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Do Diálogos do Sul, 2 de Maio 2022 
Por SHIRLEY CAMPBELL BARR



Fotografia de Darwin Torres, usada sob permissão

ELEIÇÕES

Do ativismo à vice-presidência, Francia Márquez é símbolo de esperança para Colômbia

Proposta da candidata está centrada em construir a partir das bases e de forma coletiva, incorporando todas as populações historicamente excluídas

O nome Francia Márquez Mina ficou conhecido em 2018, após ela receber o Prêmio Goldman Environmental por protestar contra a mineração ilegal em sua comunidade. Hoje, é pré-candidata à presidência da Colômbia.

Seu posicionamento contra o racismo, patriarcado, corrupção e extrativismo na Colômbia transformou-a em um símbolo de resistência que representa milhões de pessoas afetadas pela desapropriação de terras, corrupção e violência.

A filosofia política de Márquez é inspirada em Ubuntu, uma palavra das línguas zulu e xhosa que significa “Sou porque somos”. Esse tradicional conceito sul-africano tornou-se o lema da pré-candidata, marcando uma filosofia de comunidade e interdependência. “Sou um elo da corrente e a corrente não se quebra aqui”, disse durante uma convenção feminista em 2021.

Sua proposta está centrada em construir a partir das bases e de forma coletiva, incorporando todas as populações historicamente excluídas. O foco de sua campanha e seus discursos são as mulheres, os povos indígenas e afrodescendentes e as comunidades LGBTQ+.

Ela visitou as principais cidades da Colômbia com grandes encontros, cheios de cor, música e esperança para aqueles que se identificam com a história, região e contexto social de Francia Márquez Mina, em contraste com as mesmas elites colombianas que costumam dominar a política.




Fotografia de Darwin Torres, usada sob permissão
Francia Márquez.

Prêmio Goldman

Ela recebeu o Prêmio Goldman, após um longo processo de ativismo comunitário que organizou com as mulheres do vilarejo de La Toma, nas montanhas de Cauca, para impedir a mineração ilegal de ouro em suas terras ancestrais em 2014. Márquez, então, liderou 80 mulheres em uma marcha de dez dias e 560 quilômetros até a capital da Colômbia.

Como resultado dessa ação, todos os mineiros e equipamentos ilegais deixaram o território. Ao aceitar o prêmio, Márquez evidenciou a sua liderança em questões ambientais, a consciência a respeito da luta afrodescendente e o comprometimento com a liberdade, justiça e verdade:

Sou uma mulher afrodescendente. Cresci em um território ancestral que data de 1636. Desde criança, somos ensinados o valor da terra. Sabemos que os territórios onde construímos a nossa comunidade e alimentamos a nossa cultura não são um presente, porque custou muitos anos de trabalho e sofrimento nas minas e fazendas escravistas aos nossos antepassados. As crianças, na minha comunidade, são criadas com base em valores como solidariedade, respeito e honestidade.

Assim, aos 36 anos, Márquez continua a denunciar uma situação que aflige não apenas a sua região, mas também muitos outros territórios ancestrais, pretos e indígenas. Ela até arriscou a vida em um país que, de acordo com a Anistia Internacional, é “o mais letal para defensores dos direitos humanos”.

Comunidades historicamente marginalizadas

Na Colômbia, grupos afrodescendentes estão entre as comunidades historicamente marginalizadas, já que são o resultado da escravização dos povos africanos. Hoje, continuam a ser vítimas de racismo estrutural, homicídio e migração forçada em razão de conflitos armados, tráfico de drogas e invasão de suas terras por companhias mineradoras e madeireiras.

Atualmente, Márquez faz parte do Pacto Histórico, uma coalizão entre partidos de esquerda e direita que realizou sua consulta nacional no dia 13 de março para escolher o candidato às eleições presidenciais da Colômbia em maio de 2022. Gustavo Petro, senador e ex-prefeito de Bogotá, lidera as pesquisas pré-eleitorais.

Colômbia: terra aos camponeses e fim do narcotráfico estão entre propostas de Petro

Diferentemente de outros pré-candidatos, Márquez não tem muita experiência na arena política. Apesar disso, ela se apresentou exatamente como é: advogada, mãe, chefe de família e líder comunitária preta que passou a maior parte da vida como ativista ambiental e defensora dos direitos humanos.

Até há pouco tempo, era particularmente conhecida em comunidades afrodescendentes e movimentos ambientalistas, mas o seu perfil e suas ideias têm se tornado cada vez mais visíveis, e a força com que se apresenta tem sido fonte de debate e uma surpresa para o país.

Durante a pandemia, e com as limitações quanto a aglomerações e praças públicas, a campanha de Márquez lotou as redes sociais com mensagens, encontros, fotos, música e o apoio de pessoas e grupos sociais.

Tumaco | Vamos da resistência ao poder #HastaQueLaDignidadSeHagaCostumbre (AtéQueADignidadeSeTorneCostume).
Este pacto é feito com as pessoas!

Para muitos colombianos, Márquez, mulher afro-colombiana e pré-candidata à presidência, já escreveu um novo capítulo na história da Colômbia. Essa mulher, que foi ameaçada de morte por conta de seu ativismo e viu companheiros e companheiras perderem a vida ao defenderem vidas, tornou-se referência não apenas para mulheres e meninas pretas como ela, mas para todas as pessoas afro-colombianas, a fim de que saibam que é possível escrever um futuro diferente.

Nessa linha, a primeira mulher preta concorrendo às eleições presidenciais na história da Colômbia concluiu a oficialização da candidatura com as seguintes palavras:

Digam à Colômbia que, após 200 anos, a neta das mulheres que foram queimadas vivas por conceber liberdade e dignidade para este país coloca todos os seus esforços, todo o seu amor, todo o seu compromisso para fazer da Colômbia um lugar melhor. Para que os nossos filhos e filhas possam viver em dignidade. Sou porque somos e, como povo, não nos rendemos, caramba.

Shirley Campbell Barr, para Global Voices.
Tradução de Luana Castro.

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