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Criptomoedas: por trás da grande crise

O que provocou as perdas trilionárias. Por que “moedas do futuro” são ineficientes e devastam a natureza. As práticas predatórias e arcaicas que ressuscitam. A tentativa retrógrada e elitista de apartar a emissão de dinheiro da política



De OUTRASPALAVRAS, 22 de Agosto 2022
Por Trevor Jackson, no Dissent | Tradução: Vitor Costa


É impossível saber o quanto foi perdido. O mercado de criptomoedas derreteu na segunda semana de maio e continuou em declínio desde então. Entre 9 e 13 de maio, a “stablecoin algorítmica” Terra e sua “moeda irmã” Luna perderam algo em torno de US$40 a 45 bilhões de sua capitalização de mercado, e a Terra quebrou sua atrelagem ao dólar americano. O preço da Luna caiu para zero. Os investidores fugiram das criptomoedas intimamente conectadas; alguns abandonaram completamente a criptosfera. Analistas estimam que US$ 300 bilhões foram perdidos no processo, em apenas quatro dias. Após seis dias, a estimativa era de US$ 1 trilhão. No final de junho, todo o mercado de criptomoedas havia perdido US$ 2 trilhões em valor. O principal fórum do subreddit sobre as moedas Terra/Luna subiu as informações de contato para linhas de prevenção ao suicídio para o topo de sua página.

Não há como verificar esses números. Quando falamos de capital de investimento sendo “perdido”, às vezes nos referimos à perda de um investimento inicial – dinheiro real que alguém já teve. Às vezes, pode ser uma perda de retornos futuros esperados. E às vezes pode ser algo mais hipotético: se suas ações valem metade do valor hoje do que ontem, você sente que perdeu, mesmo que nunca “tivesse” esse dinheiro, e mesmo que seu investimento atual valha mais do que você inicialmente colocou nele. Mas, independentemente da escala da queda, este não é o primeiro crash de criptomoedas. Entre novembro de 2021 e janeiro de 2022, o mercado de criptomoedas “perdeu” cerca de US$ 1 trilhão. Antes disso, houve bolhas e quedas em 2011, 2014-2015 e 2018. Uma interpretação dessas quedas é que a volatilidade é endêmica ao mercado de criptomoedas. Uma outra é que as criptomoedas são em si uma crise.

De modo similar ao mercado financeiro em geral, as criptomoedas formam um reino estranho cheio de complexidade técnica, cadeias opacas de causa e efeito, dinâmicas internacionais e regras jurídicas fragmentadas. Mas o mercado financeiro pelo menos está sujeito a alguma regulamentação, de modo que os episódios de impunidade geralmente se limitam a crises e escândalos. As criptomoedas contêm todos os riscos dos mercados financeiros tradicionais, porém sem regulamentação significativa e com muito anonimato. Por essas razões, as criptomoedas também são espaços de impunidade, em que instituições e estruturas permitem que as pessoas causem danos às outras sem enfrentar consequências.

Essa impunidade é o resultado de três problemas: o precedente no qual as pessoas têm muito mais criatividade para inovar em irregularidades do que regulamentação; culpabilidade, em que os líderes tendem a não ser pessoalmente responsáveis por vários crimes e geralmente são protegidos por várias camadas de ocultamento; e escala, na medida em que os crimes em massa tendem a ultrapassar a orientação individual dos regimes legais. Costumamos encontrar a impunidade em condições de conflito violento, ou como característica do poder absoluto. Mas ela também existe na esfera econômica, principalmente em momentos de crise financeira. A impunidade pode parecer uma constante do poder, mas ela tem sua própria história, e a história do capitalismo financeiro também é, em parte, uma história de impunidade.

Os problemas das criptomoedas são maiores que a impunidade, e essa questãoda impunidade não se limita às criptomoedas. Algo que distingue a vida econômica da vida política, moral ou jurídica é que um grande dano pode acontecer e acontecerá a muitas pessoas e ninguém em particular será culpado. Mas o extremo que atingiu o recente crash das criptomoedas ressalta a necessidade de melhorar a linguagem com a qual se condenam e regulam os danos econômicos. É um momento, tal como a crise de 2008, em que a impunidade se tornou tão visível que sua existência é inegável. E uma vez que aprendemos a reconhecê-la, começamos a encontrá-la em todos os lugares.

