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Como as finanças comandam o capitalismo

Especulação movimenta 36 vezes mais que a riqueza produzida no mundo. Desde 2008, Estados emitiram, do nada, US$ 19,3 trilhões para alimentar o cassino. A que serve o sistema financeiro hoje: facilitar a produção ou capturar a riqueza coletiva?



De OUTRASPALAVRAS, 20 de Setembro 2022
Por Pete Dolack, no Counterpunch | Tradução: Vitor Costa


As dimensões do setor financeiro não tem relação com a economia. Deixando de lado a retórica, ele confisca dinheiro, não o cria. Quanto? Vale examinar alguns números.

> Valor total das dívidas: US$ 305 trilhões.

> Valor total de papéis financeiros negociados, em média, por dia: US$ 9,68 trilhões.

É muito dinheiro. Tanto que a imaginação tem dificuldades para compreender tais números. Uma maneira de enxergá-los em perspectiva é lembrar que o tamanho da economia mundial (produto interno bruto global para todos os países do mundo) foi de US$ 96,1 trilhões em 2021.

Em outras palavras, o volume de negociação de moedas (câmbio), ações, títulos e seus derivativos supera o tamanho da economia global a cada 10 dias úteis. (O período é quase certamente um pouco mais curto, já que os US$ 9,68 trilhões, média diária de negociação, não incluem a maior parte dos títulos dos Estados, cujo valor negociado é difícil de obter.) Para fazer outra comparação, o valor da dívida do governos, empresas e famílias do mundo (o total de US$ 305 trilhões acima) é mais de três vezes e meia o valor de toda a atividade econômica produzida em um ano.

Ainda outra maneira de olhar para essa atividade é perceber que o comércio que envolve câmbio de moedas (incluindo swaps, opções, transações à vista e a prazo) em um dia é maior do que as economias de todos os países, exceto os Estados Unidos e a China. Dado que o dólar americano, a moeda de reserva mundial, e está envolvido em 88% dos negócios de câmbio, os negócios com dólar totaliza sozinhos mais de um ano de produção de todos os países, exceto os EUA e a China.

Um monstro que nunca se sacia

A revista Rolling Stone uma vez descreveu o banco Goldman Sachs (de forma memorável) como um “grande polvo vampiro, enrolado na face da humanidade”.Este monstro está ficando maior. Quando fiz este exercício pela última vez, há 10 anos, levava cerca de 11 dias úteis para os especuladores negociarem instrumentos financeiros e contratos equivalentes todos os produtos e serviços produzidos pelo mundo inteiro em um ano. Agora são 10 dias. Veja só o progresso.

Não há razão econômica racional para um setor financeiro ter sequer uma fração desse tamanho. A maior parte da ação nas bolsas de valores é simplesmente especulação. A ganância é certamente uma parte do problema, mas não responde tudo. Como não há oportunidades suficientes para investimento, mais dinheiro é desviado para a especulação. À medida que pilhas cada vez maiores de dinheiro são desviadas para esta atividade, o tamanho do setor financeiro e a porcentagem de lucros corporativos reivindicados por tal setor crescem constantemente. Esse capital existe em função da quantidade de dinheiro que converge para cima, para os ricos, e é infinitamente superior ao que podem dispender em consumo ou investimento de luxo pessoal. Essas torrentes de dinheiro são desviadas para uma especulação cada vez mais arriscada.

Há muito dinheiro em busca de poucos ativos, o que produz elevação rápida dos preços [de imóveis, em todo o mundo, por exemplo] até um ponto em que já não há fluxo de receita capas de sustentar o preço dos ativos comprados em níveis inflacionados. Não é muito diferente dos desenhos da Warner Brothers em que o personagem anda para além de um penhasco e dá vários passos suspensos no ar, até que olha para baixo, vê que não há nada além de ar sob si mesmo e cai. Em algum momento, os especuladores olham para baixo e percebem que não têm apoio. O pânico em massa começa e os preços desabam, produzindo outra crise econômica. Crise que os trabalhadores, e não os especuladores, pagarão.

