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A era dos grandes êxodos climáticos

1,5 bilhão pessoas migrarão até 2050, quando suas casas ou terras tornarem-se inabitáveis. Vítimas de um aquecimento global que não causaram, elas desafiarão a ordem social e geopolítica do mundo. Seu movimento pode definir o século XXI



De OUTRASPALAVRAS, 15 de Setembro 2022
Por Bill McKibben, no New York Review of Books | Tradução: Vitor Costa


A crise climática pode ser entendida como um experimento em tempo real. Ao queimarmos os restos de centenas de milhões de anos de flora e fauna ao longo de algumas décadas, estamos forçando o planeta a passar por mudanças que geralmente levam eras. O tempo, num sentido mais amplo, está correndo como num desses vídeos em que uma flor se abre em segundos. Em um instante geológico, elevamos a temperatura média global anual em um grau centígrado, e o segundo grau virá ainda mais rápido. Em nosso curso atual, rumamos para um terceiro grau. Mudanças surpreendentes nas chuvas, incêndios florestais, mudanças no nível do mar e muitos outros sistemas estão acontecendo mês a mês e estação a estação. O ritmo é brutal.

Mas esse experimento temporal está se desenrolando ainda mais dramaticamente no espaço físico. O rápido aumento da temperatura está fazendo com que espécies de plantas e animais, e pessoas, movam-se em direção aos pólos e a terras mais altas e mais frias. Este êxodo não apenas começou, mas também começou a sobrecarregar a nossa estabilidade biológica e política. Precisamos pensar profundamente sobre isso e agir com determinação, se quisermos ter alguma esperança de não rasgar nosso tecido ecológico e civilizacional de maneira permanente. Três novos livros nos ajudam a avaliar a magnitude do desafio. Não é possível entender as próximas décadas de vida na Terra sem assimilar essa mensagem conjunta.

Como Benjamin von Brackel observa em Nowhere Left to Go, a ecologista Camille Parmesan foi uma das primeiras a sugerir que estávamos vendo a mudança climática em ação. Em 1996, ela publicou um estudo influente sobre as borboletas de Edith (Euphydryas editha), mostrando que a espécie estava desaparecendo no extremo sul de sua área de distribuição, no México, mas não no Canadá: no geral, o “centro de distribuição” da borboleta havia se deslocado mais de 100 quilômetros ao norte e 100 metros acima, em altitude. Outros biólogos começaram a observar as áreas de distribuição das espécies que estudavam e, nos últimos vinte anos, surgiram estudos robustos sobre o tema.



Von Brackel, um jornalista alemão, narra habilmente a pesquisa em todas as latitudes e em todos os continentes. Ele descreve, por exemplo, a invasão do Ártico por veados, coelhos e castores – cujas represas criam lagoas que agora são visíveis via satélite; e mostra que a água retém o calor, acelerando o derretimento do permafrost subterrâneo. Bois almiscarados, caribus e raposas do Ártico estão sendo inexoravelmente empurrados para o norte, de onde irão correr para o oceano. “Quanto mais se aproximam do Pólo Norte, mais o território habitável encolhe. Afinal, a Terra é um elipsóide”, escreve ele.

Como em terra, o processo também ocorre no mar. Von Brackel escreve de maneira comovente sobre as comunidades indígenas agora amplamente ignoradas pelas baleias, das quais dependiam para alimentação e continuidade cultural, porque os pequenos organismos dos quais os cetáceos se alimentam estão se movendo à medida que as temperaturas aumentam. Enquanto isso, ao largo da Islândia, surgiram enormes cardumes de cavalas, em migração para o norte. Quando os pescadores do continente europeu seguiram os peixes, violentos conflitos com os seus homólogos islandeses foram evitados por pouco.