Enquanto escrevo esse texto, existiam cerca de 19 mil criptomoedas. Quando você terminar de ler essas palavras, muitas delas já terão sumido. Se você já ouviu falar de apenas uma criptomoeda, quase certamente é o Bitcoin. Bitcoin é uma rede peer-to-peer descentralizada sem uma única câmara de compensação e sem equivalente a um banco central ou autoridade emissora de dinheiro. A plataforma Bitcoin emite unidades monetárias chamadas “bitcoins”, cujo valor é determinado pela oferta e demanda em vários câmbios diferentes. Não existe um preço único de bitcoin. A demanda é impulsionada pelo seu uso em transações. A oferta é determinada através da “mineração”: usando o poder de processamento do computador para resolver problemas matemáticos cada vez mais complicados. Os inventores do Bitcoin sustentaram consistentemente que haverá um suprimento finito de bitcoins, aliviando o perigo da inflação e criando, em vez disso, um sistema intencionalmente deflacionário. Todas as transações são anônimas e os bitcoins são mantidos em uma “carteira” digital. Um bitcoin gasto em uma transação é um código único e uma série de transações passadas desse código em uma espécie de livro digital, conhecido como blockchain. Imagine se cada dólar que você gasta viesse com uma lista de todas as transações anteriores em que aquele dólar foi usado, provando assim que você o obteve legalmente. É uma forma de verificar transações preservando o anonimato. Uma vez que uma transação acontece, um aviso é enviado para toda a rede Bitcoin e todos os “mineradores” no sistema correm para verificar o registro de transações anteriores. Se você vencer a corrida de verificação, será premiado com novos bitcoins. e bitcoins são mantidos em uma “carteira” digital. Um bitcoin gasto em uma transação é realmente um código único e uma série de transações passadas desse código em uma espécie de livro digital, conhecido como “blockchain”. Imagine se cada dólar que você gasta viesse com uma lista de todas as transações anteriores em que aquele dólar foi usado, provando assim que você o obteve legalmente: isso é o blockchain. É uma forma de verificar transações preservando o anonimato. Uma vez que uma transação acontece, um aviso é enviado para toda a rede Bitcoin e todos os “mineradores” no sistema correm para verificar o registro de transações anteriores. Se você vencer a corrida de verificação, será premiado com novos bitcoins.

Este sistema é terrível de uma variedade impressionante de maneiras. Primeiro, é muito ineficiente. O Bitcoin pode processar apenas cerca de sete transações por segundo. (A Visa faz algo como 1.700 por segundo e afirma que é capaz de 24 mil.) Ter tantos mineradores diferentes no sistema correndo para verificar a mesma transação cria uma quantidade gigantesca de tempo e energia desperdiçados. E, à medida que as cadeias de transações ficam mais longas e as redes ficam maiores, a verificação das transações fica mais difícil, o que levou a uma corrida pelo poder de processamento. Os mineradores de Bitcoin são parcialmente responsáveis pela escassez de chips de computador que dificultou a obtenção de novos carros, computadores e PlayStations. Num cálculo simples, o Bitcoin consome mais eletricidade do que a Finlândia. Uma transação individual produz cerca de meia tonelada de dióxido de carbono. É provável que o Bitcoin tenha anulado todas as reduções nas emissões de gases de efeito estufa produzidas pela adoção de veículos elétricos.

