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A próxima eleição – biofilia versus necrofilia

Do A Terra É Redonda, 15 de Setembro 2022
Por LEONARDO BOFF*


Imagem: David Peinado
Caso Jair Bolsonaro for reeleito, irá implementar um projeto sob o domínio da necrofilia, da promoção da morte e seus derivados como o ódio e a mentira

Na missa de páscoa canta-se um dos mais belos hinos do gregoriano no qual se diz: “a morte e a vida entreolhando-se travaram um duelo” (mors et vita duello conflixere mirando). E se conclui: “o senhor da vida, reina vivo” (dux vitae, regnat vivus).

Refiro este texto litúrgico como metáfora do que vejo se realizar nas próximas eleições: um plebiscito no qual se trava efetivamente um duelo político entre dois projetos de Brasil e dois modelos de presidente. Um projeto tem como representante e promotor um presidente que claramente se aliou ao domínio da morte. Não quero eu dizê-lo, mas o afirma umas das inteligências jurídicas mais brilhantes de nosso país, ex-governador do Rio Grande do Sul, ex-ministro da justiça, Tarso Genro:

“Para Jair Bolsonaro não há adversários, só há inimigos a serem abatidos pelas armas. Como um político que defende o justiçamento de suspeitos, o fuzilamento de “30 mil compatriotas”, o assassinato de um presidente pacífico e democrático, a tortura como método inquisitório, o fim a democracia política, que sustenta que o erro da ditadura não foi torturar, mas foi “não matar”, que explicita publicamente a sua admiração a Hitler e debocha da tortura sofrida por uma mulher digna – que estava sendo retirada da Presidência –, como este político foi covardemente naturalizado pelo “establishment” neoliberal e pelas grandes cadeias de comunicação, depois de ter cometido e repetido muitos crimes bárbaros e ainda ter feito uma consciente propaganda genocida contra a vacinação?”

Aqui fica claro um projeto de morte que, caso Jair Bolsonaro for reeleito, irá implementá-lo. É o domino da necrofilia, a promoção da morte e seus derivados como o ódio e a mentira.

No outro lado do duelo, há outro representante, Luis Inácio Lula da Silva. Não quero ser maniqueísta que só considera o bem de um lado e o mal do outro. Bem e mal se misturam. Mas há de se reconhecer que em Lula bem ganha mais expressão. Apresenta um projeto cuja centralidade reside na vida a começar pelos que menos vida têm: os trinta milhões de famintos, os 110 milhões com insuficiência alimentar, os milhões de desempregados ou sub-empregados, os trabalhadores e os aposentados que viram diminuírem seus direitos com o salário mínimo congelado.

Para resumir, o primeiro a se fazer é garantir os mínimos: comida, saúde, trabalho, educação, casa, terra para produzir alimentos para o povo, segurança e oportunidade para aqueles que historicamente são os descendentes da senzala (54% da população) poderem entrar no ensino superior, universitário ou técnico. Governar é cuidar de todos, mas sempre a partir dos humilhados e ofendidos. A inspiração vem de Gandhi que dizia: fazer política é ter um gesto amoroso para com o povo e cuidar das coisas comuns. Ou nas palavras do Papa Francisco em sua Fratelli tutti: a política tem que ser feita com ternura “que é o amor se faz próximo e concreto, um movimento que procede do coração e chega aos olhos, aos ouvidos e às mãos” (n. 196). É o reino da biofilia, do amor à vida.

Estes dois projetos, como num duelo, estão se enfrentando nesta eleição. Cabe aos cidadãos fazerem seu discernimento: finalmente que país nós queremos? Que presidente é mais portador de vida, de meios de vida, de esperança e de gosto de viver? Não somos pedras que apenas existem. Não queremos só existir, queremos viver e conviver em paz uns com os outros.

O que experimentamos no governo do atual presidente foi o decrescimento em nossa humanidade, o abandono de milhares entregues à virulência do Covid-19 e que morreram quando poderiam ter sido salvos se não fosse o tenaz negacionismo oficial.

O que mais nos dói e envergonha é a falta de compostura da mais alta autoridade da nação que deveria viver as virtudes que gostaria ver realizadas no povo como a solidariedade, o cuidado de uns para com os outros e com a nossas riquezas naturais e a promoção de nossa ciência e cultura, por ele agredidas de forma vexaminosa. Ao contrário, predominou a difusão do ódio, das fake news, a boçalidade, a linguagem de baixo calão e todo tipo de discriminação para com os afrodescendentes, os indígenas, os quilombolas, as mulheres, os pobres e os LGBT+ entre outros.

Só poderemos superar este flagelo político-social e necrófilo se, no duelo, optarmos pelo projeto da biofilia. Aqui me valho ainda do ex-governador Tarso Genro: “Há de se fazer, uma semana antes do pleito, um grande acordo político de governança e governabilidade, derrotando Jair Bolsonaro no primeiro turno, unida em torno do nome mais forte para vencer e conduzir a nação ao destino democrático e social que o nosso povo merece”.

Esse nome está emergindo como o preferido dos eleitores, Lula da Silva. É um sobrevivente da grande tribulação nacional, mostrou que foi capaz de humanizar a política, tirando o Brasil do mapa da fome e criar políticas sociais e populares que criaram oportunidades para os excluídos, para muitos outros e principalmente devolveram dignidade aos empobrecidos.

O destino de nossa nação está em nossas mãos. Depende da opção por aquilo que tire o Brasil do fosso no qual o lançaram e nos permita diminuir a nefasta desigualdade social e, por fim, nos conceda a alegre celebração da vida. A próxima eleição-duelo em 2 de outubro significará o grande teste: que Brasil e que presidente, de fato, nós queremos. Oxalá triunfe o projeto da biofilia, do amor à vida, especialmente aquela sofrida das grandes maiorias.

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência (Vozes).

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