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A primeira guerra da ‘Era do Descenso Energético’. Artigo de Antonio Turiel e Juan Bordera

Do IHU, 21 Março 2022
Por Antonio Turiel e Juan Bordera



“Tem se falado muito sobre as motivações geopolíticas e geoestratégicas da invasão russa, sobre os motivos que levaram Vladimir Putin a um ato tão ousado de agressão. (...) Mas há um fator ao qual quase não se deu atenção em toda essa discussão: o fator energético”. A reflexão é de Antonio Turiel e Juan Bordera, em artigo publicado por CTXT, 18-03-2022. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 24 de fevereiro de 2022, as tropas russas invadiram a Ucrânia. Quando as bombas russas começaram a cair, uma nova era começou. O novo conflito armado no coração da Europa nos pegou de surpresa, mas não deveria ter nos surpreendido tanto.

Tem se falado muito sobre as motivações geopolíticas e geoestratégicas da invasão russa, sobre os motivos que levaram Vladimir Putin a um ato tão ousado de agressão. Geralmente tentando entender, mais que justificar, o motivo dessa atrocidade. A anexação do rico e russófilo Donbass, o controle do Mar Negro, a intenção de colocar um governo dócil em Kiev ou o freio à expansão indecorosa da OTAN. Razões que, sem dúvida, pesaram muito na mão implacável que governa o Kremlin há décadas. Mas há um fator ao qual quase não se deu atenção em toda essa discussão: o fator energético.

E não é que não se tenha falado à saciedade, ainda que superficialmente, da enorme dependência energética da Europa em relação à Rússia, do impacto que teria a diminuição do fluxo de gás para o Velho Continente, ou do novo gasoduto Nord Stream 2 que conectaria a Rússia com a Alemanha diretamente através do Mar Báltico. Mas todas essas discussões nos explicam as consequências, os efeitos do conflito bélico. Não nos falam sobre as causas energéticas desta guerra. Não as causas imediatas, mas as mais profundas, mais radicais e subterrâneas.

A Rússia é um dos poucos países que fala abertamente sobre o peakoil ou o pico de produção do petróleo. A partir desse momento em que a produção de petróleo atinge seu máximo técnico, econômico e físico e começa a declinar inexoravelmente, por mais investimentos, tecnologias e inovações que sejam utilizados para evitá-lo. Em consonância com outras declarações anteriores no mesmo sentido, em 2021 o ministro da Energia russo reconheceu que a extração de petróleo russa provavelmente nunca retornará aos níveis pré-pandêmicos, um gesto de honestidade que raramente encontraremos em qualquer instância pública ocidental. Na mesma linha, é sabido que a produção de gás natural na Rússia está praticamente estagnada há mais de duas décadas, com uma recuperação de curta duração nos últimos anos impulsionada pela entrada em operação dos últimos campos, no leste da Sibéria. E não se pode ir mais para o leste.

Vivemos no Século dos Limites, e na Rússia, mais do que em outros países, isso é bem conhecido e até reconhecido publicamente. Nos gabinetes do Kremlin sabe-se que a atual bonança dada pela abundância de recursos minerais, com os recursos energéticos na vanguarda, é temporária. E por isso mesmo, certamente a Rússia está interessada em se posicionar da melhor forma possível para o futuro. Controlar o acesso ao Mar Negro, neutralizar ameaças futuras, controlar a produção mundial de cereais... Todos esses objetivos estão intimamente alinhados com uma possível estratégia para lidar com os muitos picos na extração de matérias-primas que nos aguardam.

Do outro lado do Atlântico também jogam suas cartas. No momento em que já se começa a reconhecer que a bonança do gás fracking está com os dias contados, também é do interesse dos Estados Unidos aproveitar essa abundância enquanto durar. O único mercado terrestre que os EUA têm para o gás fóssil é o México, mas é insuficiente para sua capacidade de produção atual, então nos últimos anos, para poder transportá-lo por navio, os EUA aumentaram exponencialmente sua capacidade de liquefação de gás, e atualmente, com mais de 50 bilhões de metros cúbicos por ano, é o maior produtor mundial de gás liquefeito (GNL). Mas, claro, o gás liquefeito é muito mais caro, e só na Europa teriam condições econômicas para comprá-lo. Essa é a verdadeira razão pela qual os EUA se opõem há anos à conclusão do Nord Stream 2 e colocaram todos os tipos de obstáculos no pacto entre os russos e os alemães: perfeitamente abastecidos com gás russo mais barato, dificilmente haveria mercado para o GNL estadunidense.

Mas como o gigante estadunidense justificou sua audácia de interferir nos assuntos comerciais entre dois outros países? Até agora, a desculpa era impedir que a Alemanha (e através dela a Europa) se tornasse excessivamente dependente da Rússia para obter energia, embora fosse difícil argumentar, pois a Europa também importa de lá grandes quantidades de carvão, petróleo e até urânio enriquecido. Agora a guerra tornou isso muito mais fácil. E é por isso que a Alemanha, com relutância, teve que aceitar que o Nord Stream 2 não vai mais abrir, e anuncia grandes investimentos em usinas de regaseificação para receber o gás do amigo estadunidense... Os poucos anos que lhe restam antes de começar a diminuir inexoravelmente.

Há, possivelmente, outra motivação mais perversa para que os EUA se interessem por uma guerra na Ucrânia. Na Era do Descenso Energético, não haverá energia para todos. Não como antes. E dada a forte interdependência econômica entre a Europa e a Rússia, se forem impostas sanções à Rússia, a Europa também sofrerá suas consequências, muito mais do que os norte-americanos.

