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Eleições: por que seria tolo bloquear o Telegram

Indócil, plataforma descumpre decisões judiciais e é vista como nova usina de fake news. Alvo errado: a torrente da desinformação continua fluindo pelo Whatsapp e Youtube, alimentada pela lógica neoliberal de remunerar produção de conteúdos


De OUTRASPALAVRAS, 9 de Março 2022


Imagem: Davide Bonazzi

Primeiro foram as ameaças do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso. Mais tarde veio a decisão daquele que será presidente do TSE durante as eleições, Alexandre de Moraes: ou a plataforma derrubava alguns canais de Allan dos Santos ou quem seria bloqueado por 48 horas seria o Telegram no Brasil. Dessa última vez a plataforma obedeceu.

Por trás da ameaça e da decisão judicial estão processos distintos, mas relacionados ao debate sobre desinformação no Brasil. Barroso se incomodou com a falta de resposta dos responsáveis pelo Telegram, que ignoraram, até o momento, as tentativas de contato feitas pelo TSE. Outras plataformas, como TikTok, WhatsApp, Twitter, Kwai e Google, firmaram memorandos de entendimento em que se comprometem a adotar medidas para as eleições deste ano. Já Moraes atua especificamente no tal inquérito das milícias digitais, que tem feito continuados ataques ao Superior Tribunal Eleitoral (STF). Enquanto a iniciativa de Barroso tem a ver especificamente com o processo eleitoral futuro (e com imagem da urna eletrônica, preocupação número 1 do TSE), a determinação de Moraes se refere à integridade do STF. Neste último caso, desinformação é parte do processo de arregimentação de apoiadores, mas o alvo é uma liderança.

Já há algum tempo, o Telegram tem sido objeto de preocupações da opinião pública no sentido de se tornar um foco importante de espalhamento de desinformação, possivelmente desbancando o WhatsApp, tão relevante no catastrófico processo eleitoral de 2018. As movimentações de Barroso e Moraes contribuem para essa percepção pública, ainda que não diretamente ligadas. A postura do Telegram é errada, sem dúvida, ao não responder à altura da responsabilidade que deveria assumir por ser plataforma de comunicação de milhões de brasileiros. Mas não podemos nos iludir pensando que bani-lo no país vai ter efeito significativamente positivo para o processo eleitoral de 2022. Pode até ter efeito contrário, estando as razões para isso ligadas à sua arquitetura de funcionamento, à história de adoção no país e ao complexo ecossistema econômico de desinformação sustentado pelas plataformas.

Acompanho grupos políticos no WhatsApp e no Telegram desde 2018, quando da greve dos caminhoneiros. Continuei seguindo-os durante as eleições de 2018 e 2020 e, claro, no contexto da pandemia, em que a desinformação ficou mais “científica”. Ao longo desse período muitas peças se moveram, grupos se formaram e se dissolveram e houve bastante migração estratégica entre plataformas. Mas as razões, políticas e econômicas, para a produção de desinformação continuam as mesmas, assim como os mecanismos que fazem com que elas tenham efeito social tão negativo.

Há razões bastante particulares que explicam o sucesso desinformacional do WhatsApp em 2018. O aplicativo é enormemente disseminado no Brasil faz bastante tempo, inicialmente adotado como forma de escapar dos preços abusivos dos SMS. Também há muito tempo, roda “de graça” em quase todos os planos de telefonia. Mesmo quando os créditos do plano pré-pago acabam, ele continua respondendo à troca mensagens, vídeos, imagens e fazendo ligações. Foi maciçamente adotado por empresas, de pequenas a grandes, como substituto do telemarketing. É usado tanto para falar com bancos, como para marcar uma consulta no médico ou mesmo pedir uma marmita no interior do país durante a pandemia. Restaurantes populares não tem margem de lucro suficiente a serem divididas com plataformas como iFood ou Rappi, é tudo por telefone ou WhatsApp. Mais recentemente, até o Estado passou a adotá-lo como interface de comunicação com a população. Algo bem preocupante, pois indica alta dependência de uma estrutura privada, não transparente e internacional.

