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As Américas e a civilização

Do A Terra É Redonda, 02 de Maio 2022
Por RICARDO MUSSE*



Barbara Hepworth (1903-1975), Discos em Echelon, 1935, Madeira Padouk, 311 x 491 x 225mm

Considerações sobre o livro de Darcy Ribeiro

As Américas e a civilização foi o segundo de uma série de estudos sobre a “antropologia das civilizações” realizados por Darcy Ribeiro durante o exílio. Trata-se, conforme o próprio autor, do livro mais importante da série, pois aborda diretamente o tema que a motivou: as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos.

Escrito em 1967 e atualizado dez anos depois, As Américas e a civilização destoa completamente do que se pratica hoje em antropologia. O descompasso fica patente tanto na pauta dos conteúdos – a formação e o processo evolutivo das civilizações – como na pretensão de tornar essa disciplina uma ciência abrangente, dotada da capacidade de unificar a totalidade das ciências humanas.

O livro certamente inspira-se no modelo, em voga na época, dos amplos panoramas históricos-culturais da antropologia neo-evolucionista americana. Propõe-se, no entanto, a submeter essas teorias a uma “revisão crítica”, contestando a naturalidade com que apresentam o processo de desenvolvimento humano, bem como o viés eurocêntrico que as orientam. Tarefa executada com o auxílio do marxismo, incorporado em uma perspectiva heterodoxa, e da primeira “teoria da dependência”, a de André Gunder Frank.

As Américas e a civilização pode ser descrito como uma espécie de elo perdido entre os estudos pioneiros de Gunder Frank e os trabalhos atuais sobre a geopolítica do sistema mundial. Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein privilegiam o acompanhamento do processo de acumulação, na chave braudeliana da “longa duração”. José Luís Fiori, seguindo os passos de Maria da Conceição Tavares, destacou o par “poder e dinheiro” e mais recentemente o papel das guerras entre as nações. Darcy Ribeiro, antes deles, procurou entender a desigualdade das nações como um resultado da defasagem dos processos civilizatórios.

O livro não se exime de apresentar uma teoria global do desenvolvimento histórico, desdobrada num esquema que classifica as sociedades conforme seu estágio na evolução sociocultural. A tipologia adota como eixo o “sistema adaptativo”, isto é, o modo como cada sociedade “atua sobre a natureza no esforço de prover sua subsistência e reproduzir o conjunto de bens e equipamentos de que dispõe”. A isso se conecta um “sistema associativo” (o conjunto de normas e instituições da vida social) e um “sistema ideológico” (composto de saberes, crenças e valores). As etapas da comparação correspondem, assim, ao desencadeamento de sucessivas revoluções tecnológicas: agrícola, urbana, do regadio, metalúrgica, pastoril, mercantil, industrial e termonuclear.

A precariedade e vulnerabilidade desse esquema evolutivo são, no entanto, contrabalançadas pela riqueza do material utilizado na composição do livro. Darcy mobilizou as mais diversas fontes: etnográficas, arqueológicas, históricas, econômicas, políticas, sociológicas etc. O conceito que congrega a ordenação dos conteúdos é o de “povos”. Estes são compreendidos não tanto como uma determinação (ou como cruzamentos) étnica ou cultural, mas como resultantes da interpenetração de sociedades com diferentes estágios civilizatórios.

A interpenetração das culturas decorrente da expansão européia teria conformado três tipos de povos na América. “Povos-testemunho” são os descendentes modernos das civilizações autônomas astecas, maias e incas: os mexicanos, guatemaltecos, bolivianos, peruanos etc. Os “povos novos” derivam da junção, no empreendimento colonial, de brancos, negros e índios, situação predominante no Brasil, na Colômbia, na Venezuela, nas Antilhas etc. Já os “povos-transplantados” correspondem às nações modernas criadas pela migração de populações européias: Canadá, Estados Unidos, Uruguai e Argentina.

Essa tipologia procura mapear os diferentes graus de incorporação aos modos de vida da revolução mercantil e da civilização industrial. Fornece pistas importantes, embora nem sempre as decisivas, para a compreensão de questões cruciais da história da América como o sentido da colonização, a desagregação do império espanhol em uma diversidade de nações e as causas da desigualdade nos padrões de desenvolvimento.

Se algumas partes do livro, como a exposição de sua ossatura conceitual, envelheceram, o ideal que o anima, uma ciência empenhada na superação das defasagens históricas, continua mais que nunca atual.

*Ricardo Musse é professor do Departamento de Sociologia da USP. Organizou, entre outros livros, China contemporânea: seis interpretações (Autêntica).

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, caderno mais!, em abril de 2007.

Referência

Darcy Ribeiro. As Américas e a civilização. São Paulo, Companhia das Letras. 528 págs.

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