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A vida de León Trotsky

Do A Terra É Redonda, 18 de Agosto 2022
Por LUIZ MARQUES*


Artista desconhecido, Leon Trotsky, década de 1980?

Considerações sobre as biografias do líder revolucionário

Acaba de ser publicado, na Espanha, La fuga de Siberia en un trineo de renos (Siglo Veintiuno & Clave Intelectual), de León Trotsky (1879-1940). Depoimento que parece uma novela de aventuras. O herói conta o traslado forçado às colônias penais siberianas, pela atuação na presidência do Soviete de delegados operários de São Petersburgo e pelo seu protagonismo na Revolução de 1905, na Rússia. Nessa época, vaticinou: “Para o proletariado, a democracia é em todas as circunstâncias uma necessidade política; para a burguesia capitalista é, em certas circunstâncias, uma inevitabilidade política”. Assertiva, diga-se de passagem, que dialoga com a luta que se desenrola e condiciona as alternativas colocadas nas próximas eleições, no Brasil.

A primeira deportação do combatente pela igualdade e pela liberdade ocorreu entre 1900 e 1902, e foi proveitosa à sua evolução política e filosófica. Na ocasião, pegou do carcereiro o pseudônimo com o qual Lev Davídovich Bronstein ingressou no panteão do socialismo. Na prisão, assíduo frequentador da biblioteca, leu as peças de Shakespeare. Os livros subversivos entravam por meandros inventados pelos visitantes.

Fez a própria defesa no tribunal que o julgou, com um forte discurso antimonarquia, baseado nos ensinamentos shopenhauerianos sobre “a arte da controvérsia” para tecer contra-acusações às autoridades imperiais. “De um lado existe luta, coragem, verdade, liberdade. De outro, falsidade, vileza, calúnia, escravidão. Cidadãos, escolham!” Ótimo orador, de verve sedutora e raciocínio ágil cativava a audiência, de pronto. No fundo, visava a atenção e a consciência política dos trabalhadores que acompanhavam o processo judicial, pelos jornais.

Perante o juiz, arguiu o governo conivente com os pogroms (ou seja, com práticas de destruição) contra as comunidades judaicas da zona de assentamento. Admitiu que o Soviete se armou, mas pela urgente necessidade de combater “essa forma de governar”. À medida que argumentava, lançava uma série de denúncias de caráter moral e humanitário ao inimigo, o Estado czarista.

Ao ludibriar a polícia para escapar, deu início as anotações. Não esqueceu de endereçar palavras às renas que puxavam o trenó. “Eram magníficas as que o guia escolhera num rebanho de talvez uma centena de cabeças. São criaturas fascinantes. Não passam fome, nem padecem cansaço. Em nossa odisseia, levavam dois dias sem alimentar-se e iam para o terceiro sem comer, com descansos breves de dois ou três minutos. O alimento procuravam-no por si. No local em que sentiam o musgo sob a neve, cavavam um buraco com os cascos, mergulhavam até o pescoço e comiam. No caminho, os animais iam bem juntos e eu me admirava de que não entrançassem as patas e tombassem”. Na liderança do Comitê Militar Revolucionário, trocou o trenó pelo trem na tarefa de organização do vitorioso Exército Vermelho, com os ideais que derrotaram o czar e o capital.

A narrativa possui duas partes, perfeitamente distintas: la ida & la vuelta. Abarca desde a saída (03/01/1907) do cárcere da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, que serviu de gabinete durante um ano para escrever, até a chegada ao povoado de Beriózov (12/02/1907), penúltima parada antes de chegar ao destino – a remota localidade de Obdorsk, nos confins da esperança.

Em sua autobiografia, em 1930, Trotsky ao se debruçar sobre a contingência relembra: “Para mim, foi um período de trabalho intenso, científico e literário. Estudei a teoria da renda da terra e a história das condições sociais na Rússia. Um trabalho meu, muito desenvolvido, mas não concluído, sobre a renda da terra, perdeu-se nos primeiros anos após a Revolução de Outubro. O estudo sobre a história social russa condensou-se no artigo ‘Resultados e Perspectivas: as forças motrizes da revolução’ que é, nesse intervalo, a exposição mais completa da teoria da revolução permanente”.