Ainda que com o Telegram hoje seja possível fazer exatamente essas mesmas coisas, e atualmente o aplicativo rode em mais de 50% dos celulares brasileiros (frente a 99% do WhatsApp), sua cultura de uso é outra. O crescimento é recente, desde 2019, e só alguns poucos planos de celular o oferecem “de graça”. O aumento da base de usuários do Telegram se deu principalmente nos momentos que o Whatsapp passa por dificuldades de acesso, seja por problemas técnicos ou suspensões temporárias em decorrência de decisão judicial arbitrária. Tão logo o serviço foi reestabelecido, a maioria dos usuários retornaram a usar o Whatsapp, ainda que mantendo o Telegram instalado e, eventualmente, usando-o.

Ainda que tenha bem mais recursos, não tem o mesmo “prestígio” e popularidade, é um aplicativo com menor intensidade de uso no dia a dia e de certa forma com usuários de nicho. Esse, inclusive, é um dos apelos do Telegram: sua melhor e mais flexível arquitetura para grupos. Ainda assim, desse desenho “superior” acabam derivando efeitos e hábitos de uso diferentes do WhatsApp.

Limitados a 256 membros, os grupos do WhatsApp oferecem um ambiente mais focado e com uma sensação de maior intimidade e familiaridade entre os membros. A penetração desses grupos é totalmente transversal. O brasileiro médio está inserido em uma grande variedade de grupos: os amigos do futebol, o grupo do condomínio, o grupo dos parentes, o grupo da escola dos filhos, o grupo do trabalho, o sub-grupo do trabalho só com os mais chegados, o grupo da faculdade, dos antigos amigos do colégio. E, talvez, um grupo de política, ou um grupo de discussão sobre vacinas. A mensagem recebida em um desses grupos facilmente é repassada para vários outros. A capilaridade é gigantesca.

Até recentemente, inclusive durante o processo de 2018, no WhatsApp não se sabia nem se a mensagem era fruto de repasse ou de autoria do último remetente. Tinha-se a impressão de que quem repassava era o autor original do envio. O parente próximo, por exemplo, repassava aquela desinformação política no grupo da família, aquela que recebeu no grupo de política, e quem recebia a mensagem achava que o “tio” era o autor original do envio. Para o destinatário, o efeito é de confiança e proximidade. Assim, aumentam as chances de se acreditar na desinformação.

Já no Telegram, por padrão, a não ser que o usuário modifique as configurações, as mensagens são “assinadas”, possuem remetente. É mais fácil rastrear a origem da desinformação e seu possível autor. Como quem posta a mensagem muitas vezes quer aumentar a visibilidade de seu grupo ou canal, a autoria raramente é omitida. Por um lado isso, de fato, é usado como atrativo pelos donos dos canais. Mas por outro, é fácil desacreditar uma informação, por aquele conteúdo vir claramente de um grupo com tendências conspiratórias.

Sem limitar o número de membros, os grupos no Telegram chegam a conter dezenas de milhares de participantes. Porém, a variedade dos grupos é menor, algumas dezenas deles já conseguem reunir toda a audiência que busca um determinado tipo de conteúdo. Por exemplo, informação política de extrema direita, ou teorias da conspiração sobre vacinas. Ou um canal do presidente Jair Bolsonaro.

Em ambos os aplicativos, a maioria dos membros de grupos de discussão é mera espectadora, são alguns poucos perfis que trazem os conteúdos, em geral republicados de outras redes. Há muito pouca discussão de fato e sim uma sequência de envios, por vezes uma mesma mensagem enviada simultaneamente em mais de um grupo. Como o número de membros nos grupos é maior no Telegram, a leitura completa de todo conteúdo postado no grupo é praticamente impossível. Funciona como um canal de televisão, em que se assiste um pouco o que está passando naquele momento. Essa intensidade é menor no WhatsApp, ainda que a comparação do grupo com um canal de televisão também seja válida. Nos últimos meses, vários canais, no WhatsApp e no Telegram, tem adotado recursos de apagamento automático das mensagens após um certo período, como um dia ou uma semana.