O próprio tamanho dos mercados financeiros é uma das principais causas da instabilidade econômica. Depois de extraírem dos Estados imensas somas de dinheiro, a pretexto de “resgate”, após a crise de 2008, as empresas financeiras alavancaram seu poder para se tornarem ainda maiores por meio de fusões. Isso lhes permitiu desviar mais capital do uso produtivo. Mas mesmo durante a parte do alta dos ciclos de negócios, os financistas são destrutivos para a economia, pois “recompensam” as empresas produtivas por demissões em massa, por transferirem a produção para países em desenvolvimento, com baixos salários e poucos ou nenhum direito trabalhista ou ambiental efetivo, e por estabelecerem subsidiárias em paraísos fiscais e evitar o pagamento de impostos. A “recompensa” dos financistas por esse comportamento assume a forma de aumento dos preços das ações. Estes, por sua vez, fornecem aos altos executivos uma justificativa para conceder a si mesmos remunerações estratosféricas, a pretexto de terem “aumentado o valor para o acionista”.

Ao mesmo tempo, há uma pressão contínua para rebaixar os salários. À medida em que uma parcela crescente das receitas corporativas é desviada para os rendimentos dos executivos e transferência de lucros, o que sobra para remunerar os trabalhadores declina. E muitos desses lucros corporativos são rapidamente canalizados para dividendos e recompras de ações, e outras maneiras do dinheiro “subir” para as mãos sempre ávidas de especuladores muito ricos.

As corporações da América do Norte, Europa e Japão distribuíram surpreendentes US$ 2,75 trilhões aos acionistas em 2021, por meio de pagamentos de dividendos e recompras de ações. Em fevereiro de 2022, a quantidade de dinheiro criada pelos bancos centrais de cinco das maiores economias do mundo, com o objetivo de sustentar artificialmente os mercados financeiros desde o início da pandemia de Covid-19 totalizou US$ 9,94 trilhões. Isso se soma aos US$ 9,36 trilhões gastos no salvamento dos mercados financeiros nos anos seguintes ao colapso econômico global de 2008. São US$ 19,3 trilhões no período de 14 anos, e essa soma surpreendente de subsídios e doações representa apenas um programa dos muitos usados ​​pelo Federal Reserve dos EUA, pelo Banco Central Europeu, pelo Banco do Japão, pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco do Canadá.

Eles podem quebrar, mas é você quem se ferra

Como poderia um setor parasitário crescer em proporções tão gigantescas? Em teoria, os mercados de ações existem para alocar capital de investimento onde for necessário e para permitir que as corporações arrecadem dinheiro para investimento ou outros fins. Na vida real, isso não corresponde à verdade. Uma corporação com ações negociadas em bolsa pode usar esse status para emitir novas ações, levantando dinheiro sem o ônus de lidar com credores e pagar juros. Mas as grandes corporações podem levantar dinheiro de diversas outras maneiras — por exemplo, emitindo títulos ou outras dívidas, ou vendendo ações diretamente a investidores privados. As corporações também não desejam necessariamente lançar novas ações: fazer isso não agrada aos investidores, porque os lucros são diluídos, quando distribuídos entre mais ações. Em vez disso, é mais comum que as grandes empresas recomprem partes de suas ações (com um acréscimo em relação ao preço de negociação), o que significa distribuir os lucros mais restritamente. Daí o aumento constante das recompras de ações. Combinadas com os dividendos, elas superam, em alguns anos, o total de lucros.

E quanto a “alocar o capital de investimento onde ele é necessário”? A expressão significa, em poucas palavras, que os mercados de ações supostamente tornam as finanças mais eficientes. Em teoria, o capital será empregado em setores ou empresas que tendem a lucrar mais (por suprirem necessidades humanas), mas ainda não têm capital suficiente. Ou, então, por empresas que já têm um histórico lucros. No fundo, comprar ações é uma aposta nos lucros futuros da empresa. Quem investe aposta que os lucros não apenas aumentarão, mas aumentarão a uma taxa mais rápida do que no passado. Certa vez, trabalhei em um serviço de notícias financeiras e um dia fiquei surpreso quando o preço das ações de uma conhecida empresa de tecnologia caiu, apesar de se anunciar que havia obtido um lucro de US$ 800 milhões nos três meses anteriores – mais que no mesmo período do ano anterior. Em um exame mais minucioso, a empresa foi punida pelos especuladores porque a taxa de aumento do lucro não cresceu – esse lucro gigantesco foi menor do que os “analistas” do mercado de ações haviam previsto.