Em Minha vida (Paz e Terra), registrou: “Ainda não se podia ver bem se a revolução estava num refluxo definitivo, ou estacionava para logo recomeçar. Em ambos os casos era preciso lutar contra os céticos, rever teoricamente a experiência de 1905, educar os quadros para a nova ascensão ou para a revolução seguinte. Lênin numa conversa aprovou o trabalho que eu tinha desenvolvido na prisão, mas me censurou por não tirar dele as consequências necessárias, vindo para as fileiras dos bolcheviques. E tinha razão”. Nos parágrafos que encerram a lembrança da evasão, observou: “Aqui, termina minha ‘heroica’ fuga através da taiga (paisagem com árvores de porte maior) e da tundra (paisagem com espécies vegetais rasteiras). Na trama mais arriscada, a fuga resultou mais fácil e prosaica do que eu imaginara”. Em retrospectiva, depois, a adrenalina desmanchou no ar.

Em Beriózov, Trotsky simulou uma crise do ciático para não prosseguir o calvário. “Como se sabe, a dor ciática não pode ser verificada”. Dali, empreendeu o retorno à civilização. “Eu vestia duas peliças, uma com o pêlo para fora, outra com o pêlo para o lado de dentro, meias de pêlo. Em suma, o equipamento de inverno de um ostiak (habitante da Sibéria, famoso pelo excessivo consumo de bebidas alcoólicas). Na maleta eu tinha algumas garrafas de álcool, a moeda mais segura no deserto de neve”. Conforme o futuro fundador da Quarta Internacional: “A viagem durou oito dias. Havíamos percorrido 700 quilômetros e nos avizinhávamos dos Urais. Fazia-me passar por um engenheiro da expedição polar do barão Toll. Tinha alcançado a linha de ligação com a estrada de ferro”. Sinal da libertação no horizonte. Na sequência, exilou-se por vários países, na Europa.

Se, na ida, as cartas à querida companheira serviram de eixo epistolar para a crônica; na volta, o estilo adotado é de suspense sobre o sucesso da fuga em marcha, sem ainda adivinhar o desfecho. Era de conhecimento geral, porém, que “de quatrocentos e cinquenta presos em determinada área de Tobolsk, restavam só cem”. O fato era auspicioso. Na região, se costumava considerar o frio suportável aos -25 ou -30 °C, conquanto pudesse chegar a -50 °C. “Todo dia descemos um degrau para o reino do frio e da selvageria”. O percurso era um castigo, que a incerteza aumentava.

Mais tarde, em uma famosa trilogia (Civilização Brasileira) o biógrafo Isaac Deutscher destacou La Pluma, alcunha de Trotsky pelo talento como escritor. “Encarnava o grau mais alto de maturidade a que o movimento tinha aspirado ascender, até então. Ao formular os objetivos da revolução, ia mais longe que Mártov (líder dos mencheviques) e Lênin (líder dos bolcheviques). Estava melhor preparado para jogar um papel ativo nos acontecimentos. Um infalível instinto político o havia levado, nos momentos oportunos, aos pontos nevrálgicos e aos focos da revolução” (O profeta armado, vol. I). Foi portador de “compromissos grandes demais com o proletariado”.

Na história do movimento trabalhista e do marxismo nenhum ciclo foi tão sombrio e problemático, como nos anos do último exílio de Trotsky, que o acharam desarmado. “Foi um tempo em que, para citar Marx, ‘a ideia tendia para a realidade’, mas como a realidade não tendia para a ideia, formou-se um abismo entre elas. Em tempo algum, o capitalismo esteve tão próximo da catástrofe quanto durante as depressões e colapsos da década de 1930; e em tempo algum mostrou uma elasticidade tão selvagem. Nunca tão grandes massas foram inspiradas pelo socialismo; e nunca foram tão impotentes e inermes”, aponta Deutscher (O profeta banido, vol. III). Um indivíduo fez falta.

Com clareza, Trotsky previu o desastre da substituição das classes trabalhadoras pela vanguarda. “A organização partidária tende a colocar-se no lugar do partido como um todo; o comitê central no lugar da organização e, para completar o cenário, um ditador no lugar do comitê central”. Com o que a pretensa “ditadura do proletariado” se converte na ditadura sobre o proletariado. O trágico destino, que culminaria na picareta de alpinista, prenunciava-se. A profecia se realizou, por inteira.

O “profeta”, que na acepção bíblica do Primeiro Testamento significa “o que indica caminhos alternativos”, derrotado em vida, foi um vencedor depois do covarde assassinato num fatídico 20 de agosto. O comando stalinista achou que o faria cair no esquecimento sepulcral, mas sucedeu o contrário. Estátuas do burocrata despótico foram derrubadas e pisoteadas no chão; o mausoléu do ex-seminarista retirado da companhia de Lenin. E um desenhista pôs ali o de Trotsky, sem o culto.

