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O lado sombrio do mundo

Do A Terra É Redonda, 06 de Março 2022
Por JOÃO SETTE WHITAKER FERREIRA*



A Ucrânia, o fim da humanidade, ou a vitória suicida de sua santidade, a mercadoria

A humanidade foi subsumida pela mercadoria. As armas são a mercadoria perfeita da sociedade da mercadoria total. O seu grave problema é que, inevitavelmente, elas destruirão seus próprios criadores e, assim, a própria humanidade.

Me desculpem o tom dramático, pessimista, mas há momentos da história em que precisamos encarar as coisas como são. Até mesmo para poder pensar melhor como superar os impasses em que nos metemos, nós, digo, a humanidade.

Na atual era da hiperinfomação, somos às vezes levados a pensar que a vida está cada vez melhor, que pesadelos como Bolsonaros e Trumps são fenômenos cíclicos que vão perder para a democracia, que podemos lutar por um mundo melhor, que supere os impasses da desigualdade e da sua insustentabilidade ambiental. As lutas por novas pautas importantes, das identitárias à ambientalista, insufladas dentro das nossas bolhas virtuais, talvez às vezes desviem nosso olhar do mundo como ele é.

Sobretudo os mais jovens, têm a impressão de que há muitas injustiças, mas as transformações comportamentais vão afetar positivamente as novas gerações e veremos enfim as transformações para um mundo melhor. Dentro das desgraças, há alguma perspectiva de otimismo. A tecnologia, traduzida em milhões de máquinas e gadgets eletrônicos, se acessível a todos, parece nos dar enorme potencial de evolução. Esses são os desafios.

O lado sombrio do mundo é escondido pelos filtros da internet, e para quem não queira encarar a compreensão da dura realidade da desigualdade estrutural que mundialmente se aprofunda e nos empurra para o abismo, do crime organizado, das milícias, das fake news ou da Deep Web, pode-se vislumbrá-los de forma enviesada pelos olhos dos documentários da Netflix. Caso incomode demais, mudamos de canal para discutir os comportamentos no BBB.

Então, os choques de realidade, quando ocorrem, são certamente cada vez mais violentos. Uma guerra que explode assim, aparentemente por uma única motivação de poder de um indivíduo, parece para muitos algo medieval. Uma estupidez sem fim de homens brancos e velhos – sem dúvida, o é –, algo inimaginável em pleno Séc. XXI. Para muitos, como se viu recorrentemente estes dias na grande mídia ocidental, é uma guerra impensável e bárbara, pois desta vez atinge “europeus loiros de olhos azuis” e não “sírios, muçulmanos ou afegãos”, como estamos habituados.

A mídia ocidental se apressou em desenhar em Vladimir Putin um cavaleiro do mal (que ele não deixa de ser, de fato), um psicopata de plantão ainda crente que pode conquistar o mundo como à época de Hitler, enfrentando a Europa e os EUA, os guardiões da democracia e do “mundo livre”, para usar as palavras de Joe Biden em seu discurso. Essa visão simplista e maniqueísta “esquece” de informar alguns “detalhes”, como a expansão contínua da OTAN para o leste nas últimas décadas, ignorando reiteradas reclamações da Rússia, ou ainda os anos de conflitos e massacres na região industrial ucraniana, de população russa, do Donbass, em que não foram poucas as acusações contra a Ucrânia de armar milícias paramilitares oriundas de grupamentos neonazistas (em confronto com mercenários pagos pela Rússia, do outro lado), e o desrespeito pela Ucrânia e o Ocidente dos acordos firmados sobre essas duas questões, sob o auspício da ONU.

Nada disso justifica uma guerra ou a invasão de uma nação independente, obviamente, mas ao menos permitiria ponderar um pouco a análise dos acontecimentos. Mas não, na visão maniqueísta e simplificada que é divulgada para estes lados do mundo, o que parece é que essa guerra, e todas as guerras em geral (menos aquelas lideradas pelos EUA em defesa do “mundo livre”, é claro), são eventos fortuitos, saídos das mentes diabólicas de alguns líderes do mal que, se não existissem, permitiriam um mundo de paz e harmonia. Se não houvesse um Putin, não teríamos essa guerra, a Ucrânia estaria em paz participando da Europa e tudo estaria resolvido.

