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A crise financeira e o reset para as maiorias

Capitalismo depara-se com imenso tsunami de dívidas e não poderá superá-lo sem mudanças profundas. Elas podem ser de dois tipos: ou controle financeiro e social inédito sobre as sociedades, ou revisão geral das relações de moeda e crédito

Imagem: Davide Bonazzi


De OUTRASPALAVRAS, 13 de Maio 2022
Por Ellen Brown, no ScheerPost | Tradução: Vitor Costa

Na antiga Mesopotâmia, chama-ve de “Jubileu”. Quando as dívidas cresciam demais para serem pagas, os registros eram apagados. As dívidas eram perdoadas, as prisões dos devedores eram abertas e os servos voltavam a trabalhar em suas terras. Isso podia ser feito porque o rei era o representante dos deuses que diziam possuir a terra e, portanto, era o credor a quem as dívidas eram devidas. A mesma política aparece no Livro do Levítico, embora não esteja claro até que ponto esse Jubileu bíblico foi implementado.

Esse tipo de perdão generalizado de dívidas não pode ser feito hoje, porque a maioria dos credores são privados. Os bancos, os proprietários de terras e os investidores em fundos de pensão iriam à falência se seus direitos de reembolso fossem simplesmente eliminados. Mas temos um sério problema de dívida, que é em grande parte estrutural. Os governos delegaram o poder de criar dinheiro aos bancos privados, que criaram a maior parte da oferta monetária circulante como dívida com juros. Estes bancos criam a moeda dos empréstimos, mas não os juros. Por isso, mais dinheiro deve ser pago do que aquele que foi criado no empréstimo original. A dívida cresce mais rápido do que a oferta de dinheiro, como pode ser visto no gráfico abaixo. A dívida cresce até que não possa mais ser paga. Então, o registro é “limpo” por meio de alguma forma de quebra de mercado, como a crise financeira de 2008, geralmente aumentando a desigualdade de renda.



Hoje, o remédio para um acúmulo insustentável de dívida tem sido chamado de “reset”. Diferentemente do Jubileu, essas redefinições são necessárias após algumas décadas. A aceitação de uma moeda é baseada na confiança. Um “reset” altera a base de apoio desta moeda para restaurar a confiança, quando esta entra em colapso. No século XX, grandes redefinições de moeda ocorreram em 1913, quando o banco central dos EUA [Federal Reserve ] foi instituído após uma grande crise bancária; em 1933, após outra crise bancária catastrófica, quando o dólar foi desvinculado do padrão-ouro internamente e os depósitos foram garantidos pelo governo federal; em 1944, na Conferência de Bretton Woods, no ocaso da Segunda Guerra Mundial, quando o dólar americano lastreado em ouro tornou-se a moeda de reserva para o comércio global; e em 1974, quando os EUA finalizaram um acordo com os países da OPEP para que vendessem seu petróleo apenas em dólares, efetivamente escorando o dólar no petróleo, depois que Richard Nixon desatrelou o dólar do padrão-ouro em 1971. As manipulações do banco central também são uma forma de reset, destinadas a restaurar a fé na moeda ou nos bancos. Por exemplo, quando o presidente do Federal Reserve, Paul Volcker, elevou a taxa de juros dos títulos federais para 20% em 1980, e quando o FED resgatou os bancos de Wall Street após a grande crise financeira de 2008-09 com flexibilização quantitativa.

Mas essa flexibilização quantitativa não corrigiu o acúmulo da dívidas, que novamente atingiu níveis insustentáveis. De acordo com a Truth in Accounting , em março de 2022, o governo dos EUA acumulou uma dívida de US$ 133,38 trilhões, incluindo compromissos não financiados de Seguro Social e Medicare. Alguns países estão em situação ainda pior. O ex-banqueiro de investimentos Leslie Manookian declarou sob juramento que os países europeus têm 44 trilhões de euros em aposentadoris não financiadas, e não há fundos para cumprir essas obrigações. Praticamente não há mercado de títulos europeu, devido às taxas de juros negativas. A única alternativa é a inadimplência. A preocupação é que, quando as pessoas perceberem que os sistemas de previdência social e previdenciária que pagaram por toda a sua vida profissional estão falidos, elas irão às ruas e o caos se estabelecerá.

Daí a necessidade de outro reset. Os credores privados, no entanto, querem uma redefinição que os deixe no controle. Hoje, um novo tipo de redefinição preocupa muito, porque iria muito além de restaurar a estabilidade da moeda. Esse “Great Reset” promovido pelo Fórum Econômico Mundial condenaria o mundo a uma forma de feudalismo tecnocrático.

