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Em um mundo desumano, não basta apenas ser bom

Do IHU, 13 Abril 2022
A opinião é de Francesco Piccolo, escritor e roteirista italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 12-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Essa guerra fez com que não houvesse mais espaço para o discurso humano genérico, aquele que vai bem para qualquer evento trágico ou notícia, com o qual se tranquilizava o leitor dizendo-lhe que somos ambos bons e, portanto, não poderá acontecer nada a nós.

Eis o artigo.

“A sobrevivência de um discurso humano em um mundo onde tudo se apresenta como desumano.” É uma frase que Italo Calvino pronunciou em uma conferência em 1976 e na qual ele se distancia de algum modo da tarefa que, há algum tempo, segundo ele, foi dada aos intelectuais e, especificamente, aos escritores, nas páginas dos jornais.

Independentemente da importância que os jornais tinham nos anos 1970 e da que têm hoje, é uma questão que ainda existe, e é a tarefa que ainda é dada aos escritores, e que os escritores assumem, como se fosse um automatismo. Se ocorre uma violência, um evento apocalíptico, um ato terrorista, há o relato vivo feito pelos enviados, e depois há o espaço dedicado ao discurso humano que um pedaço de comentário realiza, dizendo o que é bom e o que é mau, quanto os seres humanos são mais e como deveriam se tornar bons.

É disso que Calvino se distancia, dizendo, aliás, que geralmente o discurso humano consiste em pronunciar afirmações gerais sem qualquer responsabilidade prática. E esse é o ponto.

Até agora, até ao início desta guerra e, portanto, há muitas décadas, era possível assumir o papel (questionável, mas legítimo) de quem desenvolve o discurso humano em um mundo desumano. Isto é, assumir a tarefa e o papel dos bons. Tudo isso durou muitas décadas. E, para alguns incautos, ainda dura, nestas semanas.

Mas, na realidade, esta guerra tão próxima e complicada – apesar da clareza de quem agride e de quem é agredido – quebrou um hábito ao qual todos estavam sujeitos. Até o momento em que o desumano se apresentou muito próximo e mais desumano, a ponto de nos relembrar aquilo que durante décadas consideramos como terríveis fatos históricos do passado (ou fatos de terras distantes, e para quem queria fazer um discurso humano essa já era uma contradição candente) era muito fácil ser bom. Foi somente durante a guerra na ex-Iugoslávia que provamos a inutilidade do discurso genérico e bom – mas havíamos sido capazes de retomá-lo rapidamente.

Agora, talvez, o discurso humano se despedaçou para sempre. Aprendemos a conhecer os nomes de todos os correspondentes de todos os jornais ou de todos os telejornais, e fizemos justiça à grandeza do jornalismo in loco; mas as vozes de comentário – se não forem de especialistas e, portanto, não genéricas – estão se apagando. E não sentimos a falta delas.

A palavra “paz” pronunciada de modo genérico caía bem em tempos de paz. Mas agora é uma palavra muito mais complexa e difícil de destrinchar. Complexa demais para ter que aceitar a necessária hipocrisia de ver violadas as leis intransponíveis que regularam as relações entre as nações durante décadas e reagir com as sanções sobre o carvão e apenas algumas sobre o gás.

É terrível demais o pensamento de entrar em guerra para defender direitos e civis, e terrível demais o pensamento de aceitar indefesos o horror. Também é difícil demais aceitar a ideia (que de alguma forma deve ser aceita) de negociar com Putin e encontrar um compromisso. Imprudente e genérico demais defini-lo como Hitler e, com isso, virar as costas ao horror.

Qualquer afirmação genérica, qualquer discurso humano, esbarra contra dúvidas e problemáticas complexas. Basta pensar no que ocorre naquela semana enquanto dizemos que, com encontros diplomáticos, em uma semana se poderia encontrar uma solução. Queremos não nos envolver, queremos ficar longe da guerra, queremos que o horror acabe, queremos que os limites dos direitos humanos não sejam ultrapassados. Mas já estamos dentro de tudo isso, e os meios para sair daí são muito diferentes e mais complicados do que os que tínhamos antes de entrar.

Essa guerra fez com que não houvesse mais espaço para o discurso humano genérico, aquele que vai bem para qualquer evento trágico ou notícia, com o qual se tranquilizava o leitor dizendo-lhe que somos ambos bons e, portanto, não poderá acontecer nada a nós.

De agora em diante, a tarefa, longe de ser genérica, é entender: não como é possível que os homens sejam capazes de tudo isso, mas como fazê-lo parar.

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