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“As turbinas do velho sistema estão parando”. Entrevista com David Choquehuanca

Do IHU, 24 Junho 2022
Por Guido Vassallo, publicada por Página/12, 22-06-2022. A tradução é do Cepat


Em visita a Buenos Aires, onde celebrou o Ano Novo Andino, o vice-presidente e ex-chanceler boliviano garante que estamos diante de um momento de mudanças em que “não devemos ter medo de nada”.

Com a certeza de que estamos enfrentando um momento crítico em todo o mundo, David Choquehuanca conclama para perder o medo e questionar tudo. O vice-presidente da Bolívia afirma que o “modelo capitalista de desenvolvimento ocidental nos levou ao desastre” e por isso se faz urgente uma renovação liderada pelos jovens. Em visita a Buenos Aires, onde celebrou o Ano Novo Andino, Amazônico e Chaquenho 5530, Choquehuanca recebe o Página/12 e conclama os povos para acordarem porque “nossa Pachamama está prestes a sofrer uma catástrofe global”.

Choquehuanca nasceu em 7 de maio de 1961 na comunidade aimará de Cota Cota Baja, departamento de La Paz. É vice-presidente da Bolívia desde 8 de novembro de 2020. Anteriormente, foi ministro das Relações Exteriores da Bolívia entre 2006 e 2017, durante os três governos de Evo Morales. Foi naqueles anos que ele sugeriu mudar o sentido dos ponteiros do relógio da Assembleia Legislativa como um gesto de descolonização porque “se não queremos violar as leis da natureza, nosso relógio também tem que girar para o sul”.

Eis a entrevista.

Você está satisfeito com a sentença de dez anos de prisão para a ex-presidente de fato Jeanine Áñez?

Não se trata de ficar satisfeito com uma sentença, trata-se de fazer justiça. Olha, nossa democracia foi interrompida depois de 40 anos e em 2019 vivemos um ano de terror, de decepção, de repressão e de violação dos direitos humanos. Houve massacre. Todo mundo sabe disso. E nós, na nossa campanha, prometemos justiça. É a única coisa que buscamos, e quem administra a justiça não é o Poder Executivo nem o Poder Legislativo. A Justiça é um poder independente, são eles que têm de assumir a sua responsabilidade com o povo e com as vítimas.

Você disse há um mês que o povo boliviano está cansado de líderes que permanecem no poder para sempre. A que exatamente estava se referindo?

O mundo precisa de renovação. Há uma desordem global. Há incerteza, há caos. Precisamos de mudanças, de revolução de ideias. E quem devem ser os protagonistas? Os jovens; são eles que têm de despertar a sua criatividade, e não esperar que os mais velhos lhes digam o que devem fazer. Esses jovens têm que ter a capacidade de ler sua realidade, e o que temos que fazer é facilitar instrumentos para que esses jovens possam despertar sua rebeldia. Faltam líderes no mundo e os revolucionários querem mudanças. Somos sementes. Temos que semear. Se a batata não for plantada e não for renovada, ela desaparece.

No fim de semana se reuniu com o presidente Luis Arce e o ex-presidente Evo Morales, em um momento em que a mídia do seu país fala muito sobre divergências internas.

É bom haver diferenças. Se você não contradiz a ciência, ela não se desenvolve! Nós estamos em função do governo, a organização política que está em função do governo é o MAS-IPSP, e este tem seu presidente, que é Evo Morales. Nosso presidente em função é o irmão Luis Arce e o estou acompanhando como vice-presidente. E somos um governo de organizações. Nestas reuniões nos encontramos; não é a primeira nem será a última. Somos atores, podemos fazer muito pelo nosso povo e todas as questões devem ser discutidas.

Recentemente, ao visitar a Espanha, você defendeu que a democracia vista de uma perspectiva ocidental “autodestruiu-se”. Devemos ir para uma instância superadora?