Ao longo da costa leste dos EUA, os bordos açucareiros estão se movendo para o norte (e os dias de março, de congelamento noturno e degelo matinal que impulsionam a seiva, estão se movendo para fevereiro ou desaparecendo completamente). Teoricamente, porém, eles têm algum espaço para se mover; por isso, nesse processo a perda em Vermont (EUA) deve ser compensada no Quebec. Muitos outros ecossistemas estão, ao contrário,morrendo em seus locais: von Brackel descreve a triste situação de Terry Hughes, o cientista de coral australiano cuja carreira tornou-se uma longa vigília, à medida em que a Grande Barreira de Corais, a maior estrutura viva da Terra, branqueia repetidamente. (Seguidores no Twitter podem assistir este obituário escrito em tempo real: Hughes frequentemente reporta seus sobrevoos das vastas extensões de corais esbranquiçados que agora revestem a costa de Queensland.) É possível que alguns corais possam emergir no que antes eram águas temperadas mais ao norte, à medida em que estas se tornam mais tropicais, mas não se empolgue: “a formação de uma barreira de corais desse tamanho pode levar, no mínimo, meio milhão de anos”.

Mudanças igualmente fundamentais estão em andamento nos ecossistemas mais importantes da Terra. Biólogos que trabalham na Amazônia demonstraram que árvores e espécies de pássaros e insetos estão se movendo para as montanhas para escapar do calor crescente. Em certo ponto, eles ficarão sem montanhas para escalar, mas o problema mais profundo é que em muitas das maiores florestas do mundo não existem montanhas, apenas vastas planícies que estão ficando cada vez mais quentes. Nas montanhas, escreve von Brackel, a temperatura cai três graus centígrados a cada trezentos metros de elevação, mas nas planícies um pássaro ou uma árvore precisaria viajar quinhentos quilômetros ao norte para obter alívio semelhante.

A situação é mais complicada na Amazônia e em outras regiões florestais como o Congo, porque os humanos estão simultaneamente derrubando e queimando grandes áreas da selva e, junto com o aumento do calor, isso está mudando a maneira como a água se move pela região. As raízes das árvores amazônicas sugam grandes quantidades de chuva do Atlântico e depois transpiram essa umidade através de suas folhas. É como um rio aéreo, e essa umidade se torna chuva nas faixas seguintes de floresta, mais a oeste. Mas tanto a seca causada pelo clima quanto as interrupções causadas pelo homem estão bloqueando esse processo. Quatro anos atrás, o lendário conservacionista tropical Tom Lovejoy (que morreu no inverno passado) e seu colega brasileiro Carlos Nobre calcularam que “bastaria cerca de 20% de desmatamento para desequilibrar todo o sistema”, transformando a floresta tropical em savana.

Já estamos nesse limite. Von Brackel relata que


“O Pantanal no sudoeste do Brasil é uma das maiores áreas úmidas do mundo. Foi aqui que ocorreu a pior seca em séculos em 2020… E um enorme incêndio ardeu por semanas, destruindo um quarto de todo o ecossistema de florestas, ilhas e pastagens.


A estação chuvosa nesta zona úmida é agora 40% mais curta, muito provavelmente, diz ele, como resultado daqueles “rios aéreos” da Amazônia começando a cessar”.

Temos alguma capacidade de responder a essas mudanças dramáticas. Muitos países, incluindo os EUA, estão apoiando um plano “30 por 30” que prevê a reserva de quase um terço de suas terras até o final da década – nos EUA isso significaria proteger formalmente uma área maior que o estado de Texas. Mas esse trabalho fica cada vez mais desafiador quando se torna mais necessário. Onde antes você podia “preservar” uma espécie cercando seu habitat, agora também é preciso proteger sua rota de fuga: os ursos pardos não vivem no parque de Yellowstone porque gostam de fazer parte da economia turística de Wyoming; eles estão lá porque é a temperatura certa. Se essa temperatura se mover centenas de quilômetros para o norte, eles também devem se deslocar – por rodovias e áreas povoadas. (Algumas dessas rodovias foram destruídas em inundações recordes na região em junho. Comunidades turísticas reportaram prejuízos de 75% ou mais depois das enchentes).

