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As greves que chacoalham a Europa

Velho Continente vive a maior onda de paralisações em 30 anos. Ela atinge aeroportos, ferrovias, escolas, indústrias e até serviços diplomáticos. As causas: inflação altíssima devido à guerra e as privatizações que pioram as condições de trabalho



De OUTRASPALAVRAS, 23 de Agosto 2022


Greve dos trabalhadores do setor ferroviário, em Glasgow, Reino Unido

Quem viaja para ou pela Europa neste conturbado verão de 2022 está se acostumando com uma palavra para descrever aeroportos: caos. Mas existe uma ordem profunda por detrás da aparente desordem. Desde o começo do ano, o setor aeroviário vem sendo palco de duas constantes: greves, uma atrás da outra, em diversos aeroportos e em muitas companhias aéreas; e falta de pessoal. Somente na Alemanha estima-se que há sete mil trabalhadores a menos no setor. Uma das razões desta escassez é a prolongada pandemia da covid-19, que afastou e continua afastando muita gente de seus postos de trabalho.

As greves neste setor se espalharam por todo o continente, atingindo em momentos e graus diferentes a Inglaterra, Portugal, Espanha, França, Bélgica, Itália, Alemanha, países da Escandinávia. Dois casos dramáticos: em julho, na Alemanha, cerca de mil voos da Lufthansa foram cancelados nos aeroportos de Munique e Frankfurt devido a uma greve de pilotos; e a Scandinavian Airlines, com sede em Estocolmo, na Suécia, pediu falência depois de uma greve de seus mil pilotos, também em julho.

Paralisações em outros setores

A onda de greves não se resume ao setor aéreo. Desde o começo do ano paralisações e protestos atingiram o setor portuário da Alemanha e da Holanda, os trabalhadores em plataformas oceânicas de extração de petróleo na Noruega, professores e trabalhadores da educação na Itália, metalúrgicos na Alemanha, trabalhadores e vendedores na Torre Eiffel, em Paris, e até mesmo um setor não muito afeito a estes movimentos. Em junho, diplomatas franceses cruzaram os braços, numa iniciativa que atingiu as representações da França de Tóquio a Washington!

Mais recentemente, em agosto, as greves se multiplicaram no setor ferroviário e de transporte urbano no Reino Unido, paralisando em grande parte a capital, Londres. Também houve e há greves nos Correios, nas telecomunicações, nos serviços de coleta de lixo, nos portos, nas usinas de eletricidade e nas fornecedoras de água, em paralisações tidas como as mais intensas e extensas dos últimos 30 ou 40 anos, conforme o setor. Com o fim do verão, espera-se que os movimentos grevistas se estendam para a educação e a saúde.

Altas taxas de inflação



De um modo geral, culpa-se a elevada inflação. Turbinada pelos aumentos dos custos da energia em consequência da guerra na Ucrânia, as altas taxas elevam o preço dos transportes e dos fertilizantes no setor agrícola, impactando no custo dos alimentos. Estimada em média em 9% no continente europeu, o índice chega a 10,1% na Inglaterra, podendo ir para 13% anuais a partir de outubro. Mas há quem fale também na falta de pessoal, o que piora as condições de trabalho, decido às grandes privatizações britânicas nos setores de transporte, abastecimento de água e fornecimento de energia, e até no Brexit, que complicou as relações comerciais e alfandegárias com a União Europeia.

Esta retomada da atividade sindical é também a mais vigorosa desde que, entre 1984 e 1985, a então primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, a “Dama de Ferro”, sufocou o sindicato dos mineiros com uma feroz política repressiva que inibiu o movimento sindical inglês durante décadas. Tanto na Inglaterra quanto na Europa Continental, os movimentos sindicais desde o começo de 2022 parecem ser apenas o prelúdio do que pode acontecer no futuro, modificando completamente a paisagem social europeia.


FLAVIO AGUIAR
É membro da Frente de Brasileiras e Brasileiros pela Democracia e contra o Golpe (FIBRA), na Alemanha.

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