O Fórum Econômico Mundial é um grupo de empresários, políticos e acadêmicos de elite que se reúne em Davos, na Suíça, todo mês de janeiro. O “Great Reset” foi o tema de sua Cúpula (virtual) de 2021, baseada em um livro de julho de 2020 intitulado “Covid-19: The Great Reset”, de coautoria do fundador do Fórum, Klaus Schwab. Algumas das propostas do Fórum estão resumidas em um vídeo em seu site intitulado “Oito Previsões para o Mundo em 2030”. A primeira previsão é: “Você não possuirá nada. E você será feliz. O que você quiser, você vai alugar. E será entregue por drone.”

A proposta de Schwab redefiniria mais do que a moeda. Em uma reunião virtual em junho de 2020, ele disse: “Precisamos de um ‘Great Reset’ do capitalismo”. Mas, como observa o apresentador de talk show Kim Iversen, a solução proposta é mais capitalismo com um novo nome: “stakeholder capitalism”, onde só as corporações e seus acionistas possuirão propriedades. Cada cidadão terá uma conta no banco central e um ID digital federal obrigatório. Receberá um benefício social na forma de uma renda básica minimamente adequada – desde que mantenha uma pontuação de “crédito social” condizente. Sua moeda digital do banco central será “programável” – racionada, controlada e cancelada se o detentor sair da linha ou discordar da narrativa oficial. Os cidadãos serão mantidos felizes com games e drogas.

Segundo professor Yuval Harari, conferencisa e autor no WEF, “a Covid é crítica, porque ela convence as pessoas a aceitar, a legitimar a vigilância biométrica total…. Não precisamos apenas monitorar as pessoas, precisamos monitorar o que está acontecendo sob a pele.”

Harari está ciente dos perigos das ditaduras digitais. Ele disse em uma apresentação antes da pandemia em Davos em janeiro de 2020:

Em Davos, ouvimos muito sobre as enormes promessas da tecnologia – e essas promessas são certamente reais. Mas a tecnologia também pode perturbar a sociedade humana e o próprio significado da vida de várias maneiras, desde a criação de uma classe global inútil até a ascensão do colonialismo de dados e das ditaduras digitais.

Nós, humanos, devemos nos acostumar com a ideia de que não somos mais almas misteriosas – agora somos animais hackeáveis. … [Se] esse poder cair nas mãos de um Stalin do século XXI, o resultado será o pior regime totalitário da história humana…

Em um futuro não tão distante, … os algoritmos podem nos dizer onde trabalhar e com quem nos casar, e também decidir se nos contratarão para um emprego, se nos concederão um empréstimo e se o banco central deve aumentar a taxa de juros ….

Qual será o sentido da vida humana, quando a maioria das decisões forem tomadas por algoritmos?

A demolição econômica controlada

Antes que o jogo possa ser resetado, o tabuleiro deve ser limpo. O que faria as sociedades abrirem mão de sua propriedade privada, sobreviverem com uma renda básica mínima e submeterem-se a uma vigilância constante, interna e externa?

A pandemia global e os lockdowns que se seguiram contribuíram muito para chegar a este ponto. Os lockdowns não apenas eliminaram as empresas menores, mas também aumentaram as dívidas dos pequenos países, forçando-os a aumentar seus empréstimos do Fundo Monetário Internacional. O FMI é notório pelos seus empréstimos onerosos, que impõem medidas estritas de austeridade e a renúncia ao controle dos recursos naturais.

Em um artigo de junho de 2020, publicado no blog do FMI e intitulado “Do grande lockdown à grande transformação”, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, chamou a resposta política global à crise de 2020 de “Grande Lockdown”. Vejamos sua fala à Câmara de Comércio dos EUA:

Chamamos o período atual de “o Grande Lockdown” porque estamos lutando contra uma emergência de saúde que paralisa a produção e o consumo.

Em março daquele ano, cerca de cem bilhões de dólares deixaram os mercados emergentes e os países em desenvolvimento – três vezes mais do que durante a crise financeira global.

Mas em abril e maio — graças a uma injeção maciça de liquidez nas economias avançadas — alguns mercados emergentes puderam voltar ao mercado e emitir títulos com rendimentos competitivos, com emissão total de cerca de 77 bilhões de dólares. Isso foi quase três vezes e meia mais do que nos mesmos dois meses do ano anterior.

