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Soberania revolucionária

Do A Terra É Redonda, 29 de Agosto 2022
Por BERNARDO JOÃO DO REGO MONTEIRO MOREIRA*



Colin Lanceley, Popiel, 1972

A operação de limpeza é promovida pela ordem simbólica capitalista e estatal em nome da defesa da Vida

A filosofia política e a psicanálise tensionam uma relação fundamental para pensar a forma como nos relacionamos com uma das oposições estruturantes de nossa experiência subjetiva e coletiva: a constituição de um espaço interior e um espaço exterior, um dentro e um fora. Para além de uma simples analogia dessa oposição, como seria algo como a oposição entre nacionais e estrangeiros ou familiares e estranhos, buscarei expor algumas das dinâmicas que ilustram a oposição que parece orientar uma série de questões inerentes ao debate político, filosófico, estético e clínico. Sendo ela compreendida como uma contradição ou uma relação diferencial, interior e exterior e/ou dentro e fora instalam diversas dinâmicas de identidade, pertencimento, diferença, afastamento e eliminação. Tentaremos compreender o porquê pela circunscrição da problemática desses opostos.

De início, partiremos já de um desvio: explicitar o porquê da privada ser objeto deste título. Acionarei algumas falas de Slavoj Žižek no documentário The Pervert’s Guide to Cinema (Sophie Fiennes, 2006) sobre o filme The Conversation (Francis Ford Coppola, 1974), falando de uma privada: “Em nossa experiência mais elementar, quando nós damos descarga na privada, excrementos simplesmente desaparecem de nossa realidade, para outro espaço, que nós percebemos fenomenologicamente como um tipo de mundo subterrâneo. Uma outra realidade, realidade caótica e primordial. E o maior dos horrores, claro, seria se a descarga não funcionasse, se objetos retornassem: se restos, restos de excrementos, retornassem dessa dimensão.”[i]

O exemplo de Žižek ilustra uma relação interessante que se constitui no modelo da privada: esta é justamente a passagem entre o espaço interior, limpo e organizado, e o mundo subterrâneo, o exterior caótico. Neste modelo, a privada, que funciona como uma das portas de saída dos excessos indesejáveis dos humanos na casa, é o ponto de contato entre esse interior da casa e o exterior. O horror a que Žižek se refere é a situação onde o fluxo que elimina os excessos indesejáveis (os excrementos humanos) fosse interrompido, ou pior, fosse invertida a univocidade de seu sentido: o dentro para fora tornado fora para dentro. Expulsão e eliminação tornam-se invasão e contágio. Tal é o paradigma da limpeza e da higiene: o espaço limpo e organizado da casa deve ser mantido puro, às custas da constante expulsão e eliminação de objetos sujos, impuros, caóticos e desorganizadores.

A arquitetura da casa responde a essa necessidade, como analisa Nick Land (2019): “Os andares de uma casa se prestam à estratificação social e, portanto, à metáfora filosófica e teológica; o porão representando o lugar dos servos, a animalidade, o inconsciente. O que é reprimido neste caso não é o porão em si — o inferno não é reprimido, mas exibido —, mas as paredes ocas, o cano do lado de fora, o sistema arterial de tubos, dutos e chaminés, tudo o que facilita a corrupção do espaço verticalmente articulado pela quase-horizontalidade de uma dimensão insidiosa.”[ii]

A repressão desse sistema arterial de tubos, dutos e chaminés se dá precisamente por estes serem construídos como as pequenas saídas da casa, os pontos de escoamento de objetos e fluxos que devem ser expulsos do interior da casa, mas que por esse mesmo caráter permitem a entrada de objetos e fluxos vindos de fora, invasores exteriores. Se Žižek está pensando em algo que é eliminado de dentro para fora mas que pode retornar por uma obstrução do fluxo normal do sistema, Land está em busca de um personagem que é um dos signos do invasor parasitário e contagioso, do fluxo de fora que traz a impureza e sujeira da exterioridade: os ratos.

