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Uma radiografia das “cidades do agronegócio”

Qual o papel obscuro do agro na urbanização do país. Como essas cidades se expandiram nos últimos 30 anos. Suas estruturas a serviço das commodities, sob força de trabalho migrante. Por que são excludentes, desiguais e patrimonialistas


De OUTRASPALAVRAS. 6 de Junho 2022
Por Denise Elias: Favela em Sinop. 


Foto: Fellipe Abreu
Aumenta a compreensão de que as transformações das formas de uso e ocupação do espaço agrícola brasileiro, com a expansão de commodities e a destruição de uma das mais importantes biodiversidades do planeta, entra na fatura da dívida das corporações do agronegócio com o povo brasileiro.

Porém, o que talvez ainda seja pouco conhecido é o papel que o agronegócio desempenha na expansão da urbanização no país. Especialmente nas últimas três décadas, o agronegócio foi responsável pela (re)estruturação não só do espaço agrícola, mas também do espaço urbano e regional em diferentes partes do Brasil. Discutir essa urbanização associada ao agronegócio e algumas de suas principais características é o objetivo do presente artigo.

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Um tipo de cidade vem ganhando destaque na rede urbana brasileira, são as denominadas cidades do agronegócio. De maneira geral, essas são cidades de pequeno e médio portes e resultam da expansão da urbanização inerente às novas formas de uso e ocupação do território brasileiro associadas à reestruturação produtiva da agropecuária e à expansão da economia e da sociedade do agronegócio globalizado.

Considerando-se a gama de atividades que compõem o agronegócio, é notório que não se localizem e nem se realizem somente no campo, mas também nos espaços urbanos de vários estratos da rede urbana. É na cidade que se processa parte da materialização das condições gerais de reprodução do capital do agronegócio, como atividades de comando, de fornecimento de uma gama diversa e complexa de produtos, serviços e mão de obra especializados. Tais demandas acabaram por intensificar a urbanização brasileira, realidade presente em todas as áreas onde o agronegócio se difundiu, apesar de suas muitas especificidades.

As cidades do agronegócio possuem distintos níveis de urbanização, mas, de maneira geral, são espaços urbanos não metropolitanos nos quais ocorre a gestão local e regional de suas atividades. Esses locais oferecem as respostas imediatas às necessidades técnicas, científicas, financeiras, logísticas e de mão de obra para o agronegócio, ou seja, são pontos fundamentais na rede de relações econômicas, sociais, políticas e de logísticas do agronegócio.

Essas cidades exercem centralidade em amplas regiões produtivas de commodities e constituem-se enquanto elo entre esses espaços agrícolas – extremamente racionalizados com altos índices de ciência, tecnologia, informação e capital – e o espaço urbano-regional. Assim, as cidades do agronegócio devem ser entendidas a partir de suas interações com os espaços agrícola e regional.

Via de regra, nas cidades do agronegócio localizam-se as indústrias esmagadoras de soja, os frigoríficos de aves, suínos e bovinos, as lojas de agrotóxicos e máquinas agrícolas, os bancos especializados em crédito para o agronegócio, as empresas de pesquisa agropecuária etc. Essas cidades também abrigam os trabalhadores agrícolas não rurais, aqueles que exercem atividades agropecuárias, mas residem nas cidades, sejam ou não especializados, da mesma forma que os funcionários das agroindústrias, dos silos, os proprietários dos estabelecimentos agropecuários, entre outros.

Em algumas das cidades do agronegócio não é incomum que estabelecimentos industriais, armazéns, lojas de tratores e outros comércios e serviços associados ao consumo produtivo do agronegócio estejam localizados dentro do próprio perímetro urbano principal da cidade, junto às mais valorizadas áreas residenciais.

As cidades do agronegócio existem em todo o Brasil. Algumas são mais antigas e encontram-se em permanente processo de (re)estruturação, enquanto outras já nascem como fruto da difusão do agronegócio e da divisão do trabalho por ele estabelecida, especialmente nas fronteiras agrícolas.

Essa tipologia de cidade é um exemplo efetivo do uso do território brasileiro para atender os interesses das corporações do agronegócio. Citemos algumas: Sinop, Sorriso, Nova Mutum e Lucas do Rio Verde (MT); Balsas (MA); Uruçuí (PI); Rio Verde (GO); Ribeirão Preto (SP); Luís Eduardo Magalhães (BA); Petrolina (PE); Chapecó (SC); Dourados (MS); Uberlândia (MG); Passo Fundo (RS), entre várias outras.
Consumo produtivo e especialização das cidades do agronegócio

O agronegócio possui inúmeras demandas de produtos, serviços e mão de obra. Assim sendo, as cidades do agronegócio são extremamente especializadas no atendimento a essas diversas demandas. De maneira geral, os agentes do agronegócio têm poder de impor especializações econômicas e espaciais cada vez mais profundas a esses espaços urbanos. Assim, as cidades do agronegócio são aquelas cujas funções inerentes ao agronegócio são, em vários casos e especialmente nas cidades menores, hegemônicas sobre as demais funções. Em muitas dessas cidades pode ser mais simples adquirir uma colheitadeira da geração 4.0 que um jornal impresso da capital do estado a qual pertence, evidenciando a supremacia do consumo produtivo para atender o agronegócio sobre o consumo consumptivo voltado à vida cotidiana dos citadinos.

Nas regiões onde se processam a reestruturação produtiva da agropecuária e a difusão do agronegócio, é recorrente que as cidades expandam suas economias urbanas associadas ao consumo produtivo. Tais cidades são marcadas, também, por processos migratórios significativos de pessoas que vêm em busca de trabalho. Tudo isso está entre os vetores de incrementos não só da economia urbana, mas também pode ser apontado como fator causal da (re)estruturação de várias cidades, de complexas relações campo-cidade, do incremento da urbanização e de novas regionalizações.