Em outras palavras, ao paralisar a produção e o consumo, o “Grande Lockdown” já havia conseguido, em junho de 2020, conseguido retirar dos mercados emergentes US$ 100 bilhões em ativos adicionais e atrela estes países a US$ 77 bilhões em novas dívidas.

Isso ajuda a explicar por que tantos países concordaram com o “Grande Lockdown” tão rapidamente, mesmo quando alguns sofreram poucas mortes por Covid-19. Esse confinamento era aparentemente uma “condicionalidade” necessária para obter um empréstimo do FMI. Pelo menos isso foi verdade para Belarus, que rejeitou a oferta. Como disse o seu presidente:

Pediram-nos para espelhar nossa resposta ao coronavírus à da Itália. Não quero que a situação italiana se repita em Belarus. Temos nosso próprio país e nossa própria situação. O FMI continua exigindo de nós medidas de quarentena, isolamento, toque de recolher. Isso não faz sentido. Não vamos dançar ao som de ninguém.

Ao contrário de Belarus, a maioria dos países concordou com as restrições, assim como as famílias e empresas presas na armadilha da dívida por uma economia em que a produção e o consumo foram paralisados. Como a maioria das economias emergentes, eles concordaram com quaisquer termos impostos para retornar ao “normal”.

Os lockdowns já foram suspensos na maioria dos países, mas a armadilha da dívida está prestes a ser acionada. A moratória sobre os aluguéis e a sobre a dívida estudantil dos EUA está chegando ao fim, e os atrasos acumulados precisam ser pagos. Os devedores incapazes de arcar com esse ônus poderiam ficar na rua, juntando-se à “classe inútil” descrita pelo Prof. Harari. Eles podem ser forçados a aceitar o feudalismo tecnocrático do Fórum Econômico Mundial, o Great Reset, mas esse não é o tipo de futuro que a maioria das pessoas deseja. Quais são as alternativas?

Um Jubileu Eurasiano?

Para a dívida soberana (a dívida dos governos nacionais), uma forma de jubileu é a imaginada por Sergei Glazyev, em conjunto com o sistema monetário alternativo que está sendo projetado pela União Econômica da Eurásia (EAEU), detalhado em meu último artigo. Glazyev é o ministro da Integração e Macroeconomia da Comissão Econômica da Eurásia, o órgão regulador da EAEU. Um artigo publicado por ele no The Cradle, intitula-se “Sergey Glazyev apresenta o novo sistema financeiro global”.

O novo sistema monetário mundial, sustentado por uma moeda digital, será apoiado por um conjunto de novas moedas internacionais e recursos naturais. E libertará o Sul Global da dívida ocidental e da austeridade induzida pelo FMI.

O artigo cita Glazyev, que afirma:

A transição para a nova ordem econômica mundial provavelmente será acompanhada pela recusa sistemática de honrar obrigações em dólares, euros, libras e ienes. Nesse sentido, não será diferente do exemplo dado pelos países emissores dessas moedas, que julgaram apropriado roubar reservas cambiais do Iraque, Irã, Venezuela, Afeganistão e Rússia na ordem de trilhões de dólares. Uma vez que os EUA, a Grã-Bretanha, a UE e o Japão se recusaram a honrar suas obrigações e confiscaram riquezas de outras nações que eram mantidas em suas moedas, por que outros países deveriam ser obrigados a pagá-los de volta e honrar seus empréstimos?

Em qualquer caso, a participação no novo sistema econômico não será restringida pelas obrigações do antigo. Os países do Sul Global podem ser participantes plenos do novo sistema, independentemente de suas dívidas acumuladas em dólares, euros, libras e ienes. Mesmo que eles não cumpram suas obrigações nessas moedas, isso não afetará sua classificação de crédito no novo sistema financeiro. A nacionalização da indústria extrativa, da mesma forma, não causará disrupção. Além disso, caso esses países reservem parte de seus recursos naturais para o suporte do novo sistema econômico, seu respectivo peso na cesta de moedas da nova unidade monetária aumentará na mesma proporção, proporcionando a essas nações maiores reservas de moeda e capacidade de crédito.

Isso pode eliminar em grande parte o excesso de dívida soberana nos países membros da EAEU. Mas o que acontecerá com os Estados Unidos e outros países ocidentais, que provavelmente não aderirão? Algumas possibilidades inovadoras serão abordadas na segunda parte deste texto.



ELLEN BROWN
Advogada, fundadora do Instituto de Banca Pública, e autora de doze livros, incluindo o best-seller "Web da Dívida". Seus mais de 300 artigos do estão no site EllenBrown.com


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