Infelizmente, as coisas não são bem assim. A realidade é que a guerra é consequência de um modelo, o da sociedade da mercadoria total. E quem mais sofre, é a população inocente, como os civis ucranianos à mercê de um líder um tanto irresponsável (que apela, para fins de comunicação e mídia, para que civis inexperientes se armem com coquetéis Molotov para combater um dos três exércitos mais potentes do planeta, como bem apontou o jornalista Kennedy Alencar).

Nem Joe Biden, nem Vladimir Putin, nem Volodymyr Zelenskyy, nem nenhum líder europeu, ninguém é santo. Aliás, não se trata de uma questão pessoal, embora eles tenham individualmente a responsabilidade de fazer as coisas (ruins) acontecerem. O problema, é bem maior: é o complexo militar-industrial que representam ou, em última instância, a sociedade na qual todos nós vivemos.

Adam Smith mostrou, muito tempo atrás, que a divisão do trabalho, ao longo da transição do feudalismo para o capitalismo, levou à uma explosão da capacidade produtiva, muito além da necessidade de subsistência, e à possibilidade de acúmulo de capital excedente, reinvestido na produção. O bom velho Marx observou que esses excedentes só eram possíveis porque se implementou o assalariamento, que determinou um patamar de pagamento pelo trabalho, independentemente da quantidade produzida.

Ou seja, quanto mais o trabalhador produzisse, por um mesmo salário, mais haveria “excedente” (o que levou ao rápido desenvolvimento do maquinário que permitia produzir sempre mais com a mesma força de trabalho), na verdade uma parcela do valor obtido com a venda da produção, porém não repassada aos trabalhadores. Essa parcela correspondia ao mais-valor (que costumam traduzir por mais-valia), isto é, o lucro do capitalista. Daí a mobilização política quase imediata em torno da evidente contraposição de classes, entre, de um lado, o capitalista dono dos meios de produção e retentor dos lucros e, do outro, o operariado vendedor da sua força de trabalho por baixos salários. Assim, a luta de classes seria a tônica do pensamento marxista desde a virada do século passado e ao longo de boa parte dele.

O que Karl Marx também observou era que essa fórmula mágica que permitia reproduzir dinheiro a partir do dinheiro, só seria possível se se completasse o ciclo básico necessário à transformação da mercadoria em dinheiro, a saber, a sua venda. Era a fórmula clássica D-M-D’, pela qual o dinheiro (D) se transforma em mercadoria (M) que, quando vendida, permite a obtenção do mais valor, ou seja, dinheiro em quantidade maior (D’). É um raciocínio simples: se não se vender o que se produz, não será possível obter lucro e reinvestir na produção (além de se enriquecer, é claro). Sobrarão mercadorias, tornadas inúteis e sem sentido.

Aliás, vale observar que todas as grandes crises do capitalismo, em termos simples, giraram em torno dessa equação: ou se produz demais, gerando superprodução que não se consegue escoar, ou se paga de menos, gerando incapacidade de consumo, inviabilizando também a equação. A mais simbólica e didática dessas crises foi a de 1930, da qual todos devem algum dia ter visto as imagens dos pátios da Ford lotados de carros que o magnata da indústria automobilística não conseguia mais vender. Mas em 2008 também ficaram famosas as casas nos EUA sendo vendidas pelos bancos por um dólar, na tentativa desesperada de transformar novamente a mercadoria em dinheiro.

Essa equação tem uma importância central para a compreensão do mundo em que vivemos. Quanto mais mercadorias produzirmos, mais dinheiro será gerado, mais lucro acumulado. Assim, os rumos da nossa sociedade passaram a ser determinados por essa lógica simples: produzir sempre mais mercadorias e, evidentemente, transformar tudo e qualquer coisa em mercadoria: coisas mais palpáveis, como o petróleo, a água e, mais tarde menos tarde, o próprio ar que respiramos, mas também coisas imateriais e menos palpáveis, como as relações sociais e culturais, como as nossas mentes, abduzidas pela obsessão do consumo e do status da possessão material.

Nunca antes na história da humanidade tanta gente no mundo se submete à lógica implacável do consumo pelo consumo. A produção tornou-se tão eficiente que ela produz mercadorias para todos, dos mais ricos, aos mais pobres. O pensador alemão Robert Kurz se referia à nossa sociedade capitalista como “a sociedade da mercadoria total”.