Em segundo lugar, é muito difícil sacar dinheiro. Para transformar bitcoins (ou qualquer criptomoeda) em dólares, você precisa vendê-los em uma agência de câmbio de criptomoedas – uma transação que deve ser verificada pelo blockchain, durante o qual o preço de seus bitcoins pode mudar. Você paga uma taxa de transação pela troca e, como poucas transações podem ser processadas ao mesmo tempo, os usuários geralmente fazem lances para priorizar suas transações. Na Ethereum, outra rede de criptomoedas proeminente, esses lances são chamados de “taxas de gás”, que às vezes custam entre US$ 50 e US$ 100 por transação. (É difícil dizer exatamente, por que eles são pagos em unidades de Ether, uma criptomoeda que varia em valor em dólar.) No entanto, se alguns grandes players estão fazendo lances para liberar grandes transações, isso pode resultar em uma “guerra do gás” que eleva a taxa por transação a milhares de dólares. Existem outros obstáculos. A Coinbase, talvez a maior bolsa dos EUA, exige que os usuários façam uploads de identificação adicional para sacar, com longos atrasos e sem serviço de atendimento ao cliente. Em momentos de crise ou de escassez de liquidez, as agências de câmbio e bancos de criptomoedas geralmente congelam totalmente as transações.

Depois de vender com sucesso a criptomoeda – possivelmente após um atraso, algumas taxas e uma mudança de preço – a transação segue para o seu banco. Ao contrário das agências de câmbio de criptomoedas, os bancos precisam seguir os regulamentos contra lavagem de dinheiro, por isso empregam um pequeno exército de agentes antifraude para examinar grandes pagamentos de fontes não verificáveis. Seu banco pode rejeitar a transação, recusar suas transferências, congelar sua conta ou notificar as autoridades fiscais. Em 2017, o Wells Fargo se recusou a processar qualquer transferência de ou para Bitfinex, uma agência de câmbio de criptomoedas nas Ilhas Virgens Britânicas. Uma transação dessas pode bloquear seu dinheiro, o banco pode bloquear sua conta e você pode perder esse valor sem nenhum meio de recuperá-lo. Em 13 de junho, a Binance, a maior agência de câmbio de criptomoedas do mundo, e a Celsius Network, uma credora de criptomoedas, ambas congelaram as retiradas de bitcoin. E se você for hackeado ou enganado ou apenas cometer um erro, as transações de criptomoeda não podem ser canceladas.

A dificuldade para “sacar” criptomoeda tem duas implicações principais. Primeiro, significa que as únicas transações que fazem muito sentido com criptomoedas são aquelas em que a necessidade de anonimato supera os altos custos e a baixa velocidade – e é por isso que as criptomoedas estão tão fortemente associadas a drogas, lavagem de dinheiro, ataques de ransomware e pornografia infantil. Segundo, significa que há um incentivo embutido para fazer com que novas pessoas comprem criptomoedas: elas não apenas criam demanda para apoiar os preços, mas também permitem que os usuários existentes saquem.

Relatórios sobre o aumento dos preços do bitcoin são, de fato, anúncios destinados a fazer com que novas pessoas comprem criptomoedas. Os perfis de NFTs e de jogos de azar cumprem a mesma função. Ultimamente, a publicidade de criptomoedas está em toda parte. A Crypto.com produziu anúncios com Matt Damon, Tom Brady e Stephen Curry, e renomeou a arena da NBA em Los Angeles. Um grupo de celebridades twittou apoios às criptomoedas e lançou linhas NFT. Kim Kardashian foi até processada por um story patrocinado no Instagram sobre o EthereumMax. O time de beisebol Washington Nationals fechou um acordo de patrocínio de US$ 38 milhões com a Terra pouco antes dela implodir, e a equipe pode ter que passar os próximos cinco anos promovendo uma criptomoeda que já faliu. Pelo menos eles foram pagos em dólares.

Como as blockchains das criptomoedas, como Bitcoin e Ethereum, tornaram-se muito lentas e caras para serem usadas como moedas funcionais, elas agora são pouco mais do que investimentos especulativos para pessoas com muito dinheiro e grande apetite por risco. Isso deu origem a outra categoria de criptomoedas: as stablecoins. Enquanto o preço do bitcoin varia muito (inclusive entre diferentes agências de câmbio ao mesmo tempo), as stablecoins são projetadas para serem trocadas por dólares a uma taxa fixa. O mais notável, o Tether, estava atrelado ao dólar em paridade. As stablecoins devem resolver o problema do saque: não há necessidade de transformar bitcoins em dólares se você puder transformá-los em Tether. Isso significa que o Tether precisava de reservas em dólares, que pretendia levantar dos investidores. Mas levantar dólares para emitir stablecoins não produz, por si só, novos dólares para os investidores.