Ao se acompanhar grupos de discussão política no WhatsApp e no Telegram percebe-se como cada aplicativo tem culturas de uso diferentes. Enquanto os grupos de política no WhatsApp são mais localizados geograficamente, muitas vezes trazem vídeos e mensagens de políticos sobre sua base regional, os grupos do Telegram são principalmente sobre assuntos globais ou nacionais. Em geral são também mais radicais e falam para um nicho mais engajado. Não tem sido incomum encontrar conteúdo antissemita em grupos bolsonaristas, por exemplo, ainda que sejam logo tagueados para serem banidos pelos administradores.

Isso tudo me levar crer que um eventual bloqueio do Telegram terá efeito mínimo para o combate à desinformação. Os membros dos grupos estão prontos para migrarem para outras redes e devem aderir rapidamente a medidas de contorno ao bloqueio, como o uso de VPNs. Hoje, o Telegram é muito fácil de monitorar para se saber quais conteúdos estão sendo distribuídos, inclusive usando-se de ferramentas quantitativas. O WhatsApp, por exemplo, é bem mais difícil de estudar. Além disso, se houver migração da extrema direita para outras redes, muito provavelmente serão redes compartilhadas com a extrema direita global, fortalecendo essas alternativas extremistas.

No cenário atual, o Telegram corresponde ao lugar de articulação e troca de informações da base de apoio extremista. Capilaridade, capacidade de chegar até a ponta final, quem tem mesmo ainda é o WhatsApp.

Mais acima, comentei como a desinformação forma hoje um ecossistema. Esse ecossistema envolve a circulação de conteúdos por diversas plataformas. Algumas delas, sistematicamente recompensam financeiramente a produção de conteúdo sensacionalista e desinformativo. Deve-se olhar tanto para como as pessoas atuam de acordo com suas ideias tanto quanto agem na busca de recursos materiais. Parece ser claramente o caso da desinformação nas plataformas: a sustentação econômica permite, incentiva e muitas vezes orienta a produção da desinformação. Parte considerável do que é enviado aos grupos está hospedado no YouTube, por exemplo, que paga por visualizações.

Tudo isso significa que é um erro bloquear o Telegram? Se o objetivo for para frear a desinformação, sim. E se, em paralelo, não forem combatidas as recompensas materiais que as plataformas oferecem aos produtores, de nada adiantará firmar lindos memorandos de entendimentos com as empresas. A desinformação precisa ser compreendida não como um fenômeno isolado, fruto de algum tipo de doença social, mas como mais um dos subprodutos nocivos de uma era de neoliberalismo acelerado e capitalismo de plataforma/vigilância. Se o capitalismo industrial nos fez herdar a mudança climática global, a desinformação é como um CO2 emitido pelas plataformas.

Ao mesmo tempo, não pode ser um tabu tomar medidas duras contra as plataformas que eventualmente desobedecem a um Estado legitimamente constituído (mesmo essa nossa democracia precária). O bloqueio é medida limite, extrema, com circunvenções possíveis, prejuízos a usuários inocentes e efeitos indiretos em toda internet. Pode ser um dos recursos, mas tudo isso precisa ser considerado tendo-se clareza dos objetivos a serem alcançados e conhecimento do fenômeno que se está ata

Eleições: por que seria tolo bloquear o Telegram


Indócil, plataforma descumpre decisões judiciais e é vista como nova usina de fake news. Alvo errado: a torrente da desinformação continua fluindo pelo Whatsapp e Youtube, alimentada pela lógica neoliberal de remunerar produção de conteúdos
OUTRASPALAVRAS
TECNOLOGIA EM DISPUTA
Por Rafael Evangelista
Publicado 09/03/2022 às 19:38

Atualizado 09/03/2022 às 19:53
Imagem: Davide Bonazzi

Primeiro foram as ameaças do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso. Mais tarde veio a decisão daquele que será presidente do TSE durante as eleições, Alexandre de Moraes: ou a plataforma derrubava alguns canais de Allan dos Santos ou quem seria bloqueado por 48 horas seria o Telegram no Brasil. Dessa última vez a plataforma obedeceu.