Von Brackel entrevista cientistas que estão trabalhando em “migração assistida” para muitas espécies, mas isso é um trabalho muito árduo, e não apenas para espécies como os ursos pardos, que as pessoas temem com razão. É difícil porque a mudança nunca pára. Noé teve que lidar com apenas quarenta dias de chuva, mas (para citar Camille Parmesan) “o problema com a mudança climática é que não há fim à vista…. Se soubéssemos quando o clima se estabilizaria, poderíamos nos preparar para isso.”

Neste ponto está claro que a destruição será enorme, mas como Von Brackel conclui,


“Quanto menos permitirmos que a terra aqueça, mais áreas devolveremos à natureza, e quanto mais reservas e corredores criarmos, mais espécies poderemos salvar e pelo menos poderemos transmitir fragmentos de vida nesse planeta para nossos filhos e netos.

Desde, é claro, que nós e nossos filhos e netos possamos estar despreocupados com outro problema — que é onde nós mesmos vamos morar. Os seres humanos, de acordo com Jens-Christian Svenning, um acadêmico dinamarquês que von Brackel cita muito, concentraram-se pelo menos nos últimos seis mil anos em um “cinturão surpreendentemente estreito” do planeta, centrado em torno de uma temperatura média de 13ºC, e com umidade relativamente baixa: grande parte da América do Norte, Europa Ocidental e do Sul, Oriente Médio, leste da China, Japão.

Esta é a “zona temperada a mediterrânea”, e é atraente porque “os pequenos agricultores podem trabalhar ao ar livre sem sofrer de calor ou frio excessivos”, porque as colheitas e o gado rendem mais aqui, e talvez porque “temperaturas moderadas também garantem bom humor e boa saúde mental.”

Essa zona também está migrando para o norte, o que talvez não seja um problema insuperável. Pode-se imaginar os moradores do Vale de Napa, na Califórnia, mudando-se para Oregon e depois para a Colúmbia Britânica, no Canadá. O calor recorde do Reino Unido neste verão foi brutal para pessoas sem ar condicionado, mas essa brutalidade é relativa. O maior problema é que grande parte do mundo que já está mais quente que a média se tornará quente de forma letal. Menos de 1% da superfície do planeta tem uma temperatura média superior a 29ºC, e no momento isso corresponde principalmente à região do Saara. Mas a modelagem computacional desses estudos mostra que, dentro de cinquenta anos, essas temperaturas podem ser comuns na maioria dos trópicos, uma área que abriga 3,5 bilhões de pessoas. Morar lá se tornará quase impossível: estará muito quente para trabalhar ao ar livre. Leia o primeiro capítulo do romance de Kim Stanley Robinson, The Ministry for the Future, sobre uma louca onda de calor indiana; ou leia os relatos dos jornais sobre as ondas de calor reais que degradaram gravemente a vida na Índia na primavera passada e na China neste verão, ou sobre o dilúvio quase inimaginável que no final de agosto colocou um terço do Paquistão debaixo d’água e transformou o rio Indo essencialmente em um oceano interior. As pessoas vão acabar migrando.

Na verdade, eles já estão. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados informou no final de maio que o mundo tinha, pela primeira vez na história registrada, 100 milhões de pessoas deslocadas à força. Entre as causas para a migração no ano anterior, “conflito e violência” corresponderam a 14,4 milhões de pessoas, e “eventos relacionados ao clima” representaram mais: 23,7 milhões – embora a distinção entre estas duas causas seja difícil de traçar. À guerra na Síria, por exemplo, que produziu um grande número de refugiados, seguiu-se à seca mais profunda já registrada no que antes chamávamos de Crescente Fértil.

Os números são assustadores: 100 milhões de pessoas é mais do que a população de, digamos, Alemanha, Turquia ou Vietnã. Mas eles são uma pequena fração do que podemos esperar à medida que as temperaturas aumentam: a Organização Internacional para as Migrações previu que poderíamos ver 1,5 bilhão de pessoas forçadas a deixar suas casas até 2050, e em 2020 uma análise de uma equipe internacional de acadêmicos dos Proceedings of the National Academy of Sciences disse que até 2070 até três bilhões de pessoas podem estar vivendo em áreas atingidas pelo calor elevado.

