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Revolução sexual, projeto feminista

Emergem discursos para os quais a quebra dos velhos padrões morais foi feita para os homens, pois as mulheres “têm sexualidade diferente”, e “querem afeto, não apenas sexo”. Proponho, ao contrário, que voltemos a falar de prazer e liberdade


De OUTRASPALAVRAS, 5 de Julho 2022
Por Nuria Alabao | Tradução: Antonio Martins | Imagem: Egon Schielle


Parece absurdo agradecer àquelas que vieram antes, aquelas que lutaram por nós. Parece quase ridículo apelar para a defesa da revolução sexual no mundo hipersexualizado de hoje. Entretanto, muitos discursos públicos transpiram de novo um certo puritanismo, e a maioria deles vem do próprio feminismo. Discursos que dizem que a revolução sexual foi feita “para os homens”, que contribuem para fixar a sexualidade feminina a uma certa normatividade – “as mulheres têm uma sexualidade diferente”, “queremos afeto, não apenas sexo” ou que afirmam que “não gostamos de pornografia”. Não duvido que a socialização de homens e mulheres ainda seja diferente, mas as formas de vivenciar a sexualidade estão se tornando mais plurais e mais livres. E isso tem sido graças àquelas que se organizaram e mudaram a cultura e nossos costumes para sempre. Talvez tenhamos que olhar para trás e reconhecer tudo o que ganhamos, embora certamente possamos refletir sobre o que ainda temos que conquistar. Por que a liberdade sexual é tão assustadora? Por que parece que estamos voltando a uma atmosfera reacionária sobre estas questões?

Às vezes, para saber o quanto avançamos, precisamos olhar para trás. Minha mãe, nascida nos anos 1950, casada para escapar do controle da família. Especificamente a de sua mãe, minha avó Pepa, uma feroz defensora da moral tradicional que a mantinha em rédea curta, com regras rígidas sobre quando sair e quando entrar — a noite era território proibido — e o que era possível fazer. Só os homens… é melhor não. É verdade que naquela época já existiam outros modelos, mas não tantos no lugar e na classe social que ela habitava.

Minha avó não era uma pessoa má, ela simplesmente cresceu em um ambiente onde dançar era errado, onde estar com homens era considerado um perigo. Ela reproduziu isso em sua criação. Não era uma controladora obsessiva ou patológica, tinha simplesmente aprendido, ao custo de sua própria felicidade, que o desvio da norma moral tinha um preço alto que podia ser pago por toda a vida. Como ela fez. Quando era muito jovem, ficou grávida e foi obrigada a se casar com um homem que não amava, que logo a deixaria com dois filhos pequenos após um relacionamento triste e violento. Foi sua experiência de vida, o perigo sempre sussurrado do que poderia acontecer às “perdidas”, que deu a ela e às mulheres de sua geração o mandato de impor uma moralidade sexual patriarcal.

Minha mãe casou-se cedo porque queria fugir de tudo isso. Queria decidir por si mesma algo tão básico como quando entrar e sair de casa. É verdade que poderia ter dado errado, digamos, se o marido tivesse sido o substituto do controle materno. Até 1975, na Espanha, o casamento implicava uma restrição das liberdades da mulher, incluindo a institucionalização do estupro, que não era reconhecido por causa da figura da “dívida conjugal”, a obrigação de estar disponível para o marido que existia até 1992. Em todo caso, minha mãe diz que era feliz, mas também que nunca esteve com mais ninguém enquanto meu pai estava vivo. Ou seja, até os 68 anos, suas expectativas e possibilidades de experimentação eram muito limitadas por seu ambiente e sua educação.