Por trás da ameaça e da decisão judicial estão processos distintos, mas relacionados ao debate sobre desinformação no Brasil. Barroso se incomodou com a falta de resposta dos responsáveis pelo Telegram, que ignoraram, até o momento, as tentativas de contato feitas pelo TSE. Outras plataformas, como TikTok, WhatsApp, Twitter, Kwai e Google, firmaram memorandos de entendimento em que se comprometem a adotar medidas para as eleições deste ano. Já Moraes atua especificamente no tal inquérito das milícias digitais, que tem feito continuados ataques ao Superior Tribunal Eleitoral (STF). Enquanto a iniciativa de Barroso tem a ver especificamente com o processo eleitoral futuro (e com imagem da urna eletrônica, preocupação número 1 do TSE), a determinação de Moraes se refere à integridade do STF. Neste último caso, desinformação é parte do processo de arregimentação de apoiadores, mas o alvo é uma liderança.

Já há algum tempo, o Telegram tem sido objeto de preocupações da opinião pública no sentido de se tornar um foco importante de espalhamento de desinformação, possivelmente desbancando o WhatsApp, tão relevante no catastrófico processo eleitoral de 2018. As movimentações de Barroso e Moraes contribuem para essa percepção pública, ainda que não diretamente ligadas. A postura do Telegram é errada, sem dúvida, ao não responder à altura da responsabilidade que deveria assumir por ser plataforma de comunicação de milhões de brasileiros. Mas não podemos nos iludir pensando que bani-lo no país vai ter efeito significativamente positivo para o processo eleitoral de 2022. Pode até ter efeito contrário, estando as razões para isso ligadas à sua arquitetura de funcionamento, à história de adoção no país e ao complexo ecossistema econômico de desinformação sustentado pelas plataformas.

Acompanho grupos políticos no WhatsApp e no Telegram desde 2018, quando da greve dos caminhoneiros. Continuei seguindo-os durante as eleições de 2018 e 2020 e, claro, no contexto da pandemia, em que a desinformação ficou mais “científica”. Ao longo desse período muitas peças se moveram, grupos se formaram e se dissolveram e houve bastante migração estratégica entre plataformas. Mas as razões, políticas e econômicas, para a produção de desinformação continuam as mesmas, assim como os mecanismos que fazem com que elas tenham efeito social tão negativo.

Há razões bastante particulares que explicam o sucesso desinformacional do WhatsApp em 2018. O aplicativo é enormemente disseminado no Brasil faz bastante tempo, inicialmente adotado como forma de escapar dos preços abusivos dos SMS. Também há muito tempo, roda “de graça” em quase todos os planos de telefonia. Mesmo quando os créditos do plano pré-pago acabam, ele continua respondendo à troca mensagens, vídeos, imagens e fazendo ligações. Foi maciçamente adotado por empresas, de pequenas a grandes, como substituto do telemarketing. É usado tanto para falar com bancos, como para marcar uma consulta no médico ou mesmo pedir uma marmita no interior do país durante a pandemia. Restaurantes populares não tem margem de lucro suficiente a serem divididas com plataformas como iFood ou Rappi, é tudo por telefone ou WhatsApp. Mais recentemente, até o Estado passou a adotá-lo como interface de comunicação com a população. Algo bem preocupante, pois indica alta dependência de uma estrutura privada, não transparente e internacional.