Então, o Tether e outras stablecoins ficam com duas opções. A primeira é manter uma mistura de dinheiro e vários títulos (supostamente) líquidos. Muitas stablecoins, no entanto, não divulgam suas reservas, e aquelas que o fazem, como o Tether, não fornecem nenhum tipo de verificação externa de seu capital. Em 2017, a Tether argumentou que os proprietários de suas moedas não tinham direitos contratuais, reivindicações legais ou garantias para poder trocá-las por dólares. Um relatório da empresa em maio de 2021 mostrou que apenas cerca de 3% de suas reservas são lastreadas em dinheiro; cerca de 50% são lastreados em papel comercial. (O relatório resultou de um acordo entre a empresa e o procurador-geral de Nova York, cujo escritório estava investigando se a Tether ajudou a Bitfinex, proprietária da empresa que por sua vez possui a Tether, a cobrir US$ 800 milhões em perdas.) Desde o início de junho, investidores e reguladores têm tentado encontrar as reservas do Tether, que parecem estar em uma série de bancos nas Bahamas.

A segunda opção é usar um algoritmo para gerenciar a oferta da moeda. A criptomoeda Terra (não confundir com Tether) é o exemplo mais famoso de uma “stablecoin algorítmica”. Se muitas pessoas vendessem o Terra de uma só vez, aumentando assim sua oferta e empurrando o preço de uma moeda abaixo de US$ 1, o algoritmo deveria trocar instantaneamente um Terra pela criptomoeda flutuante Luna. Isso reduziria a quantidade de Terra em circulação, fazendo com que o preço voltasse a subir. A operação inversa entraria automaticamente em ação se o preço da Terra subisse a níveis demasiado elevados.

O acidente com a criptomoeda Terra em maio teve uma causa imediata e estrutural. A causa imediata foi uma corrida aos bancos. O Terra não possui suas próprias reservas, mas tem reivindicações sobre as reservas mantidas por uma entidade chamada Anchor, que está tentando ser um banco para criptomoedas. Ela detinha depósitos em Terra que emprestava a outras pessoas e pagava e recebia juros em Terra, alegando que seus depositantes receberiam até 20% ao ano. Na noite de 7 de maio, um pequeno grupo de “várias entidades bem financiadas” trabalhando parcialmente através da Celsius Network retirou US$ 500 milhões em várias criptomoedas da Anchor, deixando-a com algo como US$ 35 milhões em reservas para cobrir US$ 8,7 bilhões em depósitos. Percebendo que isso não era o suficiente, os detentores da Terra precipitaram uma corrida bancária clássica. Todos eles tentaram despejar seus Terra simultaneamente, derrubando o preço de uma moeda bem abaixo do preço de US$ 1. Os fundos por trás da Luna tentaram salvá-la, aparentemente no valor de US$ 750 milhões, mas sem sucesso. A venda de Terra aumentou repentina e enormemente a oferta de Luna exatamente quando a demanda por ela entrou em colapso. Se o Luna deveria estabilizar o Terra, e o Terra não poderia ser salvo, então qual era o objetivo do Luna? Os detentores também abandonaram o Luna, e a moeda perdeu 99,99% de seu valor. Cerca de US$ 45 bilhões em capitalização de mercado evaporaram em uma semana.

Depois que o Terra e o Luna entraram em colapso, os investidores ficaram preocupados com outras criptomoedas. Em 12 de maio, havia uma venda generalizada em andamento. Tether pagou US$ 10 bilhões em saques; Bitcoin perdeu 60% de seu valor. Coinbase demitiu 18% de sua força de trabalho. Celsius Network congelou todos os saques e transferências para seus 1,7 milhão de clientes. Demissões, falências e congelamentos continuam até hoje. Em 13 de julho, o Bitcoin caiu 70% em relação ao seu pico.