Foi a geração da minha mãe que fez a revolução sexual neste país. Talvez ela não fosse a vanguarda de nenhum movimento contracultural, mas tenho que agradecê-la por se assumir rapidamente como parte de uma sociedade que tinha mudado, e minha educação e a liberdade que eu desfrutava eram totalmente diferentes (embora eu ainda me lembre de uma guerra geracional e minha avó me diga que só as prostitutas voltaram para casa tão tarde quanto eu). Em qualquer caso, aquelas de nós que vieram mais tarde tiveram mais facilidade para desfrutar do sexo e mais liberdade para fazê-lo – tanto simbólica quanto de espaço real. Com todos os discursos contraditórios que poderiam ser proferidos — de novo a “prostituta”, se você sair com muitos meninos, etc. –, a estrada estava menos pavimentada.

Outro aspecto deste mundo de possibilidades que se abriu foi que eu também pude me apaixonar e ter relacionamentos com mulheres, algo que minha mãe mal ousava imaginar quando eu era jovem. Isto está se tornando cada vez mais comum. Basta falar com as crianças mais novas para ter uma ideia de como elas vivem esta questão mais normalmente do que as gerações anteriores. Na Espanha não há pesquisas, mas nos EUA quase 21% da Geração Z – nascidos entre 1997 e 2003 – se identificam como LGTBI. Este é um número enorme e muito maior do que em anos anteriores. Parece haver também uma maior diversidade nas formas em que essas preferências sexuais não-normativas são vivenciadas. Não apenas homossexual ou bissexual: fala-se agora de pansexualidade — atração sexual por outras pessoas independentemente de seu sexo ou identidade de gênero, ou seja, também por pessoas trans ou não-binárias. O Queer também explodiu muitas dessas categorias etiquetas, abrindo novos caminhos. Falar com muitos jovens sobre estas questões hoje significa aprender coisas novas (também abre novos conflitos, tais como os debates que estamos vivenciando sobre crianças trans, paradoxalmente agora que está se normalizando e mais crianças estão se declarando como tal).

De qualquer forma, sinto que continuo afirmando truísmos, mas quando leio que “a revolução sexual foi feita para os homens”, me pergunto que tipo de mundo essas pessoas que a enunciam habitam. Elas não se lembram de onde viemos? Se não se lembram do radicalismo do movimento feminista dos anos 70, quando tínhamos tudo a conquistar e o discurso era o da “libertação” – reproduzindo a linguagem das lutas anticoloniais e dos direitos civis. Libertação que era também da família, do desejo e, claro, sexual, e que deu forma a um novo mundo. Um mundo que descobriu que uma parte importante da opressão feminina era contida ou mediada pela sexualidade, mas que não a desenhava apenas como um lugar de opressão, mas como um espaço que tinha que ser nosso. Essas lutas, além disso, tomaram uma forma muito concreta na Espanha, movendo-se por direitos que ainda não tínhamos — contra o crime de adultério, para poder fazer um aborto ou para decidir quando ser mães. A exigência de liberdade sexual sempre teve uma contrapartida na luta contra a violência, mas nunca foi só isso.

Naqueles anos também surgiram a críticas contra o sexo que só se concentrava na penetração, falou-se de orgasmo clitoriano e prazer, prazer em letras maiúsculas. As fantasias sexuais foram discutidas, e se elas tinham que ser de um certo tipo ou não para serem feministas, ou mesmo se o sadomasoquismo era uma prática “aceitável”. Coisas que agora nos parecem óbvias, mas que em algum momento tiveram que ser nomeadas para torná-las nossas, que expandiram mundos e possibilidades. O feminismo mais libertador não é aquele que estabelece normas ou regras ou diz quem pode ou não pode participar, ou qual sexualidade ou qual pornografia é legítima, mas aquele que abre novas possibilidades e liberdades para todas.

Hoje, o ultra ataque, a contra-ofensiva sexual da direita ainda é uma reação às lutas dos anos 1970 e suas consequências. Especialmente aquelas que exigiam a separação entre sexo e reprodução – algo situado no coração de todo projeto conservador. Volto aos truísmos, mas tudo isso foi a revolução sexual. Foi feita para os homens? Algumas ainda dizem que sim, e que a promiscuidade que agora foi normalizada é uma vitória para eles. Embora não possamos equiparar promiscuidade e libertação sexual, pelo menos descobrimos que ela pode ser uma opção para muitas mulheres, se quisermos, uma opção entre outras, não o território deles. Obrigada às que vieram antes de nós, por terem aberto essa porta também para mim.