O fato ilustra que as transações são feitas principalmente para especulação, não por qualquer razão econômica racional. Os primórdios do setor financeiro foram lentos, no alvorecer do capitalismo. Podia levar anos para que um investimento fosse recompensado. Por isso, os financiadores intervinham para fornecer liquidez em dinheiro. Mas como a especulação financeira não tem as limitações físicas da produção de bens materiais, a especulação foi aos poucos tornando-se proeminente. Na verdade, os crashs financeiros são muito anteriores de 1929 e 2008. A “febre das tulipas” consumiu os holandeses na década de 1630, numa especulação alimentada pelos primeiros contratos futuros. A especulação descontrolada na década de 1710, na Companhia Inglesa do Mar do Sul e na Companhia Francesa das Índias, levou ao colapso das ações de ambas, uma bolha na qual nasceu a venda a descoberto. Uma bolha de 1830 no mercado imobiliário norte-americano estourou quando os bancos pararam de fazer empréstimos. E uma bolha da década de 1870, inflada pela especulação em ferrovias e construção na América do Norte e na Europa, estourou quando o mercado de ações de Viena quebrou, seguido por ondas de falências de bancos.

Os bilionários e corporações multinacionais do mundo lucraram muito com a pandemia de covid-19, inflando enormemente sua riqueza. Como esperado, a dívida também aumentou dramaticamente. O aumento da dívida em 2020 foi o maior do que em qualquer ano desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

Metade do aumento da dívida em 2020 foi governamental, novamente sem surpresa, considerando os trilhões entregues às instituições financeiras naquele ano. Segundo o FMI, “os aumentos da dívida são particularmente marcantes nas economias avançadas, onde a dívida pública subiu de cerca de 70% do PIB, em 2007, para 124% do PIB, em 2020. A dívida privada, por outro lado, cresceu num ritmo mais moderado de 164% para 178% do PIB, no mesmo período. A dívida pública agora responde por quase 40% da dívida global total, a maior parcela desde meados da década de 1960.”

Arrancando dinheiro de quem trabalha

Deve-se sempre lembrar que o lucro de um capitalista é obtido pagando aos empregados muito menos do que o valor do que eles produzem. Por sua vez, a indústria financeira extrai dinheiro dos produtores de bens e serviços tangíveis e, muitas vezes, também dos governos. O capital financeiro busca lucrar com toda e qualquer atividade econômica em qualquer lugar, independentemente do custo para todos os demais. Esse processo é incrivelmente lucrativo – não apenas os bancos de investimento estão entre as corporações mais lucrativas, como os especuladores podem montanhas de dinheiro a cada ano – e eles pagam menos impostos que você!

Nem mesmo as grandes corporações estão imunes à pressão do setor financeiro. Vários anos atrás, a DuPont, a multinacional química que produz muitos produtos que dominam seu mercado, acumulou cerca de US$ 17,8 bilhões em lucros em cinco anos, distribuiu US$ 4 bilhões e se gabou de um aumento de 20% em suas ações, ao longo de um ano. No entanto, um poderoso gestor de fundos de hedge declarou guerra à administração da DuPont, exigindo que a corporação fosse dividida em duas, sob a teoria de que mais lucro poderia ser auferido nesse processo. O especulador não conseguiu o que queria, mas a DuPont demitiu trabalhadores para apaziguar os especuladores, apesar de sua enorme lucratividade. Por fim, a DuPont fundiu-se com a Dow Chemical e, em seguida, o conglomerado combinado se dividiu em três empresas, em manobras feitas principalmente para gerar mais dinheiro para os especuladores.

Mesmo o Wal-Mart não é forte o suficiente para enfrentar Wall Street. Após cinco anos de lucros maciços (US$ 80 bilhões), os especuladores começaram a baixar o preço das ações da empresa em parte porque ela havia aumentado seu salário mínimo para US$ 9 por hora . O Wal-Mart tentou compensar essa notícia anunciando também uma nova recompra de ações de US$ 20 bilhões, mas nem esse aceno para os financistas serviu para levantar os ânimos dos especuladores. A empresa, lendária por seu esforço feroz de forçar o deslocamento da produção para locais com salários mais baixos, foi considerada pelos financistas como insuficientemente bruta.

Como sempre, se der cara, Wall Street vence; e se der coroa, Wall Street vence. Esses valores fantásticos dos lucros com instrumentos financeiros não caem do céu e não existem por causa de alguma rara perspicácia de especuladores. Essas montanhas de dinheiro, que colocariam em risco os satélites em órbita se fossem empilhadas, são o resultado direto da exploração de quem trabalha.


PETE DOLACK
Pete Dolack é jornalista com uma longa carreira em jornais norte-americanos, mas resolveu mudar de profissão em busca de mais honestidade. É autor do blog Systemic Disorder. É ativista, escritor, poeta e fotógrafo.

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