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Um tsunami alimentar no horizonte brasileiro

Guerra tornará comida ainda mais cara, ampliará a sombra da fome e permitirá ao agronegócio especular. Ficará clara a necessidade de transição agroecológica — para um campo livre de agrotóxicos e das leis selvagens de mercado


De OUTRASPALAVRAS, 1 de março 2022
Por Jean Marc von der Weid



Imagem: Os despejados (1934), de Cândido Portinari

É crucial um programa de “salvação nacional” para a questão da crise alimentar que, silenciosamente, vem assolando o povo de forma crescente, desde 2015 – e que o esboçarei, em uma série de artigos em Outras Palavras. Este artigo poderia se intitular “uma tempestade perfeita”, pois a situação que já era dramática, vai ficar desesperadora a partir dos efeitos da guerra da Ucrânia – ou melhor, da guerra russo/americana.

Em primeiro lugar, Rússia e Ucrânia são grandes produtores de trigo, milho e outros cereais ditos “menores” e óleo de girassol. São também grandes produtores de adubos químicos. Além de grandes produtores, são também grandes exportadores de todos os produtos citados. Não se pode esquecer que a Rússia é também um dos maiores produtores e exportadores de petróleo e de gás natural. O efeito imediato das reações do chamado “mundo livre” (estamos voltando a uma linguagem de Guerra Fria, totalmente anacrônica) à invasão da Ucrânia foi o aumento dos preços do trigo, que acabou arrastando os preços das outras commodities agrícolas. Este aumento tem a ver com a expectativa de desabastecimento de trigo a nível mundial e vai afetar todas as compras realizadas. Já está ocorrendo uma corrida dos países importadores da Rússia e da Ucrânia, buscando fornecedores alternativos. Ocorre que as reservas mundiais são razoáveis para condições normais, mas não para um choque desta natureza e vai faltar produto. Por outro lado, a seca em algumas regiões produtoras, como no Brasil e na Argentina (nosso maior fornecedor de trigo), diminui a disponibilidade interna (o Brasil produz em média 30% a 40% da demanda nacional) e a disponibilidade dos nossos vizinhos e fornecedores. A Argentina está controlando as exportações de trigo e outros produtos agrícolas, buscando garantir o abastecimento interno, isto mesmo antes da crise ucraniana acirrar a disputa de mercado. Haverá trigo na Argentina para suprir o nosso déficit da produção nacional? A que preços? Os preços internacionais do trigo já vinham subindo nos mercados internacionais de commodities, chegando a 12% de aumento em 2021. A expectativa inicial é que os impactos provocados pela guerra elevem os preços entre 18 e 24% este ano.

Para completar esta parte das más notícias, o Brasil tem outro choque de preços com a permanente instabilidade do dólar, que está dando um refresco nas últimas semanas, mas que tende a manter a trajetória de ascenso verificada ao longo dos últimos anos.

Ainda sobre os preços dos alimentos, temos que incluir na conta o aumento do custo dos transportes, provocado pelo bloqueio das exportações de petróleo e gás da Rússia. O valor do barril já chegou a 140 USD há duas semanas e caiu para patamares próximos dos 120 nos últimos dias. As oscilações são esperadas em função da conjuntura política e militar mundial, mas antecipa-se uma tendência de subida. De toda forma, os valores presentes do barril de petróleo já impactam toda a economia mundial. Inclusive os custos do transporte de trigo, ou de adubos químicos.

A guerra provocou uma parte dos problemas que estamos vivendo, mas uma outra tem origem na crise do aquecimento global. As secas intensas e extensas em várias partes do mundo se alternam com inundações cada vez mais destruidoras (o Brasil tem inúmeros exemplos recentes), com friagens intensas e prolongadas, furacões, ciclones etc. O clima está em guerra com a humanidade (respondendo aos ataques da humanidade contra o meio ambiente). Tudo isso já vem sendo antecipado pelos cientistas de todo o mundo reunidos no IPCC (International Pannel on Climate Change), que acaba de lançar um novo relatório, no qual anuncia que, se nada for feito rápida e radicalmente, o primeiro dos chamados “pontos de não retorno”, o aumento de 1,5 graus Celsius na temperatura média mundial em comparação com os valores do século 18, será alcançado até o fim desta década, dentro de nove anos. A previsão anterior é que este ponto de virada se daria em 2050, mas a expansão das emissões de gases de efeito estufa acelerou o processo.