Neoliberalismo sexual

Outras críticas enfocam a comercialização do sexo, ou apontam para a sexualização do corpo feminino em representações hegemônicas. Culpam o neoliberalismo por tudo isso, uma espécie de “fizemos a revolução sexual e agora eles estão nos vendendo sexo”, como se não soubéssemos que toda conquista é suscetível de se tornar mercadoria. Habitamos estes paradoxos no mundo que produz valor a partir de sinais e experiências, mas também sabemos que esta comercialização é alimentada por “jazidas de autenticidade”. Alguém tem de passar pela experiência, de forma real em algum lugar, para que ela seja vendida — e o fato de ela produzir valor para outra pessoa não a invalida.

Mas fala-se menos de outro aspecto do neoliberalismo. Ele também serviu para instalar a ideia de que qualquer problema social ou cultural pode ser resolvido recorrendo a mais código penal, a mais prisões ou multas, ao Estado punitivo. Hoje existe um forte conflito entre dois feminismos. Para um deles, as punições devem ser a principal forma de garantir a liberdade sexual das mulheres diante das agressões. Para outro, precisamos ir mais longe, porque a maioria das agressões não chega aos tribunais e porque nem todos temos acesso igual à justiça — classe, papéis e raça são limites claros. O feminismo punitivo é precisamente um tipo de feminismo que promove e multiplica narrativas de “terror sexual” que são prejudiciais à nossa própria liberdade e que muitas vezes coincidem com posições que querem proibir e punir a pornografia ou a prostituição como se fossem a origem da violência contra as mulheres.

Gayle Rubin disse que já nos anos 80 muita da literatura feminista atribuía a opressão das mulheres a representações gráficas de sexo, prostituição ou mesmo transexualidade. “O que aconteceu com a família, a religião, a educação, os métodos de criação de filhos, a mídia, o Estado, a psiquiatria, a discriminação no emprego e no salário? Em vez de visar o sistema, de apontar questões estruturais, trata-se de proibir as coisas de que não gostamos. Como expliquei em outro artigo, o ultraje moral funciona bem como um ativador político,. Colocamos nossos medos em algum lugar, criamos bodes expiatórios. Estas formas “comunicativas” de política são mais fáceis do que organizar e gerar suas próprias alternativas que não envolvem a exigência de proteção estatal. O que precisamos, diz Raquel Osborne, “são mulheres fortes, autônomas e engenhosas para evitar o que as está prejudicando e para lutar para mudá-lo”. Na era do #MeToo, a representação da sexualidade como um espaço de perigo volta a nos assombrar, mas hoje, como ontem, existe um feminismo que também a imagina como um lugar próprio, também de resistência. A revolução sexual é nossa vitória.

Portanto, obrigada, irmãs, pelas possibilidades de desfrutar da sexualidade, por a terem dessacralizado. Hoje em dia, na mídia, a violência sexual é relatada de tal forma às vezes tão alarmista que o sexo tende a ser percebido como um terreno hostil. Vamos voltar a falar de prazer e liberdade. Recuperemos o sussurro do passado, onde nossas práticas sexuais, nas palavras de bell hooks, “podem optar pela promiscuidade ou castidade; por abraçar uma identidade e preferência sexual específica, ou por escolher um desejo móvel, não encastelado, que é despertado apenas pela interação e engajamento com determinadas pessoas com as quais sentimos a centelha do reconhecimento erótico, independentemente do gênero, raça, classe ou mesmo preferência sexual”.

Os debates feministas radicais sobre sexualidade devem ser trazidos à tona, para que o movimento de libertação sexual possa recomeçar.



NURIA ALABAO
É jornalista e doutora em Antropologia. É membro da Fundación de los Comunes.

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