Esses números parecem muito grandes? Gaia Vince, em seu livro Nomad Century, aponta que os incêndios florestais, mesmo em lugares ricos como Califórnia e Austrália, já começaram a produzir migrações internas. Mas a riqueza é um amortecedor. Nas partes mais pobres do mundo, um planeta em aquecimento já é uma rotina diária. A autora relata que os produtores de arroz no Vietnã estão plantando à noite com lanternas para evitar o calor perigoso, e a revista médica britânica The Lancet estima que em 2018 “mais de 150 bilhões de horas de trabalho foram perdidas devido à temperatura e umidade extremas”. (É claro que, para muitos agricultores, seu sustento será coisa do passado – espera-se que partes do sul do Vietnã, por exemplo, estejam abaixo do nível do mar até 2050.)


No momento em que escrevo, partes do Chifre da África estão enfrentando sua quarta “estação chuvosa” consecutiva e as crianças estão morrendo de fome; na América Central, uma terra estreita entre dois oceanos em rápido aquecimento, a seca tornou a agricultura muito difícil. E quando a chuva chega, geralmente é na forma de tempestades violentas – em 2020, no final da temporada de furacões mais ativa da história do Atlântico, Eta e Iota devastaram Nicarágua, Honduras e Guatemala, causando danos imensos: segundo algumas estimativas, equivalem a quase 40% do PIB em Honduras. Quando as pessoas não podem cultivar e não podem comer, elas se mudam, ou pelo menos tentam.

Afirmemos sucintamente o ponto mais óbvio: nenhuma dessas crises é causada pelas pessoas que as sofrem. O somali médio, no epicentro dessa seca devastadora, produz apenas um centésimo de carbono do que o norte-americano médio; o hondurenho médio 1/15; o vietnamita médio um sétimo (e muito disso vem da fabricação de material para exportação para o Ocidente). Os EUA, com 4% da população mundial hoje, produziram um quarto de todas as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera; o carbono que o país lançou no ar durante sua industrialização e (especialmente) sua suburbanização permanecerá por um século ou mais. Nenhum país, nem mesmo os muito mais populosos como a China, chegará perto de alcançá-los. Fome na Somália, furacões hondurenhos, inundação vietnamita – são crises originadas nos EUA, e dado que muitos nas corporações e no governo conhecem as consequências da queima de combustíveis fósseis há décadas, pode-se dizer que a crise climática é um tipo de crime que os norte-americanos cometem.

E não é o primeiro crime. O escopo global e a perspectiva histórica de Border and Rule, da ativista canadense Harsha Walia força o leitor a lidar com o uso e abuso de um poder implacável e contínuo por países ricos e seus líderes políticos e econômicos. Walia não é uma jornalista, por isso o livro é leve na narrativa (e um pouco pesado no jargão), mas é devastador em sua distribuição de dados e evidências.


Frequentemente ouvimos falar de uma “invasão” de imigrantes, que cria uma “crise de fronteira”, observa Walia, mas “a migração em massa é o resultado das crises atuais do capitalismo, conquista e mudança climática”. Ela documenta séculos de coerção ao longo da fronteira EUA-México. Os EUA anexaram o norte do México, trabalharam para frustrar a Revolução Mexicana e, com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, começaram a “cooptar indústrias domésticas no México para um regime global de produção.” Este foi o neoliberalismo em seu ápice, teoricamente “abrindo” as economias dos EUA e do México para um comércio transfronteiriço amplamente desimpedido. Mas os resultados foram tão previsíveis quanto brutais: mais de um milhão de agricultores mexicanos forçados à falência em uma década, enquanto as exportações de milho dos EUA para o México aumentaram 323%. Essa enxurrada de milho barato prejudicou particularmente as comunidades indígenas que dependiam econômica e culturalmente de um vegetal que havia sido domesticado pela primeira vez em suas terras.

