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Marte Um: A esperança que se recusa a morrer

Um jovem periférico que sonha em ser astrofísico e visitar o planeta vermelho – e os perrengues e afetos de sua família, sob o inferno bolsonarista. Filme de Gabriel Martins, cineasta da geração de Contagem (MG), é carta de amor ao povo brasileiro



De OUTRASMÍDIAS, 18 de  Agosto 2022
Por Ivanildo Pereira, no Cineset


Marte Um, de Gabriel Martins, começa literalmente na noite em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018. Um garotinho negro olha para o céu enquanto os fogos de artificio pipocam à distância, em comemoração. É um filme que não tem um enfoque abertamente político, mas só por existir no Brasil de hoje, por contar a história que conta, com esses personagens, acaba sendo uma obra política. É também um filme muito humano.

Pelas suas quase duas horas acompanhamos a família Martins, gente preta que rala para tocar a vida. Tércia (Rejane Faria), a mãe, passa por um sufoco em uma gravação de uma dessas pegadinhas bobas da TV e começa a desenvolver insônia e síndrome do pânico. Eunice (Camilla Souza), a filha, começa um relacionamento com uma jovem e passa a contemplar a ideia de sair de casa. O pai, Wellington (Carlos Francisco), trabalha em um condomínio chique – cheio de “coxinhas”, como seu colega de trabalho diz em certo momento – e coloca todas as esperanças da família no talento do pequeno Deivid (Cícero Lucas) com a bola. Mas Deivid não quer saber muito de futebol. Seu sonho mesmo é virar astrofísico, e um dia viajar para Marte na primeira missão de colonização do planeta vermelho!


Martins, também o roteirista, dirige Marte Um com segurança e discrição. Sua câmera é uma mosquinha na parede, focando os dramas dos seus personagens. Algumas cenas, porém, têm um tom ligeiramente estranho, como a da pegadinha no início, e outras com o ator/humorista Tokinho não se concatenam muito bem com o resto da narrativa. Mesmo com alguns excessos, de modo geral, é um filme bem resolvido em que a técnica dá lugar à intimidade e às relações entre os personagens. Várias cenas são captadas em planos longos, para não desfazer esse senso de intimidade. A câmera nunca é intrusiva, embora em alguns momentos se dê ao luxo de uma qualidade mais poética – como o plano que mostra duas sandálias voando no céu.

Afeto acima de tudo

A melhor qualidade de Marte Um é mesmo o naturalismo dos seus atores. Ninguém ali parece estar atuando; é como se acompanhássemos uma família da periferia de verdade durante algumas semanas. Uma família que, apesar dos perrengues, se ama, e o filme também demonstra um grande carinho pelos seus personagens.

A câmera se permite observá-los em momentos ternos, como quando Evelyn e a namorada vão visitar uma cobertura chique na qual não poderão morar, e acabam transando; ou quando vemos a mãe observar com ar de preocupada a sua família em uma celebração de Natal. Esses pequenos momentos permitem ao filme ganhar mais vida e o efeito ao final é de criar no espectador também um carinho por aqueles personagens.

Na sua introdução ao filme na exibição no Festival de Sundance, o diretor Gabriel Martins falou como seu filme foi rodado em 2018, justo naquela época complicada que o Brasil vivia, e acaba sendo lançado só agora em 2022, apontando para as possibilidades do futuro. Marte Um é uma obra otimista, mesmo mostrando a situação difícil de pessoas para as quais uma considerável parcela da sociedade brasileira não quer olhar, justamente aquelas que mais sofreram com os últimos anos.

Mas o filme olha para o céu: em uma bela rima visual com o seu início, se configura como uma obra sobre esperança que se recusa a morrer. Martins falou que seu filme é uma “carta de amor ao Brasil”, e na visão do longa são pessoas como essa família que constituem o país, não aqueles no poder. Elas sobrevivem, dão um jeito, enquanto esses outros passarão. E elas o fazem, contra todas as evidências, sonhando com um amanhã melhor onde será possível ir a outro planeta.

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