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A fome na África agora sacode o Ocidente. Artigo de Domenico Quirico

Do IHU, 09 Junho 2022
Por Domenico Quirico


"A arrogância de Putin derrubou assim nossa esfuziante globalização, a revirou, com a chantagem do trigo, em seu oposto: a globalização da fome". escreve Domenico Quirico, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 08-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Maldito Putin! No Ocidente nos esforçávamos para fazer durar o máximo possível, o doce torpor do bem-estar e da paz. A convicção estava entocada na profundeza de nós mesmos, a globalização não era apenas uma vantagem para esta porção do planeta, mas estava tornando o mundo inteiro mais rico, também aquele dos despossuídos, chamados assim a participar do grande banquete dos consumos e das oportunidades universais. Era isso que nos mantinha a salvo até mesmo de escrúpulos e remorsos, mesmo que pudéssemos entrever as falhas. Livre mercado e democracia não viajavam justamente no mesmo ritmo? Para as autocracias, mais cedo ou mais tarde, dobrariam os sinos. Não nos preocupávamos mais, bancávamos alegremente os iluministas.

Ele, o autocrata, certa manhã declara a guerra, destrói, invade, separa, nos hiberna em um novo pessimismo. E em sua fúria para bagunçar o mundo que não lhe agrada, ele também interrompe sorrateiramente o comércio de grãos. Assim, ele nos obriga a uma inusitada ronda no repertório das coisas esquecidas, uma presença que pensávamos desaparecida: o pobre de matriz bíblica, o faminto, quem morre de inanição, o mendigo absoluto. Obriga-nos a adotar de novo a angústia pela pobreza tangível, biológica, psicológica e histórica. A pobreza se toca. Com esses pobres não se pode objetar, historicizar, dar meia-volta, ignorar e negligenciar. Imediatamente se desenrolam as nossas proposições bizantinas. As manchetes estampam dando voz ao alarme da ONU: existe o risco da maior emergência humanitária da história.

Sejamos claros: os pobres, os nossos pobres, nós os conhecemos bem, porque eles estão entre nós, tropeçamos em suas camas improvisadas até nos lugares mais chiques das capitais ocidentais.

Mas são aqueles que pudicamente chamamos de "novos" pobres, como se ser uma espécie até então desconhecida justificasse o escândalo de sua existência. Um problema de welfare claudicante, de recursos e rendas mínimas, de classes médias em crise, o longo Covid, para o qual existem mil fórmulas milagrosas para dar assistência e trazê-los de volta a médias numéricas aceitáveis. Afinal, consolamo-nos sociologicamente, haverá pobres enquanto houver ricos. Evitando acrescentar o parágrafo seguinte, que ninguém deveria ter o direito de ser rico enquanto houver um pobre.

Mas com a duplicação do preço do trigo, as exportações ucranianas bloqueadas nos portos, os fretes marítimos subindo por causa da guerra (o trigo viaja por mar, como nos dias de César), partes inteiras do mundo correm agora o risco de não conseguir alimentar a parcela predominante de seus próprios cidadãos, os indigentes para quem o pão sob inúmeras formas e nomes constitui (vendido a preço político ou doado) o frágil cotidiano contato com a possibilidade de sobreviver. Homens que não conhecem os caminhos do nada.

(Re)descobrimos criaturas absolutamente diversas, que não deveriam existir devido à forma como se configurou nossa ideia de mundo que foca no lucro, no sucesso, na garantia. Em vez disso, elas estão lá. Elas estão sozinhas, incompreendidas, contraditas, roubadas, clandestinas. No terceiro milênio, como em vão nos contaram com voz cada vez mais débil devido à decepção do silêncio, samaritanos longe de isolados e perdidos, apenas desoladamente sozinhos, milhões de homens sobrevivem se segurando em um pedaço de pão, ao preço de um pedaço de pão.

A guerra civil europeia, uma guerra infeliz e criminosa num lugar de que nunca ouviram falar, e cujos pretextos (a desnazificação, o Donbass, a guerra fria) resultariam para eles completamente incompreensíveis caso alguém tentasse explicá-los, a milhares de quilômetros de distância corta o fio da sobrevivência, lança-os na escuridão pré-histórica da fome.

Ontem o governo estadunidense ordenou aos governos africanos que não comprassem os grãos trazidos por navios russos, pois seriam saques de silos ucranianos. Raramente senti com tanta força a tremenda e implacável distância que separa o nosso mundo, o das sanções, da geopolítica, dos equilíbrios de poder, das eternas periferias geográficas e humanas.

Penso nos famintos que nada sabem de nossas brigas, fins de linha humanos onde a agricultura é mínima, as cabanas despojadas, a morte familiar, a rendição dada como certa. Milhares de favelas e aldeias na África e na Ásia, cada uma com sua própria pena. Notícias como a do massacre de uma igreja na Nigéria, que está prestes a se tornar a nova Somália africana, adquirem nessa emergência do trigo um desespero diferente.

Aqui é a luta primitiva eterna entre pastores e camponeses em uma terra morta que está em brasa sob uma luz, que grita, luta para sobreviver e volta a se levantar com uma ferocidade desesperada contra algo que vem antes mesmo de fé e fanatismos. A crise no comércio de grãos ainda não tem nada a ver com isso. É a desertificação que avança, está se lutando por uma poça de água ainda úmida, ou pelos campos ou pelo gado. Se o bloqueio e os preços continuarem altos, tudo isso se agravará e se multiplicará, afetará as metrópoles africanas onde os derrotados da desertificação buscam refúgio e assistência. As guerras mais ferozes estourarão, aquelas da fome.

A arrogância de Putin derrubou assim nossa esfuziante globalização, a revirou, com a chantagem do trigo, em seu oposto: a globalização da fome.

Redescobrimos o homem mais pobre do mundo, um emaranhado de histórias que parecem insolúveis. O homem mais pobre do mundo é certamente o habitante de um desses países africanos sobre os quais paira a sombra escura de uma nova carestia. Aliás, provavelmente é uma mulher, uma mulher africana. Eis o seu dia-a-dia: caminha por horas, carrega na cabeça uma carga que pode chegar até 50 quilos, nas costas seu último filho e muitas vezes outro que ainda não nasceu na barriga. Desde os dez anos tritura mandioca e cuida dos irmãos mais novos. Aos quatorze anos a fizeram casar, aliás, violar, outras vezes ela é simplesmente vendida como prostituta sem hesitação.

Pensemos nela quando tivermos de julgar a desmedida e culpada inutilidade desta guerra.

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