O ponto de não retorno significa uma situação a partir da qual a possibilidade de reversão da tendência ao aquecimento continuado e acelerado se torna muito difícil, senão impossível. Isto se explica pela eclosão de uma série de efeitos que se retroalimentam para ampliar seus impactos e acelerar a marcha para novos patamares de aquecimento, os 3 graus Celsius e os 6 graus Celsius que poderiam ser alcançados antes dos anos 50 e 100 deste século, respectivamente. Segundo as mais moderadas avaliações, no caso extremo o mundo seria inabitável na maior parte da sua área e a vida na parte habitável seria muito desagradável. Tudo isto sem falar que os processos gerados pelo aquecimento levariam ao caos social em todo o mundo, ao que se chamou de guerras climáticas e gigantescas migrações das populações originárias das regiões mais afetadas. O mundo tal como o conhecemos vai desaparecer de forma muito dolorosa e essa é a herança que estamos deixando para os nossos filhos e netos.

Para agravar os problemas provocados pelo aquecimento global e pela guerra na Ucrânia, temos, no Brasil, problemas de política pública que vêm de longe, mas que foram intensificados neste governo, como ocorreu com tantos outros temas. Para começar, o governo não reconhece que existam problemas de abastecimento, muito embora os estoques de produtos agrícolas nas mãos do Estado estejam praticamente zerados. Há alguns estoques nas mãos de empreendimentos privados, embora de pequeno volume. Mas não se pode contar com estes estoques para regularizar o mercado e fazer cair os preços, pois justamente o sentido dos açambarcadores privados é jogar no desabastecimento para fazer subir os preços e aumentar os seus lucros.

O governo Bolsonaro acha que resolveu o problema da fome com o auxílio emergencial de 400 reais, com prazo de validade até 31/12/2022. Além de trocar o nome do programa social conhecido inicialmente como Bolsa Escola, nos tempos de Fernando Henrique, e Bolsa Família nos tempos de Lula e de Dilma, o governo diminuiu a taxa de cobertura social e aumentou os valores sem procurar identificar as diferenças de necessidade entre os mais pobres e os menos pobres. Para a categoria dos miseráveis, os que vivem com menos de R$ 100 de renda familiar per capita, os 400,00 reais deixam as famílias muito longe da capacidade de se alimentar adequadamente. O pior, entretanto, é que este valor está sendo corroído dia a dia pelo conjunto de crises que afeta o acesso e o custo dos alimentos.

Alguns podem achar que o trigo não tem tanta importância assim para os mais pobres, mas a realidade tristíssima do perfil nutricional dos brasileiros aponta para uma ingestão cada vez maior de derivados do trigo, como pães, biscoitos e massas, assim como um crescente consumo de produtos ultraprocessados (“enlatados”), com baixa qualidade nutricional e um uso pesado de aditivos químicos, sal, açúcar e gorduras trans. Por outro lado, o consumo de feijão e arroz, bem como o consumo de hortaliças e frutas e de carnes está em queda livre há seis anos. O “prato nacional” entre os pobres (para além dos que garimpam restos nos lixões) é miojo com salsicha. Pois bem, o aumento do preço do trigo vai bater direto neste modelo perverso de consumo e derrubar ainda mais a ingestão alimentar dos pobres em quantidade e qualidade. Vai piorar, e muito, a fome explícita que afeta 20 milhões de brasileiros e brasileiras, a fome oculta que afeta 57 milhões de outros e outras, comendo menos do que seria necessário e comendo produtos de pior qualidade nutricional, e a mal nutrição que afeta 40 milhões que “enchem barriga” com dietas totalmente desequilibradas do ponto de vista nutricional.

Um outro fator de encarecimento dos alimentos é o custo dos adubos químicos. Este não tem efeito imediato, pois a safra que será afetada ainda vai ser plantada e só será colhida no fim do ano e início do ano que vem. Mas é toda a agricultura brasileira que vai ser atingida. Vai ser muito difícil achar adubo químico para importar com a disputa internacional pelo produto. E por que vai pesar tanto a perda da produção de adubo russo? A verdade é que a produção de adubos químicos depende de alguns insumos, sobretudo minerais como fósforo e potássio e de petróleo e gás. Já se sabe que o petróleo vem sofrendo aumentos regulares de preço há anos, devido à exaustão dos superpoços do Oriente Médio e ao custo cada vez maior de se extrair o produto seja do pré-sal brasileiro, dos poços do Mar do Norte ou das areias betuminosas dos Estados Unidos e Canadá. Também já comentamos do aumento recente da cotação do barril devido à guerra. Tudo isto vai fazer com que a produção dos adubos nitrogenados fique mais cara. Lamentavelmente, este é um adubo químico em que poderíamos ser autossuficientes, mas Temer e Bolsonaro acabaram tanto com a produção da Petrobrás como com os planos de expansão do produto nacional. Quanto aos outros dois adubos, os fosfatados e os de potássio, dependemos de uns poucos países produtores destes minérios. As reservas mundiais de fósforo já estão sendo consideradas em declínio e não tem dado resultado os enormes investimentos na pesquisa de novas jazidas. As de potássio são mais volumosas, mas as avaliações para sua durabilidade não ultrapassam a metade do século. Em ambos os produtos, o Brasil depende de importações, inclusive da Rússia. Apesar do maciço cerco dos países “ocidentais” à Rússia, o governo Bolsonaro ainda não disse se vai aderir ao boicote ou se vai manter as importações e exportações. Mas pode ser indiferente a decisão do presidente que foi se abraçar com Putin e declarar solidariedade às vésperas da invasão da Ucrânia. O fato é que a exclusão da Rússia dos sistemas de financiamento em nível mundial, bem como a sua exclusão dos sistemas de seguros, vai tornar o comércio de e para a Rússia inviável. Sim, vamos precisar achar outros fornecedores de adubos químicos. E não vai ser fácil. Não há estoques mundiais destes produtos nem de longe suficientes para suprir o vácuo deixado pela Rússia. Ampliar as produções dos principais exportadores também não é coisa que se materialize de pronto. Para piorar, o governo está dizendo que não vai faltar adubo e não parece estar tomando alguma medida para enfrentar o problema – a não ser o projeto de lei abrindo a exploração de minérios, em geral em terras indígenas. Este projeto não é mais do que o aproveitamento oportunista da carência de potássio no Brasil, para fazer o que Bolsonaro sempre pretendeu, acabar com as reservas indígenas. As jazidas de potássio em terras indígenas são de pequena monta e exploração tecnicamente difícil e provavelmente nem encontrarão investidores interessados, mas a porta do projeto abre-se para explorar qualquer coisa.

