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Melanie Klein e o direito de sentir

Psicanalista procurou entender as ambivalências afetivas e o desafio de dar lugar ao amor e ódio que sentimos. “A vida psíquica existe para lidar com a passagem do tempo”, afirmou. Revista Cult apresenta sua obra, no mês em que faria 140 anos


De OUTRASPALAVRAS, 15 de Março 2022
Por Elisa Maria de Ulhôa Cintra e Marina F. R. Ribeiro na Revista Cult



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> Este texto é parte da edição 279 da Revista Cult — parceira editorial de Outras Palavras. O número reúne um dossiê sobre a psicanalista austríaca Melanie Klein. Veja o índice completo e conheça o espaço Cult no OP

Melanie Klein é amplamente reconhecida como uma das mais importantes e originais sucessoras de Sigmund Freud. Por que Melanie Klein? E por que hoje?

“Pensar na transmissão do legado de Klein leva diretamente aos efeitos que seus escritos vêm produzindo e à infinidade de autores que a seguiram pelo mundo afora. Trata-se, pois, de uma obra seminal, cujas concepções contêm sementes de futuros pensamentos, suscitando, alimentando e criando uma posterioridade viva. Não há dúvidas de que o alcance de um autor se mede em sua posterioridade, em sua capacidade de nutrir o pensamento e suscitar novas formas de fazer terapêutico e compreensões conceituais”, conforme escrevemos em Por que Klein?.

Klein nos coloca diante do desafio de conviver com a complexidade de nossas emoções e de nossos estados mentais, do início ao fim de nossa vida. Observando seus próprios filhos e a si mesma no começo do século 20, percebeu nossa intensa turbulência afetiva: o que fazer com nosso amor e nosso ódio? Precisamos aprender a intimidade com a vida psíquica. Reconhecer a necessidade de sermos amados e compreendidos. Talvez seja isso o mais importante, o mais simples e o mais difícil de ser vivido; e é tão acalentador quando pode acontecer. Ser compreendido e sustentado em nossa turbulência e ambivalência afetiva é um bálsamo que nos humaniza.

Melanie nos brindou com uma referência diagnóstica simples e extremamente importante: uma criança que não brinca está adoecida, algo nela está em sofrimento. Hoje, é comum indicar uma criança para o processo analítico – essa foi uma contribuição fundamental dela para a psicanálise. Apresentamos aqui breves exemplos de pacientes infantis, e de que forma a análise lhes trouxe condições favoráveis para atravessar as angústias em que estamos imersos desde o início da vida. A vida psíquica é instável e nossos recursos para lidar com o sofrimento são frágeis.

Muitas perdas significativas desde o início da vida deixaram em Melanie Klein marcas profundas e a levaram a dar atenção às inevitáveis separações afetivas e à exigência do processo de luto em adultos e crianças. A partir disso ela criou a teoria da posição depressiva, que é a intuição genial de que a vida psíquica existe, fundamentalmente, para lidar com a passagem do tempo e com a transitoriedade de tudo, com a necessidade de deixar passar o passado e a exigência de recomeçar a investir novos amores e projetos.

Freud nos trouxe a constatação de que dentro de nós se movem forças inconscientes sem medida e sem controle racional, muito além de nossa ingênua crença na força da racionalidade humana. Não somos senhores de nossas próprias terras. Por sua vez, Klein completou a descoberta freudiana ao conceder direito de cidadania às angústias: nascemos imersos em um caos de emoções, que vão se organizando de forma gradativa em um amálgama extremamente complexo do encontro com o mundo e com nossos primeiros grandes amores – mãe e pai, ou qualquer outro nome dado aos que nos recebem no mundo. Chegamos desamparados, à deriva de sensações corporais, acometidos por intensas angústias; por mais bem acolhidos e amados que possamos ser, todo início é difícil e desafiador. Freud e Klein são dois autores do mal-estar humano, dos desafios intermináveis, das contínuas elaborações e sublimações que a vida exige, um enfrentamento inescapável da realidade, impermeável a nossos desejos.

Klein teve a ousadia de dizer que somos acometidos por sentimentos invejosos desde o início da vida. O que isso quer dizer? Que sonhamos com um estado de plenitude sem incômodos, sem frustração e sem dor e, ao mesmo tempo, imaginamos que alguém tem a posse desse estado e está roubando de nós esse Paraíso na Terra. Seria a mãe? O analista? O vizinho? O irmão? A pessoa pela qual nos apaixonamos? Quando somos tomados por inveja, sonhamos com o sentimento oceânico, um estado em que não há falta nem turbulência. Klein democratizou o sofrimento humano: todos nós somos em alguma medida invejosos, tudo é uma questão da intensidade dos sentimentos que predominam. Quando intensa, a inveja destrói o vínculo com os outros e consigo mesmo; é um sentimento que destrói o próprio psiquismo e nos impede de sentir alegria de viver e gratidão.

As oscilações são uma constante na mente humana; entristecemos, sentimos culpa, nos humanizamos ao perceber que fomos violentos, destrutivos, vorazes, invejosos. Da mesma forma que Asclépio, o médico ferido que aprendeu a curar, Melanie ensinou a arte humana da reparação, de cuidar das feridas da alma, em si e nos outros. A gratidão surge desse estado reflexivo, ciente de nossa fragilidade e desamparo e de que precisamos dos outros para sermos nós mesmos. Os vínculos nos constituem, com toda sua ambiguidade de emoções, amor e ódio sempre presentes.

A capacidade de ser grato a quem cuida e cuidou de nós – figuras parentais, irmãos, amigos ou analistas –, além de ser o melhor antídoto contra a inveja, ajuda-nos a fazer as pazes com a condição humana, cujo núcleo central é um estado de desamparo diante das realidades mais irredutíveis, como a falta, a perda e a morte.

Somos gratas à sra. Klein e a todos os analistas que, com seu legado, nos ajudam a oferecer o que há de mais precioso em uma análise: um processo de humanização que, uma vez iniciado, tende a se expandir cada vez mais; uma vida criativa, ainda que isso exija atravessar muita turbulência e muita ambiguidade.

Alguns colegas neste dossiê também participaram da Edição Melanie Klein – 100 anos, da revista Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre (2021), e tiveram a gentileza de nos brindar com parte de seus textos. Agradecemos a eles e à revista e convidamos os leitores a conhecer os trabalhos em sua íntegra na publicação da SBPdePA.

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Elisa Maria de Ulhôa Cintra é psicanalista e docente do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP

Marina F. R. Ribeiro é psicanalista e docente do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP


CULT
A CULT é uma revista mensal voltada às áreas da arte, cultura, filosofia, literatura e ciências humanas. Com uma circulação de 35 mil exemplares, distribuídos em âmbito nacional, a publicação é conhecida por sua independência editorial – o que sempre a levou a tratar, em seus vinte anos de existência, de temas pouco explorados normalmente pelos mais variados veículos do jornalismo cultural.

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