A questão central, por trás disso, é que essa emancipação constante da mercadoria como combustível de toda a sociedade implica na necessidade imperiosa do que alguns autores chamam de sua realização. A mercadoria, como dissemos, precisa ser vendida para realizar-se enquanto mercadoria. Esse é um círculo vicioso que só pode crescer exponencialmente e que, se algo não mudar, levará ao nosso próprio fim. A observação de que nosso planeta já não aguenta mais esse ciclo infinito de destruição ambiental em nome da mercadorização da vida, é o sinal mais evidente disso. Mas uma guerra nuclear também pode ser, embora deixemos essa possibilidade para as séries da Netflix.

Por muitos anos, enquanto crescia aceleradamente o capitalismo e era evidente o conflito de classes e a exploração do operariado, deu-se menos importância à essa centralidade ontológica da mercadoria, embora Marx tenha chamado a atenção a isso, em sua reflexão sobre a sua fetichização. Ela seria novamente apontada por autores mais recentes do Marxismo, dentre os quais se destaca, entre outros, Anselm Jappe (ler sobre isso seu livro As aventuras da mercadoria). Marx observara, em O capital, que as mercadorias não são capazes, por si só, de “irem ao mercado e serem vendidas”. Elas precisam de nós para realizar-se.

A mercadoria tomou conta da humanidade e transformou-nos no que Marx chamou de seus “guardiões”. A mercadoria, para realizar-se enquanto tal, precisa socializar-se. Ela transformou-se em um “ser” material, mas ao mesmo tempo abstrato, que subsumiu (como dizem meus colegas do Direito) sob suas asas a totalidade das nossas relações sociais. A partir disso, construíram-se complexos aparatos sociais, jurídicos, políticos, culturais, voltados a garantir uma única coisa: a realização da mercadoria e, evidentemente, o lucro e o poder que isso traz aos seus guardiões. Assim, essa sociedade em que vivemos, a sociedade do consumo total, é simplesmente aquilo que deriva do modelo de produção capitalista de mercadorias.

Pois bem, agora a pergunta que vale milhões (já que estamos falando em dinheiro): quais a mercadorias mais perfeitas jamais criadas pelos homens (sim, aqui vale a distinção de gênero) na história da humanidade? São duas: as armas, e as drogas. E é por isso que essas são as indústrias que mais movimentam fortunas, legal ou ilegalmente, no mundo atual. Na esfera das mercadorias comuns, a durabilidade que era a marca de qualidade dos produtos durante algum tempo, tornou-se um perigo para o sistema: se as mercadorias durassem para sempre, o capitalismo se esgotaria, por falta de quem comprasse produtos novos (embora provou-se que, se o capitalismo fosse distributivo, beneficiando também os mais pobres, esse prazo seria bem mais longo.

Mas faz parte também da lógica vender o mais caro possível, ou seja, para aqueles que mais podem). Rapidamente inventou-se a tal da obsolescência programada, um jeito de fazer com que os bens produzidos tivessem vida curta, para que fosse necessário substituí-los por novos. Pois bem, as armas são mercadorias perfeitas porque por definição elas se autodestroem e, portanto, são infinitamente renováveis. Além do mais, sejamos francos, matam geralmente os mais pobres e mais descartáveis, os “sem mercadoria”.

Quanto mais se usar, mais será necessário produzi-las. As drogas também se consomem em enorme velocidade, e também matam bastante. Entram, portanto, na mesma lógica. Mas como não matam alvos predefinidos e descartáveis, e se infiltram também na sociedade de consumo dos demais produtos, são oficialmente combatidas, embora oficiosamente toleradas.

Quando o capitalismo entrou na profunda crise em 1930, percebeu-se que se tratava de uma crise de subconsumo. O nível de emprego e de remuneração na Europa e na América do Norte, centros da industrialização, não era suficiente para sustentar a necessidade sempre maior de realização da mercadoria. O ciclo ameaçava-se romper, e a solução encontrada foi – segundo o modelo proposto por John Keynes – impor a mediação do Estado para garantir o assalariamento mínimo para se constituir as sociedades de consumo de massa que aqueles países se tornaram e, anos depois, “globalizou-se” mundo afora.

