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Lógica disruptiva do capital rentista

Em conclusão antecipada, diremos hoje que o miolo da “crise existencial” da classe trabalhadora, aliada e motivada (e motivadora) da crise de hegemonia, é igualmente fomentadora da crise sistêmica, e das crises ideológica e política resultantes.


ARTE: DAVID PLUNKERT


Do Blog da Boitempo, 13 de Abril 2022
Por Vinício Carrilho Martinez e Marcos Del Roio



No miolo da Sociedade de Controle – em implementação, pelo menos, desde a década de 1970 –, as famosas crises sistêmicas (crises dentro de crises) são o mote de sua funcionalidade: a crise é movedora do próprio sentido do capital. Veremos o exemplo do sistema rentista, com a “pulverização dos capitalistas” (a baixo custo: R$10), desmanchando no ar qualquer capacidade analítica e crítica. A classe trabalhadora virou acionista, partícipe do sistema que lhe expropria antes, no cotidiano do trabalho, e premia, depois, com rendimentos e dividendos. Assim, falar-se em “crise existencial” não será uma mera provocação. É a realidade “acionada pelos acionistas” (trabalhadores e capitalistas) que se nega a negar o óbvio.

Há uma série de crises do capital dentro de outras crises, por exemplo em 2008 (subprime) – quando se vendeu e comprou papéis (dívidas) por mais de setenta vezes, numa pirâmide de insolvência – e há uma bolha especulativa prestes a explodir: o preço das ações das empresas nos EUA, no mercado, está avaliado entre duas e três vezes o próprio valor patrimonial dessas mesmas empresas (P/VP: preço sobre valor patrimonial). Além disso, a razão entre preço e lucro cresce em dimensão semelhante: com P/L (preço sobre lucro) esticado, o retorno da aplicação pode demorar duas dezenas de anos para acontecer.

Em algum momento uma parcela significativa dos investidores – ou poucos investidores com valores bilionários – começará a vender suas ações e aí a bolha explodirá, o sistema se auto regulará para baixo, o valor nominal dos ativos se desqualificará rapidamente e milhares ou milhões de pessoas perderão quantidades enormes do seu investimento. Um diferencial entre os EUA e o Brasil está no fato de que lá se priorizam as ações de crescimento (valor nominal dos tickers) e aqui a preferência está no acolhimento dos dividendos e rendimentos. Por isso, perder valor de face nos ativos tem efeito bombástico nos EUA – possivelmente maior do que no Brasil, uma vez que priorizamos o número de cotas possuídas (ainda que nem todos tenham essa inclinação).

Em todo caso, pode-se dizer que vivemos crises dentro de crises. A bolha que estoura lá traz ventos carregados de raios para cá, num enorme efeito borboleta. Não há dúvidas – e é isso que as pessoas pensam ou sentem, mesmo não sendo analistas de sistemas, economicistas especializados ou cientistas políticos, ou cientistas sociais que aprofundam suas análises macroeconômicas.

O capitalismo rentista tem muitas particularidades que escapam ao modelo tradicional do chão de fábrica e dos capitães da indústria – comparativamente à origem do chamado capitalismo industrial –, basicamente: compra e venda de força de trabalho livre, e consumidor da própria mercadoria produzida.

Uma das grandes diferenças é a sedimentação nos mercados de ações. A questão muda um tanto de configuração porque os acionistas estão pulverizados pela sociedade, independentemente dos grandes bilionários ou dos controladores deterem a parte mais relevante do controle acionista. São esses que divulgam, por exemplo, os “fatos relevantes”, onde se atribuem, entre coisas, o percentual de lucro a ser repartido, a periodicidade, e onde também se apresenta a configuração da rentabilidade almejada para os períodos seguintes.

Mas, por que, exatamente nesse modelo, a questão entorta as planilhas ou as cartilhas dos explicadores ou dos críticos? Sem contabilizar excessivamente os aportes ideológicos, é seguro dizer que fica mais difícil combater o capitalismo quando milhões/bilhões de pessoas (mundo afora) participam de seus lucros e “se sentem” premiadas.

No Brasil, chegamos a 4 milhões (aproximadamente 2%) de investidores na B3: “bolsa de valores a mercado”, com entrada de cotistas no atacado, digamos assim. Porém, nos EUA a margem social rentista chega ou ultrapassa os 60-70% da população.

Esse apego à renda passiva, ganhar sem mover um músculo – a não ser comprar mais ativos no home broker –, não é apenas ideológico (semovente da crítica ao sistema), como é aderente à lógica do sistema: quanto mais investir em empresas seguras ou em expansão (mas, igualmente seguras), aumentando insistentemente o montante das cotas (nas carteiras de ativos), mais se ganhará no retorno dos dividendos ou na valorização das referidas cotas, e mais se sentirá, o trabalhador-acionista, “motivado a torcer pelo crescimento do sistema”.

A lógica capitalista se incrusta nas mentalidades por ação direta dos indivíduos-acionistas, posto que toda semana, todo mês, vai-se ao home broker livremente para aportar mais e mais. É um viciante efeito este de “comprar dinheiro” ou seus rendimentos. Por isso, o capitalismo rentista é tão aderente: as pessoas acompanham instantaneamente seus ganhos ou perdas. Não é cassino, porém, é igualmente viciante.