Há também uma explicação estrutural de por que tudo isso está acontecendo. No início de maio, o Federal Reserve anunciou um aumento grande nas taxas de juros, o dobro do ritmo normal, e sinalizou que pode aumentar as taxas de juros mais sete vezes até o final de 2022. (As taxas foram aumentadas novamente em meados de junho e no final de julho.) Essa colisão tornou o empréstimo de dinheiro caro o suficiente e levou os investidores a reequilibrar seus portfólios, o que fez a torneira contínua de dinheiro barato inundando a economia de criptomoedas desacelerar o suficiente para precipitar um colapso. O Fed pretende se antecipar a uma recessão da economia real, e em uma recessão todos querem dólares, não stablecoins algorítmicos ou NFTs do macaquinho Bored Ape.

Como a WeWork, Uber e outras empresas de tecnologia com grandes capitalizações de mercado e sem lucros, as criptomoedas são um sintoma mórbido de uma era de dinheiro barato sem precedentes que persistiu desde a crise de 2008. Trilhões de dólares foram gastos em todo tipo de coisas destrutivas e estúpidas. Como a maioria das outras bolhas financeiras, as criptomoedas são resultado de liquidez barata, inovações nada transparentes e marketing vigoroso. A era do dinheiro barato está chegando ao fim, encerrando esta fase da história financeira. Então, o que mais as bolhas financeiras do passado podem nos dizer?

Analisá-las é de vital importância para historicizar as criptomoedas – para mostrar como elas surfaram numa maré de dinheiro barato e aproveitaram predatoriamente que as pessoas estavam com oportunidades restritas e sem esperanças depois de 2008. Mas também vale a pena mostrar como as criptomoedas repetem quase todos os desastres da história financeira. Apesar de toda a conversa sobre o futuro, as criptomoedas são um macabro apagamento do passado.

Vamos começar com os golpes óbvios. NFTs e criptomoedas com preços flutuantes – como o bitcoin – estão cheios de operações de lavagem de dinheiro, em que traders compram e vendem anonimamente NFTs e moedas para si mesmos, para aumentar os preços. Esses negócios de lavagem eram endêmicos nas bolsas de mercadorias do século XIX e acabaram sendo proibidos nos Estados Unidos pela Lei de Comércio de Commodities (Commodity Exchange Act) de 1936. Muitos novos empreendimentos de criptomoedas são “puxões de tapete” (rug pulls), nos quais os promotores viabilizam um novo projeto e depois fogem com todo o dinheiro dos investidores. Como muitas vezes deixam os investidores com tokens inúteis, os golpes no campo das criptomoedas se assemelham aos wildcats banks do século XIX. Antes da Lei do Banco Nacional de 1863 e do estabelecimento de uma moeda nacional uniforme, os estados concediam cartas bancárias quase sem supervisão. Muitos banqueiros mais ousados criavam estabelecimentos, aceitavam depósitos, emitiam seu próprio papel-moeda e depois fugiam com todos os depósitos, deixando para trás notas de papel sem valor. Como reação, Arkansas e Iowa baniram os bancos inteiramente ao longo das décadas de 1840 e 1850.

Outro esquema comum na criptosfera é o pump and dump: os primeiros investidores aumentam os preços trazendo novos compradores e por meio de pronunciamentos públicos entusiasmados, apenas para “despejar” suas participações supervalorizadas em novos participantes antes que a bolha estoure. O filme O Lobo de Wall Street é sobre uma série de esquemas de pump and dump nas décadas de 1980 e 1990. Essas práticas também proliferaram durante a bolha das pontocom. Mas elas também têm uma história muito mais antiga que ajuda a esclarecer como as criptomoedas geram, hoje, danos e impunidade.