Na falta de adubos químicos, o que vai acontecer? A produção do agronegócio brasileiro (e do mundial) está baseado no sistema de sementes melhoradas pelas empresas, adubos químicos, agrotóxicos e maquinário pesado, inclusive aviões. São grandes monoculturas homogêneas que agridem em muitas formas o meio ambiente, mas para funcionar precisam que as sementes recebam a quantidade recomendada pelas pesquisas em termos de adubos. Se esta quantidade for menor que a indicada haverá um impacto no rendimento das plantas. Acredito que o impacto será generalizado em todas as culturas, mas algumas sofrerão mais do que outras, sobretudo as voltadas para o mercado interno sofrerão mais do que as voltadas para exportação. Por quê? Porque os empresários agroexportadores têm mais bala na agulha do que os outros. Podem pagar mais e isto vai ser o divisor de águas como é normal em um sistema capitalista. É de se prever, portanto, que os empresários do agronegócio (ou do agronegocinho) responsáveis pela produção de trigo, arroz, feijão, mandioca, milho (o de consumo humano, não o de ração animal), frutas (fora a laranja, que é exportada) e hortaliças vão ter quebras de safra devido ao uso insuficiente de adubos. Resultado: menos produtos e preços mais altos. Mas isto vai ser para o ano que vem.

Quem vai nadar de braçada neste caos são os produtores orgânicos e agroecológicos, que não usam adubos químicos nem agrotóxicos. Eles são agentes sinalizadores do futuro da agricultura, mas no curto prazo são muito poucos para compensar as imensas perdas da produção do agronegócio.

Pensando no futuro, um governo com um mínimo de bom senso deveria procurar a paulatina substituição dos produtos químicos na agricultura, primeiro trocando insumos industriais como adubos e agrotóxicos por equivalentes orgânicos. Há um enorme potencial de produção de adubos que se combina com investimentos em sanidade. A FINEP financiou estudos sobre a compostagem de lodo de esgoto e lixo urbanos e tem planos bem preparados para promover o tratamento maciço destes poluentes. Investimentos desta natureza poderiam e deveriam ser estendidos para setores da indústria, cujos restos poderiam ser aproveitados ao invés de irem poluir o meio ambiente. Somente este esforço de saneamento, que teria impactos enormes na saúde da população, permitiria uma tremenda economia no uso de adubos por parte do agronegócio, mesmo sem mexer nos seus sistemas produtivos de monoculturas homogêneas.

Produzir alimentos para a população brasileira vai cobrar um esforço governamental de apoio à agricultura familiar que ainda está pouco contaminada pela commoditização do agro. Para que isto dê certo vai ser preciso financiar investimentos nas propriedades, apoio técnico em agroecologia e garantia de preços compensadores e de compras governamentais que abasteçam tanto os serviços como a alimentação escolar como os programas sociais. Não vai ser tudo resolvido do dia para noite pois estes processos são complexos e delicados, mas é o único caminho viável a seguir. Por outro lado, também vai ser preciso atrair o agronegócio para a produção alimentar nacional, além de fazer um esforço sistemático de importações, enquanto não for equilibrada a oferta de alimentos de acordo com as necessidades básicas de todos os brasileiros e brasileiras.

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JEAN MARC VON DER WEID
É um economista agrícola e ambientalista brasileiro. Foi presidente da UNE, entre 69/71. É fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA) e ex-membro do CONDRAF/MDA 2004/2016.

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