Em uma estranha genealogia, Land (2019) aciona escritos historiográficos sobre os ratos e a história das pestes, para analisar como os ratos pretos, que habitavam os espaços domésticos e navais, formaram uma população na Europa durante a Antiguidade e a Idade Média e disseminaram uma série de pragas por sua transmissibilidade parasitária. Entretanto, a higiene pública não era amplamente disseminada, sendo este tipo de rato praticamente invisível aos cuidados regulares de limpeza para a maior parte da população. Já o segundo tipo de rato, o rato marrom vindo da Ásia, formou uma população do século XVIII até hoje ao habitar os encanamentos de esgoto das cidades industriais, eliminando boa parte das populações de ratos pretos.

Tal declínio na população de ratos pretos ocorreu principalmente pelo controle crescente de roedores e pelos projetos de saneamento e higiene pública nas grandes cidades do século XIX e XX, sendo os ratos marrons os sobreviventes por sua maior agilidade e versatilidade para viver nos encanamentos dos esgotos. Com isso, o Estado passou a organizar não apenas o saneamento básico e higiene dos espaços públicos, mas também a intervir na organização do espaço interior da casa. O Estado domina a casa pelo ralo.

Žižek fala em um retorno daquilo que é expulso e Land nas tentativas de controle das invasões de fora, e assim ambos circundam o mesmo problema: o que regula as relações entre dentro e fora? Ou melhor, como é produzida a oposição entre o interior e o exterior? Por que o interior é codificado como o espaço de organização, limpeza e pureza contra um exterior de caos, sujeira e impureza? Quais os elementos que qualificam algo como puro ou impuro?

Ambos nos oferecem modelos para propor que o espaço interior, o lado de dentro, só é codificado como tal espaço de organização, pureza e limpeza por um processo de repressão dos elementos marcados como impuros, sujos e caóticos. Tal processo de repressão, por outro lado, aponta para esse fora, indica o seu não-recobrimento e seu estatuto de constante ameaça. A repressão dos fluxos caóticos é o que oculta como a própria atividade organizadora depende disso que irrompe contra o espaço interior para manter sua necessidade.

Passando do modelo da privada para uma discussão mais geral da limpeza, Žižek demonstra um paralelo entre The Conversation e Psycho (Hitchcock, 1960) para expor o caráter elementar do trabalho de limpeza como atividade organizadora do espaço interior, contra o espaço exterior: “Eu penso que isso nos diz muita coisa sobre a satisfação do trabalho, de um serviço bem feito, que não é tanto construir algo novo, mas talvez o trabalho humano, em sua forma mais elementar, trabalho como seria em seu nível zero, é o trabalho de limpar os rastros de uma mancha. O trabalho de apagar uma mancha, afastar esse mundo subterrâneo caótico, que ameaça explodir e nos devorar a todo momento.”[iii]

A mancha ou a sujeira torna-se então o elemento que marca a necessidade emergencial do trabalho de limpeza, a eliminação das impurezas no espaço interior. Aqui podemos introduzir como os modelos de Žižek e Land são fortemente inseridos na discussão psicanalítica de Sigmund Freud, Jacques Lacan e até Gilles Deleuze e Félix Guattari: o espaço interior é o dentro organizado, limpo e puro, onde há uma completude de sentido que fecha uma totalidade — uma ordem simbólica; o exterior ou o fora são marcados como o caos, a sujeira e a impureza por sua capacidade de furar tal ordem simbólica, de desorganizar a totalidade — o Real. O Real fura a ordem simbólica, impede sua completude; ao mesmo tempo, é aquilo do qual a ordem simbólica necessita para construir suas estruturas que constantemente buscam encobrir, reprimir e ocultar esse fluxo caótico. A limpeza é então a tarefa que a ordem simbólica empreende para eliminar e expulsar aquilo que a desorganiza, justificando-se a si própria como atividade por essa ameaça constante de invasão.

Emerge aqui uma problemática oportunamente exposta por Alain Badiou (2017): como a ordem simbólica, que estrutura-se atualmente como o capitalismo imperial contemporâneo, busca construir sua completude de sentido e sua totalidade como o todo da realidade, e aquilo que desorganiza tal realidade — “a onipresença da corrupção”[iv] que é o modo de produção capitalista — é codificado como exceção à realidade, apresentado como escândalo.