A sociedade da mercadoria total consolidou-se na sociedade do consumo global (sempre para os que podem), o que dá mais ou menos na mesma. Mas que ninguém se engane: o que realmente permitiu essa retomada econômica foi mesmo a indústria da guerra. Como apontou o economista norte-americano E. K. Hunt, “de 1936 a 1940, os economistas debateram acaloradamente os méritos da teoria de Keynes e da receita de políticas [públicas]. Entretanto, quando os vários governos começaram a aumentar rapidamente a produção de armas, o desemprego começou a diminuir. Durante os anos da guerra, sob o estímulo de enormes gastos governamentais, a maioria das economias capitalistas se transformou rapidamente, passando de uma situação de grave desemprego para uma escassez aguda de mão-de-obra” (HUNT, “História do pensamento econômico”).

Robert Kurz escreveu certa vez, em artigo publicado aqui pela Folha, que o capitalismo, ao contrário do que se pensa, não nasceu exatamente na Revolução Industrial. Ele identifica o surgimento e a generalização da arma de fogo, ainda no séc. XIV, ou seja, muito anterior à máquina à vapor, como um ponto decisivo na gênese do capitalismo, com a necessidade da produção em série de canhões e, posteriormente, demais armas de fogo, que exigiria a mediação do dinheiro para sua aquisição e assim fomentaria uma economia militar e armamentista permanente, impulsionando também a profissionalização dos exércitos, com os soldados sendo, nas suas palavras, “os primeiros assalariados modernos” (KURZ, Robert. “A origem destrutiva do capitalismo”, in: Folha de S. Paulo, 30 de março de 1997).

Então, voltemos a falar da Ucrânia. É simples e seria até bastante bom se pudéssemos pensar que guerras como a que lá ocorre são fruto (apenas) de mentes más. Não o são. O que está em jogo é o controle do mundo e os espaços de domínio de cada um dos três grandes complexos industriais-militares que hoje hegemonizam o mundo. Desde a Segunda Guerra, eles não pararam de crescer. E não pararam também de produzir armas nucleares, suficientes para explodir a terra inteira milhares de vezes. Se a China está calada, observa atentamente o teatro do conflito para resolver sua estratégia. Talvez aproveite a ocasião para recolocar em questão o seu desejado domínio sobre Taiwan.

A União Soviética e seu bloco de países, ao longo da Guerra-Fria, muito embora tenham sido denominados de comunistas, alimentando assim um “anticomunismo” tosco que até hoje deixa rastros nos bolsominions da vida, não lograram implementar o comunismo tal qual propunham Marx e o movimento operário da sua época. Com aspectos melhores e outros piores para a sociedade em relação ao mundo ocidental (tive a sorte de poder atravessar a União Soviética em 1981, época do Leonid Brejnev), o fato é que aquele modelo divergia do capitalismo em relação à apropriação estatal (não ousaria dizer “coletiva”) dos excedentes e a distribuição planejada centralizadamente de seu reinvestimento, mas ainda assim era uma sociedade também ela estruturada em torno da produção de mercadorias e do valor.

Ou seja, lá também se tratava de uma lógica social subsumida pela dinâmica do aumento imperativo da produção de mercadorias. Kurz, mais uma vez, apontou isso com clareza, ao chamar aquele modelo de “capitalismo de Estado”, que também dependia da capacidade de escoamento de sua produção. A URSS havia crescido industrialmente enquanto a depressão dos anos 30 assolava o mundo ocidental, e a anexação, ao fim da Segunda Guerra, de uma porção significativa do território europeu, está obviamente relacionada à necessidade de garantir mercados de consumo.

Chegamos então ao começo do fim deste longo texto. As movimentações geoestratégicas de hoje em dia não são mais apenas conquistas territoriais como à época da antiga Roma. Elas dizem respeito à disputa pela delimitação das áreas de influência e controle para os diferentes complexos militares-industriais e seus mercados de consumo. Sim, podemos dizer que nossos notebooks e celulares são parte da razão dessa guerra ou, neste caso, ao menos o dos europeus.

O fim da Guerra Fria, que acabou com o Pacto de Varsóvia e, segundo muitos gostariam, deveria ter acabado também com a OTAN, determinou o encerramento de um regime político, mas não extinguiu de fato o complexo militar-industrial a ele atrelado. Pelo contrário, a adesão da Rússia a um modelo capitalista explícito só intensificou a disputa econômica entre os grupos que dominam a sociedade mundial da mercadoria total. Por isso, a OTAN nunca parou de se movimentar, a contragosto dos russos, evidentemente.