O corpo se decompõe, com a morte. As ideias se recompõem, com a memória. Trotsky sobreviveu ao fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que auxiliou a fundar e, com Che Guevara, tornou-se no imaginário contemporâneo um digno expoente da utopia pós-capitalista, frente às deformações do regime sediado em Moscou. Hoje, ambos são mitos que condensam a disposição para uma socialização efetiva do poder e a abertura para inovações artístico-culturais.

Josef Stalin, o “militante anônimo”, de início foi visto como um administrador moderado, sensato e disciplinado o suficiente para manter o script delineado no precipitado fechamento da Assembleia Nacional (Duma), um caso premonitório de desgraças. Rosa Luxemburgo, que concebia o socialismo de forma indissociável da democracia, foi uma voz lúcida ao formular o alerta que teria feito a diferença. “A eliminação da democracia, como tal, é pior que a enfermidade que se supõe curar; pois detém a fonte viva que pode propiciar o corretivo aos males das instituições sociais. Essa fonte é a vida política ativa, sem travas, enérgica, do conjunto das massas populares”, lê-se no balanço, A Revolução Russa, escrito em 1918 e publicado postumamente em 1922.

Para Michael Löwy, “um dos textos indispensáveis não só para a compreensão do passado, mas para uma refundação do socialismo (ou comunismo) no século XXI”. Trata-se de um libelo a favor da soberania popular, contra o autoritarismo e a burocracia.

O erro de avaliação sobre Stalin e sobre a importância dos organismos representativos custou caro. Em sete décadas, a URSS não produziu nenhum pensador original. Grande parte da esquerda mundial, por osmose, foi congelada e embalsamada na escolástica, que consagrou o enxame de citações oficialistas para impedir o livre pensar e impor a verdade do “farol dos povos”. Os hereges foram perseguidos, excomungados. Saltou-se do “socialismo em um só país” para o pastiche teórico em todos os países. A simplificação do materialismo histórico implicou o abandono, em nome de interesses chauvinistas, do conceito central na aplicação do método dialético, a “totalidade”.

O mago dos sovietes teve também um biógrafo na língua portuguesa, Paulo Leminski, autor de León Trostky: a paixão segundo a Revolução (Brasiliense). Sob influência freudiana, o poeta de Curitiba tomou o romance de Dostoiévski, Os irmãos Karamázov, escrito quarenta anos antes do fenômeno insurrecional, como prelúdio do episódio que continua assombrando o Ocidente. “Quando um dos Karamázov mata o pai, começa a Revolução Russa, esse terremoto histórico, onde Trotsky teve um papel decisivo”. Ruía o totem das estruturas da opressão. Novas surgiriam, hélas.

Já, sob influência libertária, o samurai das letras reporta uma fala das memórias de Górki, a quem Lênin teria confidenciado uma impressão sobre Trotsky. “Ele sabe organizar. No entanto, não é dos nossos. Está conosco, mas não é dos nossos”. Com toda certeza, o comentário lacônico exprimiu o diagnóstico que perpassava a mente dos altos dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), o que explica a posição dos notáveis quadros formados pela escola leninista, na disputa pela hegemonia do aparelho estatal, após a morte física de Vladimir Ilitch Ulianov (1924).

Paulo Leminski celebra em versos o reconhecimento crescente ao camarada redivivo no poema que dedica a uma das combativas frações do movimento estudantil brasileiro, Liberdade e Luta / Libelu, sob a ditadura das casernas: “me enterrem com os trotskistas / na cova comum dos idealistas / onde jazem aqueles que o poder não corrompeu”. Ergue ainda um poema para brindar o velho León e Natalia, no exílio do casal em Coyoacán: “nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia / nada como um dia indo atrás do outro vindo”. O totalitarismo não é a única alternativa ao capitalismo.

La fuga de Siberia en un trineo de renos, em suma, é a “história pessoal e dramática, que nos entrega um Trotsky observador, profundo, humano, por momentos irônico, que explora os arredores e expressa um estado de ânimo ou tira a fotografia de um ambiente que, sem dúvida, se revela extremo, exótico, quase inumano”. A sentença, na apresentação do precioso relato, é do literato cubano Leonardo Padura, autor de O homem que amava os cachorros (Boitempo). A saga de Trotsky, na idade de 27 anos, é uma leitura obrigatória. Aguarda-se a tradução, no idioma pátrio.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

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