Não devemos ter medo de nada. A cultura do medo e do ódio veio com o colonialismo. Temos nossa própria forma de organização na qual não se aceita submissão a ninguém. Em uma democracia, as minorias se submetem às maiorias. Existe a palavra submeter, e submeter o próximo não é bem viver, como roubar não é bem viver, como mentir não é bem viver. E o que buscamos é bem viver, buscamos a harmonia. Nossa luta é contra a submissão, não apenas entre os seres humanos, mas também com nossa mãe Terra. Temos que questionar palavras como democracia. Não temos que nos repetir como se fôssemos papagaios. Por que não podemos nos explicar a partir do nosso lugar? É hora de questionar tudo. Até o desenvolvimento permitimos que nos fosse imposto.

E como essa forma de desenvolvimento pode ser mudada?

É melhor se tomarmos nossas decisões por consenso. Consenso não é o que eu quero, consenso não é o que a irmã quer, consenso não é o que o vizinho quer, consenso não é o que o de baixo quer. O consenso é o que todos nós queremos. É saber encontrar o centro, o eixo, o taypi. É saber encontrar o eixo que põe em movimento uma sociedade, uma comunidade, uma organização. Precisamos estar em movimento. Tem que haver um processo de autointerpelação. Tem que haver uma revolução de ideias. As turbinas do velho sistema estão parando, e esse modelo de desenvolvimento capitalista ocidental nos levou ao desastre.

Em relação ao que propõe, durante seu mandato como chanceler propôs mudar o sentido dos ponteiros do relógio que se encontra no prédio do Congresso. Qual foi a base para tomar essa decisão?

O planeta é dividido em sul e norte pela linha do equador. Estamos no sul. No sul a sombra vira para este lado, no norte vira para o outro lado. Os marinheiros sabem disso: quando cruzam a linha do equador, mudam de direção. E como estamos no sul e não queremos violar as leis da natureza, nosso relógio também tem que girar para o sul. Muitas coisas nos trouxeram do norte. No Natal montamos nossas arvorezinhas com neve, como se estivéssemos no norte. Até o Papai Noel eles nos trouxeram. Mas as crianças da Bolívia dizem que, como o Papai Noel não é nosso, não o deixam entrar em casa, e por isso ele quer pular pela chaminé! (risos) Temos o nosso ekeko, que é a energia da abundância, do bem viver. Temos nossas próprias categorias econômicas, mas elas não são ensinadas nas universidades. A Europa não nos trouxe a civilização; trouxe-nos a barbárie. É por isso que na Bolívia falamos sobre o processo de descolonização. Temos que voltar a ser, porque não somos mais. E somos do sul!

Que sentimentos a vitória de Gustavo Petro na Colômbia gerou em você e o que pode significar para a região?

Todos nós nos alegramos com sua vitória. Alguns de nós comemoraram inclusive mais do que os colombianos. Esperamos que as coisas mudem na Colômbia. E Petro tem a autorização das urnas para que todos os males que o povo colombiano viveu sejam superados. Mas esse resultado também é uma fortaleza para a nossa região. Queremos que a nossa soberania seja respeitada. Queremos decidir por nós mesmos e não por forças extracontinentais. Precisamos construir integração. Se formos sozinhos a outros espaços multilaterais, não conseguiremos plasmar nossas ideias. Mas se formos juntos e nos sentarmos em pé de igualdade, por exemplo, com a União Europeia, não apenas nos ouvirão, mas também nos respeitarão.

Que balanço faz da última Cúpula das Américas? A Bolívia foi um dos países que se recusou a comparecer em solidariedade a Cuba, Nicarágua e Venezuela.

A Cúpula das Américas está em crise, assim como a OEA. Pergunte aos nossos jovens, já não estão mais interessados nisso. A realidade é que nem todos temos que pensar da mesma forma. Onde duas pessoas pensam iguais, dizem que uma não pensa. Nenhum país tem capacidade para enfrentar sozinho, por mais desenvolvido que seja, os problemas que são globais. Nós precisamos um do outro. Precisamos discutir como podemos evitar que a riqueza fique concentrada nas mãos de poucos. E tomar consciência de que nossa Pachamama está prestes a sofrer uma catástrofe global. E se houver essa catástrofe global, desaparecemos todos, os pobres e também os ricos.

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