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“Sou pacífico, não pacifista. Mas sobre a Ucrânia digo que chegou a hora de encontrar um compromisso”. Entrevista com Edgar Morin

Do IHU, 15 Agosto 2022
A entrevista com Edgar Morin é de Roberto Della Seta, publicada por Corriere della Sera, 14-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.



Edgar Morin, filósofo da complexidade e um dos intelectuais europeus - francês de nascimento, com de ascendências grega, judaica e italiana - mais influentes e politicamente comprometidos do século passado e do presente, conclui assim meia hora de conversa via zoom sobre o pacifismo de ontem e de hoje. 101 anos completados dias atrás que deixaram intacta sua clareza de pensamento, palavra, olhar, Morin responde das Ilhas Canárias, onde passa o verão.

Para ele, ressalta, nenhuma comparação é possível entre a ideia pacifista enraizada na Europa da sua juventude, uma espécie de "religião civil" em particular para a esquerda que sempre foi o seu campo, e o que acontece hoje na Ucrânia. O pacifismo de então brotava da tragédia da Primeira Guerra Mundial, que semeou sobretudo na esquerda a convicção profunda e absoluta de que outra carnificina como aquela deveria ser evitada a qualquer preço. Muitos intelectuais eram pacifistas, pacifistas "integrais". Foi o antifascismo que colocou o pacifismo em crise.

Lembro-me na França do caso de um grupo importante, o Comité de vigilance des intellectuels antifascistes: era dirigido por pacifistas e permaneceu pacifista até a guerra, muitos antifascistas o abandonaram ao longo dos anos. Tudo começou a mudar a partir de 1933 com a chegada de Hitler ao poder: a remilitarização da Renânia e depois a guerra espanhola enfraqueceram muito as posições pacifistas.

Mas, até à guerra, vários intelectuais e até políticos de esquerda permaneceram pacifistas "integrais". Na França alguns deles acabaram colaborando com o regime de Vichy, aceitando a perspectiva de uma dominação nazista sobre toda a Europa, outros como Jean Giono continuaram a testemunhar seu pacifismo absoluto sem nunca se dobrar a um acordo com os nazistas”.

Morin continua: Quando eu era adolescente também me sentia pacifista, acreditava que tudo deveria ser feito para evitar a guerra. Depois, em 1941, eu tinha vinte anos, quando houve o ataque alemão à União Soviética, entrei na Resistência. Não vejo nenhuma ligação entre aqueles eventos e a situação atual da Ucrânia e, quanto a mim, não me sinto mais pacifista, mas rejeito o belicismo e cultivo a esperança de uma paz de compromisso em termos objetivamente possíveis. Não há um verdadeiro movimento pacifista.

Existem, sim, "partidários" de uma paz entre a Rússia e a Ucrânia, mas são vozes dispersas e quase silenciadas pelo fato de a mídia ter moldado na opinião pública um sentimento de total solidariedade com a Ucrânia, de demonização da Rússia. Mesmo com razão, porque Putin é um ditador e a invasão russa traz lutos e destruições. No entanto, penso que temos de parar com os massacres dos ucranianos tanto como impedir o alargamento desta guerra que já é uma guerra internacional, embora travada dentro das fronteiras da Ucrânia.

É como se fossem duas guerras em uma: aquela resistência da Ucrânia defendendo sua soberania, e um conflito muito maior entre a Rússia e os Estados Unidos. Também acho que esta guerra traz à tona o pior de ambos os campos: fortalece tanto o caráter despótico do regime de Putin quanto o ultranacionalismo de uma parte dos ucranianos, penso na proibição da literatura e da música russas. Em suma, quanto mais a guerra durar, mais desastres ela causará.

E a Europa?

A Europa faz bem em apoiar a resistência ucraniana, em apoiá-la financeiramente e até militarmente. Mas deveria ao mesmo tempo empenhar-se em uma ação de mediação, não pode deixar esse papel para a Turquia liderada por um regime que não é realmente recomendável.

É necessária uma paz de compromisso: uma que garanta a independência e a neutralidade da Ucrânia e permita a sua integração na União Europeia, e que preveja um estatuto autônomo, estabelecido por referendo, para as províncias de maioria russófona do Donbass que foram ‘russificadas’ na época da industrialização da URSS.

As condições objetivas para tal compromisso existiriam, falta a vontade subjetiva de buscá-las, assim como faltou, também do lado europeu, a capacidade de ver já depois da rebelião pró-Rússia de 2014 no Donbass - escrevi sobre isso na época – que estava estourando um grande problema.

Para você, essas são as condições para uma "paz justa". Mas pode existir uma "guerra justa"?

Penso na guerra da Bósnia de mais de vinte anos atrás, com a Sérvia e também a Croácia buscando projetos de limpeza étnica. Eu não era na época antisérvio como não sou hoje antirrusso, sempre tive respeito e simpatia pelo povo sérvio, mas era correto intervir militarmente contra a Sérvia em defesa dos muçulmanos da Bósnia e da ideia de um Bósnia multiétnica. Fui a Sarajevo durante o cerco sérvio, a guerra na Bósnia me abalou profundamente. Então sim, penso que possa existir uma guerra justa, mas sem jamais esquecer que qualquer guerra traz injustiça.


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