Ainda que com o Telegram hoje seja possível fazer exatamente essas mesmas coisas, e atualmente o aplicativo rode em mais de 50% dos celulares brasileiros (frente a 99% do WhatsApp), sua cultura de uso é outra. O crescimento é recente, desde 2019, e só alguns poucos planos de celular o oferecem “de graça”. O aumento da base de usuários do Telegram se deu principalmente nos momentos que o Whatsapp passa por dificuldades de acesso, seja por problemas técnicos ou suspensões temporárias em decorrência de decisão judicial arbitrária. Tão logo o serviço foi reestabelecido, a maioria dos usuários retornaram a usar o Whatsapp, ainda que mantendo o Telegram instalado e, eventualmente, usando-o.

Ainda que tenha bem mais recursos, não tem o mesmo “prestígio” e popularidade, é um aplicativo com menor intensidade de uso no dia a dia e de certa forma com usuários de nicho. Esse, inclusive, é um dos apelos do Telegram: sua melhor e mais flexível arquitetura para grupos. Ainda assim, desse desenho “superior” acabam derivando efeitos e hábitos de uso diferentes do WhatsApp.

Limitados a 256 membros, os grupos do WhatsApp oferecem um ambiente mais focado e com uma sensação de maior intimidade e familiaridade entre os membros. A penetração desses grupos é totalmente transversal. O brasileiro médio está inserido em uma grande variedade de grupos: os amigos do futebol, o grupo do condomínio, o grupo dos parentes, o grupo da escola dos filhos, o grupo do trabalho, o sub-grupo do trabalho só com os mais chegados, o grupo da faculdade, dos antigos amigos do colégio. E, talvez, um grupo de política, ou um grupo de discussão sobre vacinas. A mensagem recebida em um desses grupos facilmente é repassada para vários outros. A capilaridade é gigantesca.

Até recentemente, inclusive durante o processo de 2018, no WhatsApp não se sabia nem se a mensagem era fruto de repasse ou de autoria do último remetente. Tinha-se a impressão de que quem repassava era o autor original do envio. O parente próximo, por exemplo, repassava aquela desinformação política no grupo da família, aquela que recebeu no grupo de política, e quem recebia a mensagem achava que o “tio” era o autor original do envio. Para o destinatário, o efeito é de confiança e proximidade. Assim, aumentam as chances de se acreditar na desinformação.

Já no Telegram, por padrão, a não ser que o usuário modifique as configurações, as mensagens são “assinadas”, possuem remetente. É mais fácil rastrear a origem da desinformação e seu possível autor. Como quem posta a mensagem muitas vezes quer aumentar a visibilidade de seu grupo ou canal, a autoria raramente é omitida. Por um lado isso, de fato, é usado como atrativo pelos donos dos canais. Mas por outro, é fácil desacreditar uma informação, por aquele conteúdo vir claramente de um grupo com tendências conspiratórias.

Sem limitar o número de membros, os grupos no Telegram chegam a conter dezenas de milhares de participantes. Porém, a variedade dos grupos é menor, algumas dezenas deles já conseguem reunir toda a audiência que busca um determinado tipo de conteúdo. Por exemplo, informação política de extrema direita, ou teorias da conspiração sobre vacinas. Ou um canal do presidente Jair Bolsonaro.

Em ambos os aplicativos, a maioria dos membros de grupos de discussão é mera espectadora, são alguns poucos perfis que trazem os conteúdos, em geral republicados de outras redes. Há muito pouca discussão de fato e sim uma sequência de envios, por vezes uma mesma mensagem enviada simultaneamente em mais de um grupo. Como o número de membros nos grupos é maior no Telegram, a leitura completa de todo conteúdo postado no grupo é praticamente impossível. Funciona como um canal de televisão, em que se assiste um pouco o que está passando naquele momento. Essa intensidade é menor no WhatsApp, ainda que a comparação do grupo com um canal de televisão também seja válida. Nos últimos meses, vários canais, no WhatsApp e no Telegram, tem adotado recursos de apagamento automático das mensagens após um certo período, como um dia ou uma semana.

