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Vianna Sobrinho: A medicina de dados desafia o SUS

Quarenta anos de transformações tecnológicas mudaram a medicina. Uso de dados e evidências tornou-se onipresente. Mercado tira proveito deles para controlar e acumular lucros. Será possível resgatá-los, utilizando-os a favor do comum?



De OUTRASAÚDE, 21 de Março 2022
Por Gabriela Leite


Em entrevista à jornalista Andrea Vilhena, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE), o médico e pesquisador Luiz Vianna Sobrinho, lançou uma provocação urgente aos que lutam pelo SUS e seu avanço. Ele sugere aos defensores da Reforma Sanitária voltar os olhos à Medicina de Dados. Ela estará cada vez mais onipresente nas atividades de Saúde, pensa Vianna. É preciso disputá-la. Em meio à quarta revolução industrial, o SUS deveria recuperá-la em favor da Saúde e dos brasileiros – e não de corporações. “É muito importante que o próprio pensamento sanitário aproveite as transformações tecnológicas em prol de um bem coletivo, porque o mercado dominou a medicina de alta tecnologia”, resume.

Para esclarecer seu ponto de vista, Vianna traça um panorama histórico a partir das últimas décadas do século XX, quando a tecnologia – e a economia – passaram a se relacionar de modo muito mais intenso com a medicina. Nesse mesmo período, o SUS era concebido. “Ao nascer, ele encampa, num momento histórico, as ideias da Declaração de Alma Ata [adotada em 1978, após conferência da OMS no Cazaquistão] e prioriza a atenção primária sabiamente como um projeto político, um projeto de grande reforma social, entendendo a saúde como uma grande oportunidade para uma reforma social, como uma verdadeira revolução de transformações sociais.”

Mas, prossegue Vianna na entrevista ao CEE, a crítica à biomedicina e ao cientificismo – corretas do ponto de vista político – acabaram afastando as racionalidades científicas e as práticas ligadas à alta tecnologia do campo de preocupações dos que lutavam pela criação do SUS, naquele momento. “É realmente uma proposta política forte, mas não há uma proposta científica tão forte à mesma altura”, explica. O pensamento sanitarista acabou por rejeitar a medicina de alta tecnologia e entregou-a de mãos beijadas ao mercado – que tratou de se aproveitar financeiramente dela. “O desenvolvimento das ciências médicas, consideradas tecnologias hard ligadas à atenção hospitalar e à medicina terciária, praticamente foi dominado pelo mercado e levou com isso toda a classe médica”, prossegue Vianna.

As mudanças da medicina também convergiram para a mercantilização da saúde, ensina o professor na entrevista. As transformações tecnológicas do final do século XX levaram a uma quebra de paradigma significativa: se antes o conhecimento médico individual era o mais importante, com o passar dos anos ele vai dando espaço às evidências científicas que surgem a partir da análise de grandes populações, da bioestatística. Saem de foco a doença, o paciente e seus sintomas particulares, e ganha cada vez mais importância a Informação. “A doença vira informação, o risco vira informação, a tendência vira informação. E essa informação é algo que está difuso, não está exatamente no corpo biológico do paciente.”

Para constatar a importância dessa tendência, basta considerar a pandemia: é preferível que um médico receite medicamentos como a cloroquina, baseado apenas em seu conhecimento individual e tratamento de seus pacientes, ou analise e considere as pesquisas científicas que comprovaram sua ineficácia? Mas, sob a égide do neoliberalismo, a medicina baseada em evidências e as tecnologias de informação e dados tomaram caminhos tortuosos. “Assim como a parte médica biológica de saúde pode ser reduzida ou transformada na objetividade plena dos dados, a sua parte financeira também, avança o médico, na entrevista.” Os dados passam a ser usados não somente para encontrar melhores tratamentos, mas em nome da gestão clínico-financeira – e do lucro. “Tem-se falado em medicina baseada em valor, que é a entrega de melhores resultados por um preço mais baixo”, revela Vianna.

Será possível resgatar a medicina de dados das mãos do mercado? O SUS não pode se permitir perder essa quarta revolução, como fez nos anos 1990, durante a revolução tecnológica, eletroeletrônica, com a chegada da tecnologia dura, opina o pesquisador. “O SUS tem que encontrar uma forma de ocupar esse espaço que desde cedo o mercado já vem ocupando”, defende. A medicina privada está passos à frente, e já está montando estruturas de capitalismo de dados e utilizando algoritmos para a produção de lucro. Prepara-se, segundo ele, um iFood da saúde. “Aqueles que pensam na reforma da reforma têm que estar atentos para usar o momento para desenvolver uma política de saúde que encampe a revolução da informação, mas com a visão da coletividade, com a visão que norteia o Sistema Único de Saúde”, finaliza. Mas como? Em uma conversa informal com Outra Saúde, Vianna afirmou: “Minha missão é provocar o debate para isso”.


GABRIELA LEITE
Gabriela é editora, designer e produtora audiovisual de Outras Palavras.

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