“Milhões de indígenas, agricultores, camponeses e aldeões de áreas rurais foram desapropriados e depois proletarizados em fábricas e empresas agrícolas de baixos salários”, escreve Walia. O emprego nas fábricas maquiladoras ao longo da fronteira “explodiu em 86% nos primeiros cinco anos do NAFTA”, em cidades que logo se tornaram mortais para as mulheres. 90% dessas fábricas eram de propriedade dos EUA e “estabeleceram, na prática, o teto salarial para a manufatura em todo o continente”, eliminando 700 mil empregos nas fábricas nos Estados Unidos. É fácil ver como isso simultaneamente impulsiona a pressão migratória no México e gera ressentimento ao norte da fronteira. Uma fronteira acaba por ser um dispositivo muito útil para controlar as pessoas de ambos os lados. (Você pode, por exemplo, fazer com que pessoas sem documentos façam trabalhos mal pagos que outras não aceitariam e, em seguida, usar seu status para evitar que reclamem. De acordo com um estudo que ela cita, 52% das empresas nos EUA ameaçam ligar para autoridades de imigração durante as campanhas sindicais.)

Walia relata casos igualmente detalhados em muitos países, revelando a dinâmica por trás das horríveis prisões insulares da Austrália para migrantes e o extenso sistema de acordos da Europa para manter os imigrantes africanos longe do continente. A autora destrói um consenso convencional após o outro: por exemplo, ela pergunta: em um mundo explorado e em rápido aquecimento, qual é a diferença entre um refugiado digno e um “migrante econômico” astuto? Ao final deste relato notável, é difícil discordar quando ela escreve:


“Eu me alinho com uma política de esquerda, em favor da abolição das fronteiras, já que as fronteiras de hoje estão completamente ligadas às violências de desapropriação, acumulação, exploração e suas imbricações com raça, casta, gênero, sexualidade e habilidade…. As fronteiras não são simplesmente linhas que marcam território; eles são produto de relações sociais e reproduzem essas relações das quais devemos nos emancipar.”

Mas o que a justiça exige e o que a política pode produzir são muitas vezes muito diferentes. Estamos longe de derrubar fronteiras. Como observa Walia, em um país após o outro, os políticos de direita usaram habilmente o medo de que as pessoas cruzassem essas fronteiras para fortalecer os governos mais retrógrados. Vale lembrar que Donald Trump começou sua improvável campanha presidencial com comentários sobre estupradores mexicanos. Sua retórica descarada sobre pessoas de “países de merda” chegando aos EUA para roubar empregos americanos capturou o apoio de eleitores pobres, e agora Greg Abbott está empregando a Guarda Nacional do Texas para patrulhar a fronteira como parte de sua tentativa de reeleição como governador do estado. Encontra apoio não apenas entre eleitores brancos, mas também entre latinos no Vale do Rio Grande.

A mesma dinâmica pode ser vista em todo o mundo. Os partidos de direita na Europa usaram uma retórica inflamada em torno de incidentes de assédio sexual para tentar colocar as mulheres contra a imigração, e um “ecofascismo” emergente precisa ser levado a sério. Como Walia aponta, o atirador de extrema direita que assassinou 23 pessoas em um Walmart de El Paso em 2019 postou um manifesto online declarando: “Se pudermos nos livrar de uma quantidade de pessoas, nosso modo de vida pode se tornar mais sustentável”. Na França, o partido de Marine Le Pen faz campanha sobre o que Walia chama de


”’localismo’ ecológico, no qual os imigrantes são comparados a espécies invasoras estrangeiras, e apresenta argumentos como ‘As fronteiras são o maior aliado do meio ambiente; é através deles que salvaremos o planeta.’”

Dadas as realidades que Walia descreve com tanta força, vale a pena perguntar se existem maneiras de defender fronteiras mais porosas, e aqui o livro de Vince pode ser útil. De certa forma, ela é totalmente irrealista – eu acho que há poucas perspectivas de construirmos vastas cidades modernas na tundra siberiana ou no permafrost canadense para abrigar os imigrantes que chegam – mas ela compartilha o ceticismo de Walia sobre a utilidade das fronteiras. (Na verdade, ela conta uma história fascinante da mobilidade humana, que em grande medida não foi interrompida pelos controles de imigração, até a invenção do Estado-Nação moderno.)