A primeira crise financeira internacional do mundo, conhecida na França como a “Bolha do Mississippi” e na Inglaterra como a “Bolha do Mar do Sul”, estourou em 1720. Tanto a Mississippi Company quanto a South Sea Company eram sociedades anônimas envolvidas em trocas de dívida por capital, o que implicava persuadir os detentores de dívida pública francesa ou inglesa a trocá-la por ações da empresa. A França e a Inglaterra passaram 25 anos travando guerras caras entre si, de modo que seus governos estavam ansiosos para se livrar de algumas de suas dívidas pendentes, e os detentores de dívidas estavam dispostos a negociar porque essas empresas prometiam lucros fantásticos. A South Sea Company detinha o asiento, o contrato de monopólio para entregar escravos às colônias espanholas nas Américas. A Companhia do Mississippi era ainda mais ambiciosa. Liderada por seu fundador, John Law, um jogador e assassino condenado da Escócia, a empresa queria estabelecer um proto-banco central. Law fundou um banco e obteve permissão para emitir papel-moeda. Ele usou esse dinheiro e os lucros do banco para comprar partes do governo francês, que eram mantidas como escritórios privados e venais. Ele comprou o sistema tributário, o monopólio do comércio exterior e a empresa com o monopólio de colonizar o território da Louisiana. Esse sucesso induziu muitas pessoas a comprar ações de sua empresa, e o preço de suas ações foi, na linguagem das criptomoedas, “para a lua”.

O problema era o papel-moeda, que era então uma inovação financeira muito moderna naquele momento, e que Law alegava que liberaria o comércio e as transações cotidianas de uma falta de liquidez deflacionária. As pessoas estavam relutantes em aceitá-lo, então Law usou sua influência política (que era considerável: ele acabou se tornando ministro das finanças da França) para exigir que pagamentos de impostos, salários e contratos fossem realizados em sua moeda. Em seguida, ele tentou desmonetizar totalmente o ouro e a prata, enquanto usava papel-moeda emitido de seu próprio banco para comprar ações de sua empresa, a fim de manter o preço subindo. As pessoas se revoltaram, correram para o banco para sacar seus depósitos, e o sistema entrou em colapso.

O capital saiu da França para as ações da South Sea na Inglaterra. Os diretores da South Sea Company estavam envolvidos em uma versão inicial de um pump and dump: eles emitiram a primeira rodada de ações, subornaram o Parlamento para lhes dar privilégios e apoio e produziram panfletos e discursos prometendo dividendos recordes. Eles também criaram uma série de compradores fictícios para facilitar os negócios de lavagem. Mas eles não tinham negócios subjacentes reais, e seus dividendos prometidos exigiriam lucros maiores do que todo o tamanho da economia inglesa. Entre um pico em julho e um vale em dezembro de 1720, essa bolha também estourou.

Como essas bolhas foram as primeiras desse tipo, as autoridades tiveram que inventar novos meios de reparação. O Parlamento inglês criou um comitê de investigação secreto e produziu novas leis para permitir que se processasse os diretores da South Sea. Mas o escândalo econômico tornou-se um escândalo de corrupção política: o projeto da empresa não teria funcionado sem o apoio do Parlamento e sua suscetibilidade a subornos. Da França, John Law fugiu para o exílio. O governo francês queimou bilhões de suas notas e iniciou um processo de falência chamado “Visa” para verificar e pagar reivindicações e contratos legítimos de sua empresa. O banco central e o papel-moeda desapareceram da França nas sete décadas seguintes. As consequências da primeira crise financeira produziram a maioria dos problemas que ainda estão conosco hoje: qual é o papel legítimo das instituições financeiras? Como os mercados de capitais internacionais podem ser regidos por leis nacionais? E os acidentes são naturais, inevitáveis ou são culpa de alguém?

Essas histórias nos mostram que nenhum dos problemas relacionados às criptomoedas é novo: nem a estrutura dos golpes, nem as maneiras pelas quais as inovações financeiras prometem benefícios sociais ao mesmo tempo em que geram lucros privados, nem as formas pelas quais essas inovações são projetadas para explorar espaços ainda não cobertos por leis e regulamentos. Elas também demonstram que as consequências das finanças não regulamentadas não são restritas ao mundo financeiro: elas irrompem no mundo real e causam tanto desastres políticos quanto danos sociais. Finalmente, essa história nos mostra que o propósito fundamental da criptomoeda – criar moeda privada – é tão antigo quanto o próprio capitalismo financeiro.

