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Morreu Tanaru, o último homem de seu povo. Um mundo se extinguiu

Do IHu, 29 Agosto 2022
Por Laura Capriglione, publicado por Jornalistas Livres, 28-08-2022.




Indígena “Índio Tanaru” ou “Índio do Buraco” como era conhecido e que vivia sozinho e isolado há quase 30 anos em Rondônia é encontrado morto pela Funai.

“A morte de um único homem me diminui, porque Eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.” (John Donne)


Morreu o indígena conhecido como “Índio Tanaru” ou “Índio do Buraco”, que vivia sozinho e isolado há quase 30 anos em Rondônia, depois que seu povo foi inteiramente dizimado por matadores a serviço de madeireiros, em 1995. Desde então, ele viveu em absoluta solidão, recusando-se a manter qualquer contato com a sociedade que massacrou seus parentes. Tanaru pertencia a uma etnia desconhecida e era monitorado desde 1996 pela Funai, que inclusive chegou a fotografá-lo e filmá-lo à distância, em 2018. O órgão indigenista encontrou o corpo de Tanaru na última terça-feira (23). Mas a morte só foi confirmada neste sábado (27).



Segundo a Funai, “o corpo do indígena foi encontrado dentro da sua rede de dormir em sua palhoça localizada na Terra Indígena Tanaru”. Não havia sinais de violência ou de luta, o que sugere que Tanaru tenha morrido de causas naturais, mas exames mais detalhados sobre a causa mortis estão sendo analisados pelo Instituto Nacional de Criminalística de Brasília.

“Os pertences, utensílios e objetos utilizados costumeiramente pelo indígena permaneciam em seus devidos lugares. No interior da palhoça havia dois locais de fogo próximos da sua rede. Seguindo a numeração da lista de habitações do Índio Tanaru registradas pela Funai ao longo de 26 anos, essa palhoça é a de número 53, seguindo o mesmo padrão arquitetônico das demais, com uma única porta de entrada/saída e sempre com um buraco no interior da casa.” (Nota da Funai)

A presença desses buracos dentro das casas construídas por Tanaru com cascas de madeira, palmeiras e troncos, coberta com palha do chão ao teto, deram-lhe o apelido de “índio do buraco”. As motivações de Tanaru para escavar esses buracos não são conhecidas, mas suspeita-se que tivessem funções religiosas. Agora, com a morte desse último remanescente, nunca se saberá ao certo. Um mundo se extinguiu.

Ivaneide Bandeira, ambientalista e fundadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, lamentou a morte de Tanaru e, principalmente, a extinção de mais uma etnia indígena no país. Algo que, segundo ela, não acontecia há anos.

Txai Suruí, fundadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, escreveu em suas redes sociais: “Conhecido por sua solidão, resistiu até seus últimos dias ao contato com não-indígenas depois de tantos traumas e violências. Seu território deve continuar representando a resistência e deve ser preservado e cuidado, tornando-se uma área de conservação”.

O Brasil tinha algo como 3,5 milhões de indígenas à época da conquista portuguesa, no século 16. O Censo IBGE 2010 registrou 305 povos indígenas, somando 896.917 pessoas. Etnias inteiras foram assassinadas ou pereceram vítimas de doenças vindas da Europa à época da colonização. Nunca conheceremos os saberes ancestrais encarnados nesses povos extintos. Tantas perdas irreparáveis, nós também morremos com eles.

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