Sem o gás russo, a Europa entraria em colapso em questão de uma semana, e a promessa de reduzir em dois terços as importações de gás do gigante eurasiano só poderia ser cumprida – na ausência de fornecedores capazes de suprir a enorme quantidade enviada pelos russos – se o continente sofresse um verdadeiro colapso econômico, uma contração como nunca se viu antes. Um colapso de seu metabolismo social que seria necessariamente confuso e caótico. É por isso que as sanções europeias são tímidas. Da mesma forma, a Europa não pode subitamente romper seus laços com o carvão russo, nem com seu urânio enriquecido, e dificilmente poderia encontrar um substituto para seu petróleo. A Rússia afundaria economicamente com todas essas sanções, é verdade, mas a Europa também afundaria. Uma situação que alguém nos EUA talvez tenha calculado poderia ser melhor do que outra em que a Rússia e a União Europeia se entendessem, forjando uma aliança muito perigosa para os estadunidenses, que ficariam muito isolados.

O que talvez esses cálculos não previram eram os derivativos: cientes da descomplexificação do Império e de que o pêndulo já parece oscilar para o Oriente, a Arábia Saudita cogita vender seu petróleo aos chineses em yuan. Também à Índia. O uso do dólar como moeda de reserva internacional está em perigo, e com isso a mais do que óbvia aceleração – especialmente desde a retirada no Afeganistão – do declínio do império americano. Os Estados Unidos dependem pouco dos produtos energéticos russos – é por isso que as importações da Rússia podem ser proibidas –, mas acontece que dependem do ferro, níquel ou urânio enriquecido russos. E a Rússia, que não é idiota, também reagiu com proibições. Certamente isso também não foi planejado.

Um mundo verdadeiramente multipolar está nascendo, enquanto tudo isso soa como o início da desglobalização, que era inevitável a médio prazo. Mas também no início de uma fase de salve-se quem puder – ou quem tiver – que poderia ser um desastre se o ódio e a vingança se enraizarem, que dificultam a colaboração necessária para pilotar desafios tão urgentes quanto o climático, que são compartilhados.

A Era do Descenso Energético não seria um mar de rosas, e sabíamos disso. Que de repente as fontes de energia não renováveis (petróleo, carvão, gás natural e urânio) que nos fornecem quase 90% da energia primária consumida no mundo comecem a diminuir não é um bom presságio. Falávamos de recessão, de desemprego e até de tumultos. Mas está ficando cada vez mais claro que também se tratará de mais guerras. Guerras para tentar aproveitar os recursos vitais e guerras para ajudar, mas que o outro vá para o inferno.

Entre as espoletas mais letais e eficazes dessas guerras está a escassez de alimentos. Já alertamos – antes do conflito – de como a fossilização (“fazer depender dos combustíveis fósseis”) e a industrialização da agricultura nos levaram à beira de uma grave crise alimentar mundial, agora exacerbada pelo conflito, pelas sanções e pelo controle russo no celeiro da Europa: a Ucrânia.

A escassez de cereais antecipa graves problemas no Egito, Marrocos, Tunísia, Argélia... Países cruciais para a Europa, que já passaram por Primaveras Árabes em 2011, impulsionadas pela falta de alimentos. Acrescente a isso a dificuldade de acesso a água potável, e verão o conflito entre o Egito e a Etiópia em torno da Barragem da Renascença, que os egípcios repetidamente ameaçaram bombardear. Visualizem a seca que está afetando grandes áreas da América do Sul, América do Norte, Europa ou África devido ao caos climático. E acrescentem a isso uma União Europeia completamente viciada nos recursos minerais que a Rússia costumava lhe dar barato e que agora terá que procurar em outros lugares. Despejem algumas gotas de populismo e crescente manipulação da mídia patrocinada pelas potências econômicas. Exacerbem os medos de desabastecimento já treinados durante o confinamento, agitem-nos fortemente durante semanas em que a classe média ocidental vê crescer o medo de deixar de existir, ao mesmo tempo que vê a ameaça da precariedade. Observem como tudo isso levanta a espuma do militarismo e, então, sirvam-se da mistura bem quente. Et voilà: graças a esta fórmula, conseguiremos que os países europeus entrem em guerras, procurando garantir recursos vitais para manter um estilo de vida já impossível. E ainda por cima, que tal implantação militar seja vendida em legítima defesa (ou assim o espectador médio europeu e espanhol acreditará).

A guerra da Ucrânia não é a última: é a primeira da Era do Descenso Energético, aquela que marca o ponto de ruptura. Um descenso que, a menos que façamos algo rápido e coordenado, será feito a cotoveladas, alguns países pisando em outros pela falta de honestidade de alguns governos que se recusam a reconhecer que colidimos com os limites biofísicos do planeta. Neste descenso energético confuso e caótico, sempre haverá uma guerra em alguma Ucrânia, seja na Europa, América do Sul, Ásia ou África. Neste momento há mais 17 guerras ativas, além daquela que ocupa as capas dos jornais do Primeiro Mundo, que às vezes parece o prelúdio do último [mundo].

Mas outro descenso energético é possível. Sempre foi possível e ainda é. Um descenso em que se assumem os limites do planeta e o excesso insustentável do ser humano “civilizado”. Um descenso em que reconhecemos que quem temos à nossa frente não é um inimigo a ser saqueado, mas um irmão a quem é melhor abraçarmos com força. Quebremos essa roda perversa e cooperemos antes que seja tarde demais para todos. Não às guerras. Malditas as guerras e os canalhas que as fazem.

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