A moeda privada existia, especialmente no período medieval e no início da Era Moderna, como forma de facilitar as trocas quando o dinheiro soberano, feito de metais preciosos, era escasso. Mesmo assim, a maioria das verbas privadas eram notas promissórias individuais, também conhecidas como “dinheiro de livro” (book money): unidades de conta através das quais as pessoas mantinham contas entre si. Mas ao contrário do folclore dos economistas, o dinheiro como o conhecemos sempre foi uma tecnologia política. É uma categoria especial de mecanismos de troca: uma expressão da soberania estatal, aceita pelo Estado para pagamento de impostos e usada para financiar o monopólio estatal sobre a violência, parte do qual é dedicado a fazer valer seu monopólio sobre a produção de dinheiro.

Os entusiastas das criptomoedas se opõem especialmente a uma forma específica de moeda estatal: moeda fiduciária ou o dinheiro que não é atrelado a alguma commodity. Essa moeda fiduciária tem sido a norma em todo o mundo desde a década de 1970, quando o governo Nixon cortou unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro. Desde então, o dólar tem sido respaldado “apenas” pela plena fé e crédito do governo dos EUA, e não há limite técnico para quantos dólares o Federal Reserve pode produzir. A capacidade de gerar repentinamente muitos dólares pode ser muito útil se, por exemplo, a especulação imobiliária precipitar uma implosão do setor financeiro e você precisar de US$ 4,4 trilhões para flexibilização quantitativa. Ou então se para conter um novo coronavírus travando a economia global você precisar de mais US$ 4 trilhões para suporte de ativos. Mesmo entre as moedas fiduciárias, o dólar americano é especial. Ele atua como a principal moeda de reserva do mundo – os bancos centrais de todo o mundo usam dólares para comprar suas próprias moedas se começarem a diminuir de valor, e a maior parte do comércio global é realizada em dólares.

Mas a falta de um limite preocupa as pessoas. Em um “livro branco”que propôs a invenção do Bitcoin, o autor e inventor da plataforma, Satoshi Nakamoto, afirmou: “A raiz do problema com as moedas convencionais é toda a confiança necessária para fazê-la funcionar. O banco central deve ser confiável para não rebaixar a moeda, mas a história das moedas fiduciárias está cheia de violações dessa confiança.” Esta afirmação é quase totalmente desinformada historicamente. A degradação se referia primeiro à capacidade dos primeiros soberanos modernos de alterar a composição metálica de suas moedas, de modo que o valor de face e o peso diferissem. Foi uma das inúmeras maneiras pelas quais os estados manipularam suas moedas, bem antes da moeda fiduciária ou dos bancos centrais. O papel-moeda de John Law pode parecer um exemplo de moeda fiduciária degradada, mas a sua empresa era privada e o valor do dinheiro deveria ser lastreado pelo valor de suas ações. As desvalorizações não são exclusivas das moedas fiduciárias, e a governança privada não se mostrou mais confiável do que a pública, para dizer o mínimo.

O que a criptosfera tem em mente nesse debate é o padrão-ouro do século XIX. Naquela época, os bancos centrais tinham que manter reservas de ouro e estar prontos para converter papel-moeda em ouro a uma taxa fixa. (Eram principalmente empresas privadas na época; o Banco da Inglaterra era privado e responsável perante seus acionistas até ser nacionalizado em 1946.) Na prática, isso significava que eles não tinham controle sobre a política monetária e não podiam responder a crises. Em uma crise, as pessoas correriam para os bancos para retirar seus depósitos, e o ouro seria drenado dos cofres do banco central. Para evitar a falência, os bancos centrais aumentariam suas taxas de juros, induzindo as pessoas a deixar seu dinheiro ou a trazê-lo de volta. Mas aumentar as taxas de juros piora a crise: fica mais caro tomar empréstimos, e, como resultado, mais pessoas deixam seu dinheiro nos bancos em vez de gastá-lo. A demanda cai, as empresas deixam de vender e as pessoas perdem seus empregos. As instituições bancárias centrais privadas salvaram-se impondo miséria à população em geral. E isso só foi possível porque, no século XIX, a maioria das pessoas não podia votar. A moeda privada tem sido, historicamente, totalmente incompatível com a democracia.