Vejamos: se o indivíduo aplica todos os centavos que pode poupar, não é óbvio que ele não irá atuar contra o sistema pagador de dividendos?

O mesmo raciocínio se aplica aos capitães da indústria, mas com outra contradição ainda: o antigo dono da empresa (ou acionista majoritário) pode muito bem ser o indivíduo que tem sua empresa “alavancada”, ou seja, endividada. No entanto, em cenários de crise como esse atual (para além da inflação), assim como foi em 2014-2015 – com absurda sonegação e evasão fiscal, “falindo-se a capacidade de gestão e empenho estatal” –, ao invés de amortizarem as dívidas ou inverterem capital no próprio negócio, os “empregadores alavancados” aplicam no sistema financeiro, especialmente bancário. Sem essa inversão de capitais, o ROE empresarial (retorno sobre o patrimônio) é dissolvido, uma vez que sem investimento não há como haver retorno de lucratividade.

Ora, por que o “empregador alavancado” aplica no mercado de renda passiva ou em fundos, ou outros ativos, se ele é tomador de empréstimos do mesmo sistema financeiro que lhe tira o negócio com a cobrança de taxas absurdas? Esta é uma das pontas soltas do capitalismo rentista e de suas crises dentro de crises.

Do outro lado da economia, estão os remediados ou pobres que ainda sonham, e ainda que seja a classe trabalhadora expropriada no dia a dia, aquela do tradicional chão de fábrica. Na data de divulgação da partilha dos dividendos, sua emoção muda de cor, porque “pensa que está ganhando tostões para reinvestir no seu futuro”: uma carteira de dividendos e rendimentos para a aposentadoria, livre do INSS, da contribuição pública.

É obvio que esse sentimento de “pertencimento” aos lucros das empresas – pensando que se está comprando uma parcela das empresas, como “dono minoritário” – faz as cabeças perderam os sinais da vivência no trabalho, como fomento da própria “consciência de classe”. E nos torna, por fim, movedores da própria crise do sistema rentista, “democratizando-se a culpa”, por assim dizer.

Na outra extremidade do sistema rentista de bolhas altamente explosivas está a concentração de capitais em indivíduos bilionários, que almejam o sonho de se tornarem “o primeiro trilionário do planeta”. Com milhões, bilhões de pessoas, fora de qualquer sistema de trabalho, sem capacidade consumo, mínima dignidade ou com a qualidade de vida zerada.

A extrema miséria cumulativa expõe a mais grave crise do sistema capitalista, simplesmente porque mais da metade da população mundial não está na lista dos trabalhadores livres e consumidores – da própria mercadoria por ele (potencialmente) fabricada.

Há crescente convulsão pela performance das Pessoas Jurídicas (PJ), cada vez há menos trabalhadores ligados aos direitos trabalhistas, tanto quanto cresce a “uberização” (o trabalho intermitente); contudo, a “pejotização” e a “uberização” – resultados do modelo de capitalismo rentista – crescem junto com os aportes na B3: a aposentadoria virá pelos rendimentos e dividendos, uma vez que a “carteira assinada” foi revogada (na prática) pelas reformas trabalhistas e previdenciárias, no Brasil.

Toda essa dinâmica de modelagem e de exterioridade, portanto, (a)condicionam a “normalidade” dissolvente e de extrema volatilidade. Portanto, a lógica disruptiva do capital rentista equivale à perspectiva, às funções, à integridade do sistema e o seu funcionamento.

Bibliografia complementar
SHOSHANA, Zuboff. Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma civilização de informação. In: BRUNO, Fernanda et.al. Tecnopolíticas da vigilância: perspectivas da margem. São Paulo: Boitempo, 2018.

Tecnopolíticas da vigilância: perspectivas da margem



Organizada por Fernanda Bruno, Bruno Cardoso, Marta Kanashiro, Luciana Guilhon e Lucas Melgaço, Tecnopolíticas da vigilância: perspectivas da margem contempla os resultados das pesquisas e dos debates promovidos pela Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), que opera, desde 2009, como um importante núcleo de reflexão do Sul global sobre as práticas e as instâncias da vigilância. O livro analisa tanto o desenvolvimento de novas formas de vigilância e controle quanto a experimentação de resistências e subversões que dialogam com elas. O desenvolvimento tecnológico em torno da captação, do processamento, do armazenamento e da correlação de dados produziu novas formas de vigiar e ser vigiado. Desde as câmeras de vigilância, o rastreamento de compras e as operações algorítmicas nas tecnologias digitais até o uso de chips e drones, as teias da vigilância se alastram, tornando-se não somente temidas, mas também banalizadas, naturalizadas e muitas vezes desejadas.

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Vinício Carrilho Martinez é cientista social e professor associado da UFSCar.
Marcos Del Roio é professor titular de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autor de Os prismas de Gramsci: a fórmula política da frente única (1919-1926) (Boitempo, 2019).

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