Em virtude de cada commodity(cana, soja, café, carnes, milho etc.) apresentar necessidades específicas de produtos e serviços (as da soja são diferentes das da cana-de-açúcar, que diferem das do milho que, por sua vez, são distintas das de produção de frutas tropicais etc.), as cidades do agronegócio são cada vez mais especializadas e, a despeito de haver inúmeras similitudes entre elas, suas respectivas economias apresentam distinções entre si, diferenciando, muitas vezes, os ramos do comércio e dos serviços associados ao consumo produtivo, assim como a própria (re)estruturação da cidade.

A economia urbana inerente ao consumo produtivo do agronegócio na cidade de Petrolina, em Pernambuco, que comanda importante região produtora de frutas (especialmente uva), guarda pouca semelhança com a economia urbana de cidades associadas à produção e transformação industrial da soja, como Luís Eduardo Magalhães, na Bahia (que compõe a chamada região de Matopiba), ou Sorriso, no Mato Grosso, entre outros exemplos.
Pobreza e desigualdades socioespaciais nas cidades do agronegócio

Considerando que a ideologia do agronegócio é muito poderosa e mascara a realidade criando um imaginário social favorável a ele, não é demais repetir que sua difusão é espacialmente seletiva, economicamente concentradora, socialmente excludente, ambiental e culturalmente devastadoras. Assim sendo, a crescente expansão do agronegócio tem gerado cada vez mais concentração de riquezas, pobreza estrutural, além de muitas desigualdades socioespaciais, e tudo isso está explícito nas cidades do agronegócio.

Nas áreas de difusão do agronegócio os agentes hegemônicos do segmento têm cada vez mais domínio sobre as terras, a tecnologia, a logística, os trabalhadores e, naturalmente, as esferas locais de poder. O forte imbricamento entre o público e o privado também é uma marca indelével das cidades do agronegócio, sendo comum agentes locais do agronegócio ocuparem cargos no executivo, no legislativo e em outras instâncias de poder, exercendo grande ingerência também sobre a produção do espaço urbano.

Tudo isso é mais uma evidência de que estamos diante de uma urbanização sob o comando e interesses das corporações do agronegócio, com reflexos perversos para o aumento da pobreza e a estruturação da cidade, que têm na segregação e na desigualdade socioespacial algumas de suas características principais. Dessa forma, muito embora as cidades aqui citadas tenham economias muito dinâmicas e se notabilizem pela especialização funcional, todas têm em comum tais características em sua gênese.

Tais cidades revelam novas faces da pobreza estrutural. Constituem-se, assim, como um recorte espacial que evidencia uma das formas perversas da inserção passiva do país na economia e no consumo globalizados. Então, não seria demais dizer que as cidades do agronegócio são o avesso do direito à cidade.

Ao lado de um reduzido número de beneficiados pela economia do agronegócio, cresce o número dos excluídos de tais benesses, aumentando a concentração de riqueza e de renda e isso se materializa nas cidades em questão, nas quais é possível identificar vários processos que se relacionam diretamente à forma desigual como se dá o acesso aos benefícios do crescimento econômico e da urbanização, deflagrando-se, assim, um crescimento urbano marcado por desigualdades de diferentes naturezas. Por conseguinte, as cidades do agronegócio reproduzem os mesmos problemas urbanos de todas as demais cidades do país, além de produzirem novas e mais complexas desigualdades socioespaciais.

Assim, enquanto a área habitacional de médio e alto padrão conta com importantes investimentos, tanto na construção de edifícios residenciais como em condomínios horizontais de altíssimo padrão, a maioria da população encontra-se em situação de déficit habitacional. A isso se somam também as características das moradias dos mais pobres, como a coabitação, dado o alto preço dos aluguéis, o grande adensamento dos domicílios alugados e a precariedade das residências, muitas vezes construídas de materiais rústicos e de forma improvisada, algo comum nos bairros mais pobres.

Importante ainda citar o crescente número de loteamentos clandestinos desprovidos de infraestrutura como eletricidade, drenagem, acesso à internet e saneamento básico, sendo comum o esgoto correr a céu aberto; áreas de ocupação em situação de risco ambiental; a total ausência ou a insuficiência de equipamentos sociais como escolas, postos de saúde, creches nas áreas habitadas pela população de menor renda; disseminação de vazios urbanos atrelados à especulação imobiliária, entre tantos outros. Por outro lado, também é possível encontrar a formação de favelas e cortiços.

As cidades do agronegócio são modelos reversos do direito à cidade para todos. São exemplos da riqueza cada vez mais concentrada e da pobreza e exclusão cada vez mais difundidas e materializadas em espaços extremamente segregados e desiguais.

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TAGSAGRONEGÓCIO, BRASIL, CAPITALISMO, CHAPECÓ, CIDADES DO AGRONEGÓCIO, COMMODITIES, DESIGUALDADE, DESIGUALDADES SOCIAIS, DIREITO À CIDADE, ECONOMIA EXCLUDENTE, NEOLIBERALISMO, PETROLINA, RIBEIRÃO PRETO, SINOP


DENISE ELIAS
Denise Elias é geógrafa e doutora em geografia humana, professora da UECE, pesquisadora do CNPq, da Reagri (Rede de Pesquisadores sobre Regiões Agrícolas) e da ReCiMe (Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias) e também colaboradora da Rede BrCidades.

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