A exceção escandalosa tem então duas funções: o ocultamento desse Real que permeia e fura toda a ordem simbólica e impede sua completude, assim como a legitimação de uma repressão mais brutal contra essa ameaça singularizada. O delírio paranoico da pureza e da limpeza que está em jogo na privada de Žižek e nos ratos de Land alcança aqui uma projeção política fundamental: quem são os selecionados pela ordem simbólica como os impuros, sujos e propensos ao caos?

Como essa ordem simbólica do capitalismo imperial contemporâneo e do Estado moderno codifica suas ameaças e mobiliza seus escândalos para legitimar os expurgos, expulsões e repressões sistematicamente empregadas para garantir seu funcionamento, o castigo em nome da limpeza? E mais importante para mim: como superar o modelo do escândalo e da paranoia da pureza que são consequências diretas da oposição dentro e fora como estruturantes de nossa experiência?

Rodrigo Guéron (2020), também partindo da discussão psicanalítica e político-filosófica, problematiza um mero re-ordenamento da ordem simbólica ou um paradigma de simples inclusão daqueles à margem, argumentando que tal operação é da própria natureza do Estado: “Todo tipo de operação de castigo deve, em primeiro lugar, introjetar a lei das leis, trata-se de sobrecodificar a dívida das dívidas, isto é, a dívida transcendente e infinita para com o Estado ao qual devemos a nossa vida. O que deve ser eliminado é tudo o que parece atrapalhar a designação de sentido clara e apolínea deste significante: qualquer força estranha à relação perfeita (…) há mesmo todo um aparato de significantes para designar estas forças, tal como os crimes previstos em lei num impressionante esforço dos códigos de enquadrar tudo que ameaça a máquina social, determinando claramente um espaço de interioridade e de exterioridade.”[v]

A operação de limpeza é promovida pela ordem simbólica capitalista e estatal em nome da defesa da Vida. O Estado que entra pelo ralo nas descrições sobre os ratos de Land é o mesmo Estado que marca racialmente a pureza e a impureza da população, aqueles que devem viver e ou que devem ser eliminados por serem ameaça biológica à pureza racial, como exposto por Michel Foucault (1999) ao falar do racismo de Estado. Os ratos de Land tem uma proximidade ainda maior com o modelo da privada de Žižek e a discussão sobre o racismo de Estado em Foucault, ao fazer referência a um caso analisado por Freud e batizado de O homem dos ratos, por envolver um delírio com um método de tortura onde o torturado é violado analmente por ratos: “A imagem de violação anal que organiza o delírio dos ratos (…) não indica uma ambivalência edipiana, mas a misoginia racista que projeta todos os fluxos não-domesticados em um axioma de expulsabilidade”.[vi] Está em jogo aqui um modelo onde os elementos de fora que devem ser expulsos invertem o sentido e invadem o espaço de dentro.

A guerra de raças no Estado moderno em prol da pureza biológica da população, o escândalo de corrupção que emerge como uma exceção à regra, os ratos que habitam os encanamentos e invadem a casa (ou o ânus), a descarga da privada que não funciona e faz retornar os excrementos: o que todos esses modelos têm em comum? Os dois primeiros são exemplos do processo de constituição de um espaço interior legitimado pela construção de uma ameaça exterior a ser eliminada para a manutenção da suposta pureza do lado de dentro. Os dois últimos são a contrapartida de tal processo: esses retornos do Real que desorganizam a ordem simbólica e permitem uma mudança radical dessa ordem. Mas como fazer com que os retornos do Real não sejam des-potencializados, reprimidos em seu caráter subversivo, assimilados pela ordem simbólica e tornados parâmetros para uma nova oposição dentro e fora?

