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Circuito da resistência negra curitibana

Do IHU, 17 Março 2022
Por: Igor Sulaiman Said Felicio Borck



Comumente, Curitiba é associada a diversas cidades Europeias, e essa analogia se torna muito perigosa quando visa esconder a verdadeira Curitiba: uma cidade diversa e multiétnica, que possui uma história particular de resistência e luta antirracista. História essa que está estampada em suas praças, monumentos e espaços públicos.

Por vezes, acreditamos - e reproduzimos isso em nosso imaginário - que Curitiba é uma cidade majoritariamente “branca” porque recebeu muitos imigrantes do centro e do leste Europeu, como, por exemplo, ucranianos, poloneses e alemães, porém quando analisamos a história da cidade, com um olhar voltado aos seus monumentos e espaços públicos, como praças, estátuas e largos, percebemos que a cidade é muito mais diversa e plural do que as pessoas imaginam.

Para debater uma visão mais includente de Curitiba, o CEPAT promoveu, junto com seus parceiros, o primeiro encontro da série de debates Sociedade Racismo de 2022, com o título Presença da população negra em Curitiba e seus espaços simbólicos. Nesse encontro, que contou com a exposição de Caroline Glodes Blum, da Associação de Capoeira Angola (ACAD), e a mediação de Nivaldo Arruda, conhecido como Paulo Borges, da Associação Cultural de Negritude e Ação Popular dos Agentes de Pastoral Negros (ACNAP), tivemos a oportunidade de percorrer um caminho de resistência negra pela cidade, começando pela Igreja do Rosário, passando pela Praça Tiradentes, até chegar à Praça Zumbi dos Palmares.



Caroline Glodes Blum, da Associação de Capoeira Angola (ACAD), e Paulo Borges, da Associação Cultural de Negritude e Ação Popular dos Agentes de Pastoral Negros (ACNAP), na atividade: Presença da população negra em Curitiba e seus espaços simbólicos

Caroline Blum iniciou sua apresentação com os dados do Censo de 2010 sobre a população negra em Curitiba, dividida por bairros. Os bairros com maior presença negra são: Prado Velho (40,56%), Ganchinho (38%), Tatuquara (34,45%), Campo de Santana (33,81%) e São Miguel (31,62%). Quando olhamos para esses números, fica muito explícito que a cidade possui uma grande presença negra, diferente do que muitos pensam. Por sua vez, esta presença marca seus espaços públicos.

Na sequência, Blum fez uma passagem pelos principais lugares da cidade que representam a presença e a luta do povo negro curitibano contra o racismo. O primeiro espaço apresentado foi a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, situada no Largo da Ordem, centro histórico da cidade e recentemente palco da polêmica que envolveu a legítima manifestação de setores do movimento negro contra a morte do jovem congolês Moïse Kabagambe. A Igreja do Rosário, como é conhecida, foi construída por negros e para os negros escravizados, tendo sua inauguração em 1737.



Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, Curitiba, Paraná (Fonte: Prefeitura de Curitiba)

A Igreja do Rosário hoje é um símbolo importante de resistência das populações negras de Curitiba, sendo atualmente utilizada pela Pastoral Afro-Brasileiro, da Arquidiocese de Curitiba, como local de encontros e realização de celebrações. Para muitos membros do movimento negro de Curitiba, a Igreja representa a luta do povo negro por respeito, igualdade e fraternidade. Segundo Blum, a Igreja do Rosário é um ícone das populações negras de Curitiba e assim deve ser sempre lembrada.

O segundo espaço público apresentado por Blum foi a Sociedade Operária Beneficente Treze de Maio, fundada em 1888 por Hilário Munhoz, Benedito Modesto da Rosa, Candido Ozório, Manoel Pereira dos Santos, José Pinto da Rocha, Izidoro Mendes dos Santos e Norberto Garcia, todos ex-escravizados que haviam recém-conquistado a sua liberdade no recente processo abolicionista. Blum argumenta que a Sociedade Treze de Maio sempre foi um espaço para o encontro, organização e a ajuda mútua entre a população negra. Além de ser um espaço de promoção da luta antirracista na cidade, também é um grande espaço de valorização da cultura do samba.



