Álvarez Villarreal possui doutorado em Filosofia na Universidade Católica de Louvain e mestrado em Filosofia, com especialização em Filosofia Alemã e Francesa, na Universidade Católica de Louvain. Atualmente é professora assistente no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Ciências Sociais da Universidad de los Andes.

A filosofia política africana na resposta aos radicalismos contemporâneos: do regional ao universal | Profa. Dra. Nadine Machikou – Universidade de Yaoundé – Camarões



Nadine Machikou é professora de Ciência Política na Universidade de Yaoundé. É co-editora-chefe da Review Politique Africaine e membro do comitê de edição da revista Global Africa. Ela também é diretora de seminários no International War College de Camarões e diretora do Centro de Estudos e Pesquisa em Direito Internacional e Comunitário (Universidade de Yaoundé II) e presidente do júri de agregação de 2019 e 2021 da "Seção Política" da Conselho Africano e Malgaxe para o Ensino Superior (CAMES). É vice-presidente da Associação Africana de Ciência Política desde março de 2021. Seu trabalho hoje se concentra nas expressões práticas e simbólicas da violência, na economia política e moral das emoções (compaixão pela África, raiva no contexto da crise anglófona ou da seita islâmica Boko Haram, etc.), políticas públicas e integração comunitária em África.

O epistemicídio computacional e os desafios descolonizadores do século XXI | Prof. Dr. Syed Mustafa Ali – Open University – Inglaterra



Syed Mustafa Ali é doutor em Filosofia pelo Departamento de Engenharia Eletrônica e Elétrica da Universidade de Brunel (Inglaterra). Atualmente é professor e coordenador do grupo de pesquisa de Estudos de Informação Crítica (CIS) na Escola de Computação e Comunicações da Open University. Sua pesquisa transdisciplinar concentra-se no desenvolvimento de uma estrutura hermenêutica baseada na fenomenologia Heideggeriana, na teoria crítica da raça e no pensamento pós-colonial / descolonial, e usando essa estrutura para explorar como raça, religião, política e ética estão "enredados" com várias tecnologias (mais especificamente, TIC) fenômenos.


O corpo como centro da guerra. Categoria de existência e resistência | Profa. Dra. Mabel Moraña - Cátedra William H. Gass en Artes y Ciencias - Washington University – EUA


Mabel Moraña é uma intelectual e acadêmica de renome, que atuou internacionalmente nos campos da crítica literária e cultural na América Latina, sendo autora de inúmeras publicações interdisciplinares que articulam perspectivas sobre Filosofia, Antropologia, História, e Teoria Cultural. Atualmente ela é Professora William H. Gass em Artes e Ciências na Universidade de Washington em St. Louis (St. Louis, Missouri). Ela também é a Diretora do Programa de Estudos Latino-Americanos da mesma instituição. O seu trabalho de investigação estende-se desde o Período Colonial, com especial enfoque no Barroco, até à atualidade. Suas principais contribuições são nas áreas de estudo das culturas nacionais, modernidade, pós-colonialismo e história das ideias.

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