Hal Foster (2017), em um argumento similar à oposição de Badiou entre a realidade apresentada como escandalosa e o Real, opõe a realidade como efeito da representação ao real como traumático, fazendo referência ao trou-mático de Lacan, onde o real é o buraco (trou) na ordem simbólica. O real como traumático está relacionado ao artifício da abjeção, que Foster apresenta em um diálogo com Julia Kristeva. Este artifício se articula em dois polos: “… a operação de abjetar e a condição de ser abjeto. Abjetar (…) é expulsar, separar; ser abjeto, por outro lado, é ser repulsivo, emperrado, sujeito só o suficiente para sentir essa condição de ser sujeito em risco. Para Kristeva, a operação de abjetar é fundamental para a manutenção tanto do sujeito como da sociedade, enquanto a condição de ser abjeto é corrosiva das duas formações. Seria o abjeto, então, destruidor ou, de alguma forma, fundador das ordens subjetivas e sociais; seria uma crise ou, de alguma forma, uma confirmação dessas ordens? Se um sujeito ou uma sociedade abjetam o estranho em seu próprio interior, a abjeção não seria uma operação reguladora? (…) Ou será que a condição de abjeção pode ser mimetizada de modo a invocar, para perturbá-la, a operação da abjeção?”[vii]

Apesar de Foster identificar problemas nas estratégias que exploram o trauma e a abjeção, enuncia-se algo fundamental para a ruptura com a oposição dentro/fora: a mesma operação que confirma a ordem simbólica é aquela que atesta sua crise, enquanto o mesmo abjeto que indica a incompletude da ordem ao furá-la é aquele que é instrumentalizado para torná-la mais resistente. Para entupir a privada e fazer o real retornar, para romper com a ordem simbólica sem possibilidade de ser assimilado, está em jogo algo como o que Žižek encontra em Maximilien Robespierre: “A ‘divina violência’ (…) como o heróico ato de assumir a solidão de uma decisão soberana. É uma decisão (…) não coberta pelo grande Outro.”[viii] Soberania revolucionária: explodir a parede que separa a ordem do interior e o caos do exterior, deixar as ruínas como móveis de um espaço que não é mais uma casa.

*Bernardo João do Rego Monteiro Moreira é graduando em ciência política na Universidade Federal Fluminense (UFF).



Referências

BADIOU, Alain. Em busca do real perdido. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

FOSTER, Hal. O retorno do real. São Paulo: Ubu Editora, 2017.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.

GUÉRON, Rodrigo. Capitalismo, Desejo & Política: Deleuze e Guattari leem Marx: Rio de Janeiro: Nau Editora, 2020.

LAND, Nick. Fanged Noumena: Collected Writings 1987-2007. Falmouth/New York: Urbanomic/Sequence Press, 2019.

THE PERVERT’S GUIDE TO CINEMA. Direção: Sophie Fiennes. Reino Unido, Áustria e Países Baixos: Mischief Films & Amoeba Film, 2006.

ŽIŽEK, Slavoj. “Robespierre, ou a ‘divina violência’ do terror”. In: ROBESPIERRE, Maximilien. Virtude e Terror. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008.



Notas

[i] No original: “In our most elementary [sic] experience, when we flush the toilet, excrements simply disappear out of our reality, into another space, which we phenomenologically perceive as a kind of a netherworld. Another reality, chaotic, primordial reality. And the ultimate horror, or- [sic] of course, if the flushing doesn’t work, if objects return, if remainders, excremental remainders return from that dimension.” (Tradução minha).

[ii] (LAND, 2019, p. 191. Tradução minha).

[iii] No original: “I think this tells us a lot about the satisfaction of work, of a job well done, which is not so much to build something new, but maybe human work, at its most elementary [sic], work as it were at the zero level, is the work of cleaning the traces of a stain. The work of erasing a stain, keeping away this chaotic netherworld, which threatens to explode any time and engulf us.” (Tradução minha).

[iv] (Badiou, 2017, p. 18).

[v] (Guéron, 2020, p. 330).

[vi] (Land, 2019, p. 200. Tradução minha).

[vii] (Foster, 2017, p. 148).

[viii] (Žižek, 2008, p. 11-12).

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