Na sequência, Blum discorreu sobre o Pelourinho e a fonte “Água pro Morro”, ambos localizados na Praça José Borges de Macedo. O Pelourinho foi instalado em novembro de 1668, por Gabriel de Lara, então capitão-mor e procurador do Marquês de Cascais, senhor das Terras do Capitão Paranaguá, sendo um símbolo de opressão, violência e dominação portuguesa da região. Blum considera importante manter viva a memória desse espaço, símbolo das arbitrariedades do Estado perante as populações vulneráveis. Trata-se de uma página da história que deve fazer com que as forças sociais repilam qualquer violação dos direitos humanos.

Na mesma praça, encontramos a fonte “Água pro Morro”, um escultura de Erbo Stenzel, que representa um mulher negra chamada “Emerenciana Cardoso Neves”. Segundo Blum, o artista queria retratar uma mulher negra, subindo o morro, carregando na cabeça uma lata de água. Uma cena muito comum no Rio de Janeiro dos anos 1940, onde o artista estudava Escultura. Atualmente, a estátua de Emerenciana é símbolo da resistência e da luta da mulher negra em Curitiba.



Escultura “Água pro Morro”, de Erbo Stenzel (Fonte: Brasil de Fato, foto de Fabio Orlando Ortolan)

Também foram apresentados outros espaços importantes que representam a presença e a luta do povo negro em Curitiba, como a Praça Tiradentes, entendida como um espaço sagrado para as populações negras, por conta de sua natureza, a Praça 19 de Dezembro e as estátuas de Erbo Stenzel e Humberto Cozzo, que representam o homem paranaense olhando para o futuro, e a Praça Zacarias, também conhecida como Largo do Chafariz, que recebeu a instalação da primeira fonte pública de água potável da cidade, em 1871, feita pelo engenheiro negro Antônio Rebouças.



Outro espaço importante mencionado por Blum foi a Praça Zumbi dos Palmares, que homenageia o líder do Quilombo dos Palmares, o maior quilombo do período colonial. No local, encontramos o Memorial Africano, que possui 54 totens que representam todos os países do continente africano. Segundo Blum, a Praça Zumbi dos Palmares é palco de diversas manifestações artísticas e culturais das populações negras de Curitiba.



Praça Zumbi dos Palmares, Curitiba, Paraná (Fonte: Prefeitura de Curitiba)

Continuando o seu percurso pela cidade, Blum também fez referência à Praça Mansueden dos Santos Prudente, que homenageia um grande artista, o Mestre Chocolate, um dos maiores nomes do carnaval curitibano. Na sequência, falou sobre as Ruínas de São Francisco, onde na aquarela de Jean-Baptiste Debret, retratando a Curitiba de 1827, aparece um homem negro trabalhando na construção da cidade.


Aquarela de Jean-Baptiste Debret, retratando a Curitiba de 1827 (Fonte: Arquivos da UFPR)

E para finalizar sua caminhada pelos espaços públicos que representam a presença da população negra em Curitiba, citou o Viaduto Capanema, conhecido antigamente pelo nome de Vila Tassi, como uma importante região de Curitiba para produção e difusão do samba curitibano, que tem suas raízes na presença das populações negras. A Escola de Samba Colorado, campeã do carnaval de 1964, foi lembrada como um exemplo desse processo.


Após percorrer esses importantes espaços para a negritude curitibana, Blum avaliou que tomar conhecimento de toda essa história é crucial para reconhecer o protagonismo da população negra na cidade. Valorizando essa memória, é possível revigorar o engajamento nas lutas antirracistas atuais, enfrentando o
racismo estrutural.

Eis a íntegra da exposição e debate



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