Ao se acompanhar grupos de discussão política no WhatsApp e no Telegram percebe-se como cada aplicativo tem culturas de uso diferentes. Enquanto os grupos de política no WhatsApp são mais localizados geograficamente, muitas vezes trazem vídeos e mensagens de políticos sobre sua base regional, os grupos do Telegram são principalmente sobre assuntos globais ou nacionais. Em geral são também mais radicais e falam para um nicho mais engajado. Não tem sido incomum encontrar conteúdo antissemita em grupos bolsonaristas, por exemplo, ainda que sejam logo tagueados para serem banidos pelos administradores.

Isso tudo me levar crer que um eventual bloqueio do Telegram terá efeito mínimo para o combate à desinformação. Os membros dos grupos estão prontos para migrarem para outras redes e devem aderir rapidamente a medidas de contorno ao bloqueio, como o uso de VPNs. Hoje, o Telegram é muito fácil de monitorar para se saber quais conteúdos estão sendo distribuídos, inclusive usando-se de ferramentas quantitativas. O WhatsApp, por exemplo, é bem mais difícil de estudar. Além disso, se houver migração da extrema direita para outras redes, muito provavelmente serão redes compartilhadas com a extrema direita global, fortalecendo essas alternativas extremistas.

No cenário atual, o Telegram corresponde ao lugar de articulação e troca de informações da base de apoio extremista. Capilaridade, capacidade de chegar até a ponta final, quem tem mesmo ainda é o WhatsApp.

Mais acima, comentei como a desinformação forma hoje um ecossistema. Esse ecossistema envolve a circulação de conteúdos por diversas plataformas. Algumas delas, sistematicamente recompensam financeiramente a produção de conteúdo sensacionalista e desinformativo. Deve-se olhar tanto para como as pessoas atuam de acordo com suas ideias tanto quanto agem na busca de recursos materiais. Parece ser claramente o caso da desinformação nas plataformas: a sustentação econômica permite, incentiva e muitas vezes orienta a produção da desinformação. Parte considerável do que é enviado aos grupos está hospedado no YouTube, por exemplo, que paga por visualizações.

Tudo isso significa que é um erro bloquear o Telegram? Se o objetivo for para frear a desinformação, sim. E se, em paralelo, não forem combatidas as recompensas materiais que as plataformas oferecem aos produtores, de nada adiantará firmar lindos memorandos de entendimentos com as empresas. A desinformação precisa ser compreendida não como um fenômeno isolado, fruto de algum tipo de doença social, mas como mais um dos subprodutos nocivos de uma era de neoliberalismo acelerado e capitalismo de plataforma/vigilância. Se o capitalismo industrial nos fez herdar a mudança climática global, a desinformação é como um CO2 emitido pelas plataformas.

Ao mesmo tempo, não pode ser um tabu tomar medidas duras contra as plataformas que eventualmente desobedecem a um Estado legitimamente constituído (mesmo essa nossa democracia precária). O bloqueio é medida limite, extrema, com circunvenções possíveis, prejuízos a usuários inocentes e efeitos indiretos em toda internet. Pode ser um dos recursos, mas tudo isso precisa ser considerado tendo-se clareza dos objetivos a serem alcançados e conhecimento do fenômeno que se está atacando.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROSQUINHENTOS
TAGSBOLSONARISMO E REDES SOCIAIS, CAPA, CAPITALISMO DE PLATAFORMAS, CONTEÚDOS REMUNERADOS, ELEIÇÕES 2022, JUSTIÇA ELEITORAL, REDES SOCIAIS, TELEGRAM, ULTRADIREITA, WHATSAPP, YOUTUBE


RAFAEL EVANGELISTA

Rafael Evangelista é doutor em Antropologia Social, pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp), professor da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural (Unicamp) e membro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits). É autor de Para além das máquinas de adorável graça: Cultura hacker, cibernética e democracia (Edições Sesc).

cando.

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RAFAEL EVANGELISTA
Rafael Evangelista é doutor em Antropologia Social, pesquisador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp), professor da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural (Unicamp) e membro da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits). É autor de Para além das máquinas de adorável graça: Cultura hacker, cibernética e democracia (Edições Sesc).

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