Trata-se, para os EUA e seus aliados europeus (que desde o fim da Segunda Guerra perderam de vez sua autonomia nessa disputa geoestratégica, alinhando-se automaticamente com os norte-americanos), da garantia de manutenção de mercados. Por isso a Europa aceitou de tão bom grado incorporar os países da ex-URSS quando esta desmoronou, rapidamente colocando um grande número deles sob as asas militares da OTAN. Por isso a China disputou e retomou o controle de Hong-Kong, e nunca abrirá mão de disputar o controle sobre Taiwan.

Mais do que isso, o fortalecimento econômico do Oriente Médio e a inserção das fortunas oriundas desses países na economia global (por meio de times de futebol, por exemplo), aumentam os jogadores desse xadrez. Nesse campo, a presença dos magnatas russos no jet-set econômico mundial (agora sendo banidos da Europa com seus iates estratosféricos por causa da guerra), mostra o quanto a política econômica russa, baseada em um controle centralizado na pessoa de Putin e no favorecimento a esses players globais de seu entourage próximo, manteve a estratégia de se imiscuir nas teias de interesses dos negócios globais, tornando tudo cada vez mais intrincado, mas sempre girando em torno da sagrada “mercadoria”.

O que dizer, então, do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, que quando estadista capitaneou a construção do famigerado gasoduto com a Rússia, tornou-se coincidentemente “amigo” de Putin e acabou como membro da direção da filial europeia da companhia estatal russa de gás, a Gazprom, e do conselho diretivo da gigante energética russa Rosneft? Ou ainda de Hunter Biden, filho do presidente dos EUA, contratado como diretor jurídico da Burisma, conglomerado gigante de gás da…Ucrânia? Pois é, as coisas não são nada simples.

A rigor, o mundo “civilizado” e globalizado do século XXI faz com que todas essas disputas se deem por meio da diplomacia, das manobras econômicas das grandes corporações, devidamente sustentadas por seus Estados nacionais, ou das chamadas guerras híbridas, misto de guerra política, cibernética e informacional, que levaram por exemplo a algumas “revoluções de primavera” um tanto quanto duvidosas por aí. Tida como algo novo, a guerra híbrida é uma evolução das táticas amplamente praticada pela CIA na América Latina desde a década de 50, interferindo em inúmeros golpes, acidentes e atentados que mudaram os rumos dos países sob sua influência direta. Evidentemente, ela também foi e é amplamente praticada pela Rússia e pela China, em suas áreas de influência.

Mas apesar dessa roupagem de civilidade, a indústria da guerra continua sedenta por expandir-se. Os EUA gastaram 700 bilhões de dólares na Guerra do Golfo e, como se sabe, não foram poucos os conflitos levados a cabo pela potência norte-americana, sem tantas reações quanto agora, claro. Tampouco a Rússia e a China deixaram de se meter em suas guerras. Nesse sentido, a “guerra ao terror” serviu de combustível perfeito para o aparato militar-industrial das grandes potências, ainda mais contra civilizações que todas elas olham com desdém. Um campo ideal para guerrear e fazer rodar a indústria armamentista.

Mas, enquanto isso, sorrateiramente, a tensão direta entre essas potências nunca se arrefeceu de fato. E agora estoura em mais uma guerra. A coisa não vem de hoje. No mínimo, começa com a divisão territorial da Europa que se seguiu ao desmonte da União Soviética. O problema é que desta vez a guerra pode de fato ser nuclear. As armas são a mercadoria perfeita da sociedade da mercadoria total. O seu grave problema é que, inevitavelmente, elas destruirão seus próprios criadores. E, se ocorrer, a civilização da mercadoria terá dado um ponto final a si mesma, e à humanidade como um todo. O mundo morrerá entulhado de Mac Books e celulares.

Quem sabe a terra, enfim livre dos guardiões da mercadoria, se recuperará ambientalmente? Como não sou pessimista, prefiro não crer nesse trágico fim (para nós, não para a terra). Mas um bom começo para qualquer mudança é termos uma real noção do que de fato se trata, antes de cair nas baboseiras maniqueístas que a grande mídia nos faz engolir.

*João Sette Whitaker Ferreira é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

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