E ela ressalta que os países ricos do mundo estão realmente começando a sentir outra pressão, não tão brutal quanto as crises climáticas que afetam o Sul Global, mas bastante real: por causa da queda das taxas de natalidade, essas sociedades estão envelhecendo rapidamente. (um dado preocupante: no Japão, as fraldas para adultos agora vendem mais do que as fraldas para bebês.) Enquanto isso, “muitos dos países afetados pelo estresse climático e outras pressões, como regimes repressivos, têm um grande número de jovens desempregados vivendo na pobreza, o que desencadeia conflitos. A criação de vias migratórias seguras para “despovoar” países “ajudaria essas pessoas a ter uma vida produtiva”, e também ajudaria as nações a que elas chegam a manter a proporção de jovens para idosos em certo equilíbrio. Quando a Alemanha, por exemplo, aceitou um milhão de refugiados sírios, esta “resposta generosa à crise humanitária” foi também uma “decisão econômica esperta”:

O país precisava preencher a escassez de mão de obra, em parte resultante do esgotamento de sua população migrante turca, parte da qual retornara à sua terra natal durante um boom econômico. A Suécia também aproveitou a oportunidade para reviver suas cidadezinhas despovoadas, incluindo a reabertura de escolas e times de futebol. O maior medo que a Suécia enfrenta são os imigrantes que saem e retornam à Síria.

Walia odeia esses projetos: ela diz que programas como o alemão, que Angela Merkel vendeu sob o slogan Wir schaffen das (Nós vamos administrar), são “centros de benevolência humanitária nos quais os europeus se materializam como salvadores, enquanto os refugiados são sobrecarregados com a expectativa de serem gratos”; e que a “cultura liberal de boas-vindas” apaga “a cumplicidade europeia na criação desse deslocamento através da conquista colonial, do roubo de terras, da escravidão, da extração capitalista, da exploração do trabalho e do lucro da guerra”.

A imigração deve ser entendida para além da reparação, diz Walia – e, dado o poder de seu relato histórico de opressão, acho que ela está certa quanto ao mérito. Mas eu tenho dificuldade em ver a política mudando nessa direção, o que me deixa num dilema sobre o que fazer. Por exemplo, faço parte de um conselho consultivo do Serviço Luterano de Imigração e Refugiados, talvez a principal voz do país para o reassentamento de refugiados, e estou admirado com o trabalho notável realizado por sua equipe quando luta para obter vistos de entrada para pessoas de todo o mundo e, em seguida, reassentá-las de forma eficaz. Mas esse trabalho é tão dolorosamente pequeno em escala que parece muito com os anos em que eu estava montando um abrigo para sem-teto no porão da minha igreja. Cuidar de dez homens por noite era importante para eles mas, como outros empreendimentos beneficentes ad hoc, também pode ter aliviado um pouco da pressão por mudanças sistêmicas necessárias.

Temo muito que essa tensão entre soluções liberais e radicais para a migração simplesmente seja atropelada nos próximos anos. Se os modelos climáticos estiverem próximos do correto, um ou três bilhões de seres humanos lutando para se afastar do calor, da seca e das cidades inundadas farão sua própria realidade geopolítica. Limitar o aquecimento do planeta – construir painéis solares e turbinas eólicas o mais rápido que pudermos – reduzirá um pouco a escala da reviravolta, mas não a impedirá. Nossa capacidade de lidar com um planeta em movimento de alguma forma humana determinará o caráter do próximo século. Pensar nas possibilidades agora, enquanto os números ainda são relativamente pequenos, e dar os maiores passos políticos que conseguirmos para abrir nossas sociedades a pessoas que precisam migrar é a nossa melhor chance de justiça e paz. O mundo deve se adaptar ou não daremos conta.

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