Consequentemente, a teoria sobre a moeda privada e o anseio por um padrão-ouro restaurado são marcas registradas do pensamento neoliberal. Não sou o primeiro a notar os paralelos entre os objetivos declarados das criptomoedas (especialmente o Bitcoin) e o livro de Friedrich von Hayek de 1976, The Denationalization of Money. Quinn Slobodian encontrou diversos trabalhos da Mont Pelerin Society sobre o uso de moedas privadas para competir com as nacionais. Stefan Eich argumentou que a criptomoeda é um retorno à politização do dinheiro da década de 1970. Um relatório do Banco Central Europeu de 2012 rastreou as origens intelectuais das “moedas virtuais” até a Escola Austríaca e seu objetivo de acabar com os monopólios dos bancos centrais e retornar a uma versão do padrão-ouro. Por trás da complexidade técnica da criptomoeda – e sua conversa sobre comunidade, descentralização e futuro – está um projeto implacavelmente reacionário.

Muitos compararam a criptomoeda a um esquema de pirâmide (Ponzi Scheme em inglês), mas pelo menos Charles Ponzi não contribuía tanto para a mudança climática ou facilitava a troca de pornografia infantil. E ele também foi preso. Por outro lado, a Comissão Federal de Comércio informou que, desde o início de 2021, mais de 46 mil pessoas perderam mais de US$ 1 bilhão em criptomoedas para golpes diretos – cerca de um quarto de todos os golpes nesse período e mais do que com qualquer outra forma de pagamento. Mas não há como saber quantas pessoas perderam dinheiro nas várias quebras de mercado e quanto perderam. Talvez algumas pessoas que cometeram fraudes enfrentem consequências, mas a história de impunidade no capitalismo financeiro mostra que ninguém em particular será responsabilizado por criar uma esfera de atividade fora das leis existentes, onde a fraude é endêmica e estrutural.

As criptomoedas mostraram uma capacidade notável de ignorar seus próprios golpes e erros. Mas a Securities and Exchange Commission não precisa seguir seu exemplo. Tudo na criptosfera é essencialmente um título não listado, e tudo precisa ser regulamentado antes que precipite um colapso na economia real, uma aceleração de nosso colapso político em andamento ou danos sociais mais generalizados. Alguma regulamentação certamente está a caminho, mas a verdade da regulamentação financeira é que recursos muito maiores são dedicados para evitá-la do que para aplicá-la. O crash de 2022 provavelmente não será o fim das criptomoedas. Se alguma coisa vai matá-las, provavelmente é o Federal Reserve: a política monetária minará o fluxo de dinheiro barato do qual depende – e se o Fed produzir sua própria moeda digital, ele poderá competir com toda a criptosfera, porque essa moeda funcionaria de verdade como dinheiro.

O mundo ao nosso redor está inundado de danos sociais causados pelo lucro, desde a negação das mudanças climáticas e a prescrição excessiva de opioides até a fabricação de armas e a assistência médica privada. Cada uma dessas injustiças tem sua própria história, mas também compartilham uma história em comum: a separação da esfera econômica das esferas moral e política a partir do século XVIII. O projeto de criação de moeda digital privada é atualmente o ápice dessa separação. Promotores de criptomoedas e blockchains afirmam que oferecem uma fuga ou uma alternativa à impunidade do capitalismo financeiro. Em vez disso, eles mostraram por que as finanças em geral precisam estar sujeitas ao controle democrático e à responsabilidade pública. É impossível saber quanto foi perdido para as criptomoedas. O que sabemos é que o mundo foi diminuído por sua existência.

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